A profecia do ancião

No Inverno é pior. O vento sopra entre as ruelas ladeadas de paredes em pedra, entoca nas frinchas das portadas roídas de caruncho, roça nas armações destroçadas dos telhados, assobiando como um demo. Depois, a chuva batida, descarregando a raiva dos céus nos lajedos puídos, descendo calçadas em cataratas, enlameando terreiros. O céu cobre-se de um cinzento triste, a meio da tarde cai a noite negra, e o silêncio regressa. Aqui e ali, o pingar de gotículas numa caleira, uns restos de brisa atrasados, mas sempre aquele silêncio de abandono.

Nem o ladrar de um cão. A aldeia está vazia, oca de gente, pressentindo-se nela um vácuo onde a vida já não medra. Há silvados a crescer, musgos a cobrirem as rochas, verdetes e ferrugens, um cheiro no ar a bolor, e sempre, mas sempre, aquele silêncio inquietante. Só a mim, andarilho de montes, me dá ganas de subir a estes povoados a horas que nem eu sei. E nem a sorte de me cruzar com um fantasma que, saudoso como eu, insista ainda em ficar por cá, algum dia tive. Acho que até os fantasmas se foram, as almas penadas, os duendes, os trasgos, os faunos, juntamente com o resto da bicharada. Só uma

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