Alguns estão enterrados? É preciso desenterrá-los e levá-los para o conforto do Panteão… O descanso por lá deve ser bem melhor e os sonhos devem fluir ao sabor da escuridão e não do vento porque naquele “santo” lugar não há correntes de ar e o chão estará garantidamente seco…
Cada partido defende as suas damas, ou melhor, as suas cores. Há já quem questione se no futuro haverá espaço para tantas propostas a candidatos. Sim, é preciso preparar o futuro para que os ossos se diluam na dignidade do Panteão, porque julgarão alguns que estando lá, mais facilmente a vida eterna será mais fácil e fará mais sentido…
Nunca o Panteão foi lugar tão apetecível a avaliar pelas palavras de pessoas da sociedade civil e religiosa, bem como alguns deputados que esgrimam sensatamente os seus argumentos dada a seriedade do assunto. Vaticinam nomes que direta ou indiretamente pertenceram à família ideológica do seu “clube”. Quando falam de um assunto tão delicado e sério, esses parlamentares parecem até mostrar responsabilidade e verdade dando a entender que todos se respeitam…
Muito recentemente, um grupo de deputados fez uma proposta de alteração à lei legislativa de forma a possibilitar alguns mortos a entrarem no Panteão Nacional. Interessante mesmo, pois se os deputados fazem as leis à medida de alguns mortos, é de acreditar de que também eles sejam capazes de fazerem leis à medida de alguns vivos. É preciso preparar futuro. Quem sabe se um dia alguém os propõe uma vez que as leis se vão ajustando a desígnios e conveniências de alguns seres eloquentes protegidos e abençoados por lugares que ocupam?
Com tanta concorrência, temo que os cemitérios venham a perder clientela com a debandada a caminho do Panteão e a transladação de outros que já habituados ao seu espaço e sossego terão de ser beliscados na sua fragilidade corporal sem que alguém lhes peça opinião, sem que para isso não sejam ouvidos nem achados…
Todos ao Panteão, dirão daqui para a frente tantas vozes que se achem com direito de rumarem a tão almejado lugar…
Há que acautelar o futuro, construindo um Panteão só para futebolistas, outro para ministros e deputados, presidentes da república que não vão querer perder este filão de oportunidades. Mais jogadores estarão em lista de espera…
Panteão para carpinteiros, trolhas, calceteiros, varredores, mulheres de limpeza? Quem sabe! O futuro a Deus pertence e ele oferece-nos muitas surpresas. Há que não perder a fé.
Ah! Um Panteão para Professores… Sim e com toda a justiça… Não é esta classe quem preparou e prepara todos os moradores de tão nobre e distinto lugar?… Vá, vamos lá, deixem-se de tretas: todos para o Panteão. Eu, como Professor, também não perdi a esperança. Prudência para novos moradores recomenda-se, pois isto não é uma corrida a ver quem chega primeiro, nem uma disputa partidária.
Almeida Garrett, João de Deus, Aquilino Ribeiro estão lá justamente e Miguel Torga porque não está? Com a sua escrita telúrica e desassombrada, verdadeira, cristalina, radicalmente livre. Torga, homem de verticalidade granítica, alguém de fortes raízes incrustadas nas rochas e nos penedos. Torga nome de urze bravia, campestre cor de vinho… Torga, nariz afilado para melhor sentir o cheiro da terra e dos antepassados…
Com sentido nobre e pátrio como marca de água. Disse um dia: “Sair da pátria? Nunca, para isso teria de partir metendo no bornal o Marão, o Douro, o Mondego, as vogais da língua”. Mais: “o sulco do arado é tão impressivo para mim como o traço da caneta…leio tanto numa lavrada alentejana como num livro…”
Não deve ser o cargo que cada um exerce para chegar lá, mas sim o que cada um fez de relevante e patriótico. Como alguém disse: “Querem comemorar os nossos mortos? Então ajudem os vivos a compreendê-los.”




