Segunda-feira, 4 de Julho de 2022
Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Vaidades no facebook

Todos os dias há espetáculo, a todas as horas chovem notícias, fotografias em catadupa nas redes sociais.

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Fotografias que raramente são atuais, sobretudo quando o elemento feminino tem mais de 50 anos, e elas não querem envelhecer, mas sim impressionar atualizando fotos cujos rostos já não lhes pertencem e, de um dia para o outro, lá se vão atualizando esperando que do lado de lá alguém lhes diga: “que linda que tu estás Rosalina, oh, tás sempre jovem, guapa… ai, os anos não passam por ti… ai, continuas a mesma gatona de sempre”.

Se é homem, e sabendo-se da idade real, elas lá vão dizendo: “Como eu te conheci assim, eras um galã, um giraço, um malandreco engatador, todas te queriam, todas te desejavam… oh! como tinhas a barba loira e o cabelo ruivo… ai, como eu me lembro tão bem”.

O facebook, é um meio comunicador onde facilmente estralejam girândolas de vaidade. 

A cada momento somos torpedeados com imagens repetidas, notícias gastas subtraídas de jornais, alguns duvidosos, todos os dias se despejam assuntos que ninguém quer saber, ou porque só falam de guerra, ou porque procuram lembrar um currículo de sucessos, na ânsia desesperada de memorar que foram pessoas importantes e que agora, não fazendo nada de útil, querem mostrar à sociedade os galões caducos que outrora ostentaram.

 Todos os dias, há pessoas que procuram obstinadamente omitir a idade exibindo fotos antigas, algumas ainda do tempo da escola secundária, quando agora são avós experimentadas, carunchadas das fissuras da vida.

A nossa importância deve avaliar-se por aquilo que somos capazes de fazer em benefício alheio. Como seres sociáveis, devemos saber viver em sociedade, sermos humildes para que todos nos aceitem como parceiros entusiastas da mesma caminhada da vida. 

Afinal, se nós somos apenas o passado, não vivemos o dia de hoje e não somos felizes, apenas nos escondemos numa redoma de vidro, sofridos e martirizados porque cortamos a própria liberdade. 

Vivemos a obsessão pelo corpo, porque é sabido que a velhice é sinónimo de fragilidade, doença, ausência de produtividade e de despesa, tudo o que esta sociedade não quer. É pois necessário reinventarmos uma forma coletiva de estar, justa e igualitária onde a velhice não seja segregada e o envelhecimento do corpo seja aceite como algo que faz parte da nossa condição de vida. É preciso, de vez em quando, esquecer o facebook e ir para a rua na demanda de um amigo, de um qualquer desvalido e conversar despreocupadamente até que um outro ser apareça.

O elevador social está encravado, a avaria é estrutural e não é de conserto fácil, o que há a espaços são uns clarões que iludem, o facebook a isso tem ajudado porque ludibria, mascara os verdadeiros problemas da vida.

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