Não se sabe ao certo a origem deste cão de raça transmontano. A mais ventilada diz respeito ao mastin ibérico. As suas qualidades reconhecidas levam que exista uma grande procura. Um dos criadores desta raça é Luís Mário, de Vila Frade (Chaves), que contou, ao Nosso Jornal, algumas das suas características e potencialidades. “É uma raça com um grande potencial. Até já começam a existir criadores no Sul do país e mesmo no Brasil”.
Um outro facto curioso prende- -se com os pastores alentejanos que agora em vez do “seu” rafeiro alentejano, estão a optar por este cão. “É um animal útil com boas características de guarda e também de companhia. Chega a atingir os 70 kilos e tem uma boa agilidade para apanhar lobos e raposas”.
A raça em si começou a ser trabalhada e investigada para reconhecimento nos primórdios da década de 2000. Foi a última raça portuguesa que foi reconhecida pelo Clube Português de Canicultura. O seu berço como criação começou em Vinhais e em pleno Parque Natural de Montezinho, estendeu-se depois pela zona de Chaves, Montalegre, Boticas e também para o sul do distrito. Os pastores gostaram muito e agora não o dispensam. A sua versatilidade é tanta que alguns pastores colocam o rebanho no monte sozinhos com os cães e estes não deixam fugir nenhum animal. “É um cão que não é muito brincalhão, mas é obediente”, frisou Luís Mário.
Estes animais podem ser dependentes da raça mastim espanhola e comem cerca de 40 kg de ração por mês. O preço de cada cão bem tratado de 6 a 8 semanas pode em média variar entre os 300 e 400 euros.
Dispensa de pastor
Outra das suas características é uma grande autonomia que o cão de gado transmontano possui. “A sua vigilância é tão profícua que dispensa praticamente a presença de pastor. Mesmo em zonas montanhosas e sensíveis a ataques de predadores. Os cães assumem a guarda, evitam perdas e a atividade pastorícia fica beneficiada”, realçou Luís Mário.
Quanto à sua resistência aos invernos e verões, os cães tem muita versatilidade. “Eles chegam a escavar buracos na terra para se aquecerem no inverno e respondem as intempéries com a mudança de pelo”.
Segundo este criador, na região deve haver algumas centenas de animais, em que um só um criador tem cerca de 40 cães.
O futuro parece ser risonho para esta raça. O tempo que aí vem, será de consagração desta raça, pois gradualmente irá conquistar o seu espaço junto de alguns setores de atividade e a sua procura será ainda maior. Neste sentido, a raça começa a aparecer em algumas exposições, nomeadamente no Porto, Chaves, Boticas e em Vinhais. “Sente-se uma procura crescente da raça e alguns sem nascer já tem dono, dado o interesse das pessoas”, confessou Luís Mário.
Origens
Esta raça une-se à história de todos os mastins ibéricos e a sua evolução está ligada à rota da transumância na Península. Companheiro do pastor com funções específicas de guarda contra o ataque do lobo, desde sempre prolífero na zona. Em épocas remotas, este cão fixou-se nas regiões altas de Portugal, nomeadamente em Trás-os-Montes.
Esta raça adaptou-se às condições da região e ao tipo de gado ovino e caprino que, tradicionalmente, tem pastagem nestas áreas, evoluindo.
O Cão de Gado Transmontano desenvolveu-se naturalmente no nordeste de Trás-os-Montes, com pouca influência do pastor na criação. A seleção destes cães era ditada pela natureza e mais concretamente pelo lobo. É uma raça possante e funcional que desempenha de forma exemplar a função de guarda. Particularmente utilizado para defender os rebanhos de ovelhas e cabras, a popularidade da raça caiu quando o êxodo rural e a emigração mais se verificaram na região. Com a necessidade de proteger o lobo, a importância da utilização destes cães pelos pastores tornou-se vital.
Apesar da sua longa história, só recentemente é que a raça foi reconhecida pelo Clube Português de Canicultura, mas aguarda ainda o reconhecimento do FCI. O escalão desta raça é provisório, valendo por um período de cinco anos após a aprovação.
A sua territorialidade e capacidade de iniciativa, torna-o num cão de guarda de rebanhos de exceção. A zona onde é mantido ou passeado é entendida pelo cão como sua e tenta sempre protegê-la de estranhos. Está adaptado ao frio rigoroso do inverno transmontano, mas também ao calor sufocante do verão. Para se proteger das condições atmosféricas, escava buracos na terra, em busca de abrigo do vento forte ou em procura de um local mais fresco. Mantido em jardins, a relva é sempre esburacada. É um cão que necessita de bastante espaço e não é indicado para ambientes urbanos. Embora se habitue à trela, este cão prefere cumprir a sua função livremente no campo.
ACCGT
A Associação de Criadores de Cães de Gado Transmontano (ACCGT) está sedeada em Vinhais e existe um protocolo de colaboração entre esta Associação e o Parque Natural de Montesinho.
A ACCGT tem como objetivos a promoção e a divulgação da raça e contribuir para o seu melhoramento e manutenção nos rebanhos de Trás–os-Montes, atendendo à sua função única na proteção dos ataques de lobo. Tem também como finalidade promover e dinamizar a criação do Cão de Gado Transmontano e estabelecer a ligação com o Clube português de Canicultura. Atualmente, a Associação é constituída por meia centena de sócios, dos quais 70% são criadores de ovinos ou caprinos.
Hoje em dia, o Cão de Gado Transmontano já existe um pouco por todo o país e começou também a haver algum interesse pela raça além fronteiras, estando já alguns exemplares na França e na Alemanha.
Os registos de cães adultos e de ninhadas processa-se atualmente através do Parque Natural de Montesinho e está enquadrado através de um protocolo celebrado entre esta instituição e o Clube Português de Canicultura..





