Há quem não tenha fé na ressurreição dos mortos mas acredite na reencarnação. Muitos mais detestam a frase “lembra-te que és pó e a pó irás voltar”, fazendo tudo para que a morte os apanhe lindos, limpos, saudáveis, fazendo mil e um esforços para que o seu corpo seja permanentemente recauchutado, em vida. Quanto à recauchutagem da alma, preferem satisfazer-se na crença de que ela continuará viva “no outro mundo”.
O mundo é um palco de contradições. Há quem queira fazer testamentos vitais, temendo que o fim os apanhe quando estiverem doentes e doridos, defendendo, pois, que a doença e a dor não são sinal de dignidade na morte. Para a garantir, advogam a eutanásia, situação pouco clara, tendo em conta que muitos médicos invocarão objeção de consciência. Se a eutanásia não levantasse suspeições, os médicos aceitá-la-iam com mais naturalidade. Por outro lado, há muitos que anseiam ser congelados, deixando a morte em suspenso até que outra era lhes permita regressar sem receio. Esse tipo de vida entrecortada por diferentes partes do tempo poderá evitar a dor e a doença, poderá criar aspirações de solução futura para os seus males, mas será sempre um paliativo prolongado no tempo. E isso não será, provavelmente, muito agradável.
“Para morrer basta estar vivo” – defende um velho anexim. “Tudo o que nasce é para morrer” – sentencia a corrente filosófica em que assentam as verdades de La Palisse. Mas há aquele poeta alentejano que José Mário Branco cantou e que diz que “a morte nunca existiu”. É que se não há vida sem morte também não haverá morte sem vida.
E dizia o Lavoisier: “Na Natureza nada se cria nada se perde, tudo se transforma”. Poderão muitos acreditar nisto, mas não lhes interessará muito que seja verdade. As gentes da Síria que o digam…





