Sábado, 2 de Julho de 2022
Eduardo Varandas
Eduardo Varandas
Arquiteto. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Um caso insólito e kafkiano

Quem já tenha passado pela Rua da Escola Politécnica, em Lisboa, junto do antigo Palácio de Palmela, onde atualmente funciona a Procuradoria-Geral da República, ter-se-á dado conta, com certeza, de um caso insólito e kafkiano, protagonizado por um casal idoso que, desde há mais de vinte anos a esta parte, ali assenta arraiais, clamando por justiça.

-PUB-

Quem por ali passa não pode ficar indiferente ao panorama que lhe é dado observar, perante a presença dum casal idoso, sentado nuns banquinhos improvisados, no passeio, acompanhado de um painel, com uma profusão de escritos e fotos, colocado na parede, mesmo ao lado da porta do edifício sede da PGR. 

Há dias, ao fazer o percurso a pé, do Largo do Rato, a caminho do Bairro Alto, passando naquele local, deparei-me com esta situação caricata e insólita, parei por curiosidade, por uns instantes, para observar in loco o dito painel, tendo sido abordado, civilizadamente, por um dos membros do casal que me obsequiou com uma pequena brochura, de várias páginas, onde se encontra relatado todo o historial que os atormenta, há vários anos. 

Ao chegar ao meu destino, dei-me ao trabalho de a ler, com alguma atenção, e a ser verdade o que ali vem descrito chega-se à conclusão que estamos perante um caso verdadeiramente kafkiano, envolvendo dois irmãos, um juiz e outro notário, irmãos do esposo do casal, sendo ambos acusados de burlar os anciãos, num assunto de partilhas e outros bens patrimoniais. 

Na verdade, quer faça sol, chuva ou vento, este casal não arreda pé da porta da Procuradoria-Geral da República, todos os dias, desde as 7horas da manhã até às 16.30h, exceto aos fins-de-semana e feriados, exigindo justiça, para o seu caso, que já fez correr muita tinta e permanece sem fim à vista.

A Justiça, que é tão célere noutras situações, como, por exemplo, num outro caso, muito badalado pela imprensa, envolvendo a investigadora Maria de Lurdes Rodrigues, condenada a 3 anos de prisão efetiva por injúrias e difamação a um juiz, neste caso concreto assobia para o lado, fazendo de conta que nada se passa. Das duas uma: ou condena o casal por falsas declarações e injúrias, ou lhes dá razão obrigando os visados a reporem aquilo de que são acusados, acabando, de vez, com este triste espetáculo que todos os dias ali é exibido e que não dignifica ninguém.

Na realidade, vivemos num país que mais parece um manicómio ambulante do que um Estado de direito. Onde cada vez mais parece existir uma justiça para pobres e outra para ricos. 

Mais Lidas

Subscreva a newsletter

Para estar atualizado(a) com as notícias mais relevantes da região.