A Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) atribuiu, no dia três, o doutoramento “Honoris Causa” ao empresário e produtor de vinho Francisco Olazabal que, além de uma vida dedicada ao legado familiar na produção vitivinícola, teve um papel importante ao nível do associativismo na região duriense.
Trineto de Antónia Adelaide Ferreira (Ferreirinha), um dos principais rostos da história do Douro Vinhateiro, Francisco Olazabal sublinha que “teve a sorte de nascer no vinho”. “A vida não me deu grande escolha mas, felizmente, sempre gostei do que faço”, explicou o empresário que hoje gere a Quinta de Vale de Meão, uma propriedade que marca um capítulo importante na história da região por ter sido o “último grande investimento” da Ferreirinha e a “única quinta que ela criou a partir de terreno virgem”, depois de adquirir em hasta pública, à Câmara de Foz Côa, 300 hectares de terrenos.
Para o doutorado, receber o reconhecimento da universidade “foi uma honra e uma surpresa”, que se deveu “ao facto de ter tido uma carreira muito longa ligada ao vinho, e com algum sucesso”, mas também à sua dedicação ao associativismo (enquanto membro de várias associações como a Associação de Empresas do Vinho do Douro, da Comissão Interprofissional da Região do Douro, da Confraria do Vinho do Porto). “Esta distinção é também para as pessoas que trabalharam comigo e que me ajudaram, e foram muitas”, reconheceu.
Depois de mais de 70 anos de dedicação à região vinhateira, o empresário recorda os tempos em que “no Douro se passava fome”, e classifica como muito positivo o desenvolvimento económico ao longo das últimas décadas. “As condições de vida melhoraram muito. Houve muita mudança ao longo dos anos”, defende o duriense, referindo ainda os altos e baixos dos vinhos do Porto, a grande “pojança” com que surgiram os vinhos DOC Douro e “o movimento de rejuvenescimento e de melhoria de tudo que é a tecnologia do vinho e da vinha”, conseguido graças ao aparecimento de uma “camada de novos enólogos e empresários que contrariaram a tendência antiga de ir para o litoral”, o que, segundo o próprio, deve-se muito à UTAD.
Sobre os desafios a enfrentar para o futuro do Douro, Francisco Olazabal defendeu que é “preciso que os interesses se organizem”, que as pessoas “se mobilizem e se motivem para defenderem o que consideram justo para a sua actividade”. “Há ainda muito individualismo”, lamentou.
“O vinho do Porto está a passar por uma crise que me parece ser importante e cuja solução passa muito pelo Douro se mobilizar no sentido de ter associações verdadeiramente representativas”, sublinhou ainda o doutorado, classificando o estado actual da Casa do Douro como “agonizante” e incapaz de responder às necessidades existentes actualmente.
Apesar de considerar que o Douro não está hoje no seu auge, Francisco Olazabal acredita que a região “está a ressurgir claramente”, o que é visível não só no sector agrícola com a plantação de muitas vinhas novas, mas também através do progresso no turismo, que ainda tem muito a dar mas que deve ser pensado “de forma prudente” de forma a respeitar “a paisagem e o interesse natural, que são os ingredientes importantes na atracção das pessoas”.
Carlos Sequeira, reitor da UTAD, explicou a importância da atribuição do doutoramento a Francisco Olazabal lembrando que o empresário “apostou ficar no Douro” e fez “ressurgir a mítica Quina de Vale Meão”.
“Trata-se de um marco para a região mas também para toda a enologia portuguesa”, defendeu o reitor.
De recordar que, a UTAD vai entregar, ainda este ano, mais um doutoramento “Honoris Causa”, desta feita ao cineasta centenário Manoel de Oliveira. Ainda sem data marcada, Carlos Sequeira acredita que a cerimónia poderá realizar-se em Outubro.



