Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2026
No menu items!
Vila RealTanha, o rio “moleiro” que corre desconhecido e esquecido…

Tanha, o rio “moleiro” que corre desconhecido e esquecido…

É uma das jóias da coroa dos rios selvagens existentes em Portugal. Está situado na parte sul do concelho de Vila Real, desagua no rio Corgo, na freguesia de Vilarinho dos Freires (Peso da Régua). O rio corre junto a cerca de 60 moinhos de água, quase todos abandonados e possui dezenas de levadas, apresentando algumas espécies da fauna e flora em vias de extinção.

-PUB-

É um rio em “estado puro” em grande parte do seu percurso, principalmente até chegar perto da aldeia de Tanha, na freguesia de Nogueira. Começa a ser visto na aldeia de Galegos, concelho de Vila Real, e apresenta vários motivos de interesse ao longo do seu percurso. Nos fins do séc. XIX e até meados do séc. XX, a sua água fez girar centenas de mós de moinhos que produziram farinha para abastecer a região e em especial o concelho de Vila Real. Existe uma grande variedade de espécies, que se podem encontrar ao longo dos seus 50 quilómetros de extensão, nomeadamente raposas, texugos, pica-peixe, bogas, escalos, barbos, enguias, trutas, tartarugas dos rios (cágado), cobras aquáticas, milhafres, garças castanhas, gralhas, corvos, coelhos bravos, javalis, ouriços-cacheiros, corujas, mochos, pegas e lebres.

O rio felizmente “ainda se encontra num elevado estado selvagem, sendo também distinto pela existência do ‘feto-real’ (uma planta que só se desenvolve em ambientes de elevado estado de pureza)”, referiu ao Nosso Jornal, Romeu Sampaio, professor/investigador, residente em Tanha. “Possui a cascata do Poço do Requeijo que no tempo das invasões dos mouros tinha uma passagem secreta por baixo desta cascata que permitia a fuga dos habitantes do vale para o cimo do monte chamado Crasto”. “O Poço da Bomba e antes da quinta da Ribeira (que possui uma imponente ponte romana) pode-se ver o Poço Sino (deslocava-se um carro de bois com um sino para uma igreja das imediações e este, por acidente, deixou cair o respetivo sino neste local de difícil acesso e lá ficou perdido por entre os fraguedos); há ainda a lenda do Penteadinho da Gingeira que aparecia nos montes; das bruxas que tomavam banho em grandes algazarras no Poço do Calhau (frequentes histórias contadas por moleiros). Ao mergulhar na densa floresta junto ao rio nos seus pontos mais baixos, sente-se uma sensação única perante tal beleza e poder da natureza”.

Confrontado com a ausência de qualquer iniciativa de valorização e requalificação turística do rio, o vereador da Câmara Municipal de Vila Real, Miguel Esteves, admitiu o ostracismo a que foi votado o curso de água, no entanto sublinhou que a iniciativa não deve partir só da autarquia, mas também dos privados e das populações em geral. Este responsável reconhece que é necessária “a sua reabilitação em termos paisagísticos para torná-lo visitável ao longo da sua linha de água, com a implementação de circuitos pedonais”.

Um outro habitante da aldeia de Tanha, Dinis Farinho, referiu que as pessoas da aldeia ainda não sabem respeitar o rio e as instituições deveriam olhar mais por ele. “Este rio foi tão importante pela atividade que desenvolveu que muitas pessoas da terra têm apelidos de moleiros”.

De realçar que, a Rede de Voluntariado Ambiental de Vila Real limpou na manhã de sábado alguns dos resíduos do rio Tanha, junto à aldeia com o mesmo nome. Esta ação foi inserida no Programa de Preservação da Biodiversidade de Vila Real, Roga dos Rios, que a autarquia está a desenvolver e que envolve 150 pessoas. Do seu leito, foram retirados vários objetos, nomeadamente cadeiras, sofás e frigoríficos.

 

Percurso Pedestre – Rota do Vinho e dos Moleiros

Romeu Sampaio conhece o rio como “as suas mãos” e lamenta a falta de interesse das instituições para a preservação de “um dos últimos rios selvagens” do país e da Europa. “Tem que haver um trabalho exaustivo das entidades públicas para a preservação do rio na zona do Tanha. É inconcebível que a 50 metros da aldeia o rio esteja com lixo. A cidade de Vila Real poderia ter aqui praias fluviais ou zonas de lazer únicas. Acho que as atenções só existem com outros rios do concelho, mas para este, aqui no Tanha, não há nenhuma iniciativa. O poder central e o autárquico têm culpas no cartório, já que é um rio com potencial que está por explorar. Considero que é urgente uma sensibilização pública para atitudes de preservação deste rio. É ainda urgente colocar sinalização coerciva e limpar o rio junto à aldeia do Tanha”.

A sua paixão e interesse na promoção do Tanha, levou Romeu Sampaio a criar um projeto que ainda aguarda aprovação das entidades públicas. Trata-se do percurso pedestre – Rota do Vinho e dos Moleiros, que tem como objetivo a criação e homologação de um percurso pedestre na região do Douro Vinhateiro, mais propriamente nas freguesias de Nogueira e Abaças, situadas no limite sul do concelho de Vila Real e início do limite norte do concelho do Peso da Régua. Neste percurso poderemos encontrar zonas de grande interesse cultural, histórico e paisagísticos integrados na região do Douro Património Mundial (UNESCO). A escolha do local prende-se com o facto de se tratar de uma zona com alguns recursos naturais favoráveis à prática do pedestrianismo.

“A implementação, e posterior homologação deste percurso, pretende dinamizar este local, assim como dar a conhecer um pouco do rio, do património cultural, histórico e paisagístico da região, que tem grande interesse”.

De sublinhar que, há alguns anos chegou a ser anunciada a constituição de uma associação ligada à promoção e defesa do Tanha, mas que acabou por não sair do papel.

APOIE O NOSSO TRABALHO. APOIE O JORNALISMO DE PROXIMIDADE.

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo regional e de proximidade. O acesso à maioria das notícias da VTM (ainda) é livre, mas não é gratuito, o jornalismo custa dinheiro e exige investimento. Esta contribuição é uma forma de apoiar de forma direta A Voz de Trás-os-Montes e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente e de proximidade, mas não só. É continuar a informar apesar de todas as contingências, nunca paramos um único dia.

Contribua com um donativo!

VÍDEO

Mais lidas

PRÉMIO

ÚLTIMAS NOTÍCIAS