A estas palavras, ela perturbou-se e ficou a pensar que saudação seria aquela. Disse-lhe o Anjo: Não tenhas receio, Maria, pois achaste graça diante de Deus. Hás-de conceber e dar à luz um filho ao qual porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo; dar-Lhe-á o Senhor Deus o trono de Seu pai David, reinará eternamente na casa de Jacob e o Seu reinado não terá fim. Disse Maria ao Anjo: Como será isso, se eu não conheço homem? Disse-lhe o Anjo, em resposta: Virá sobre ti o Espírito Santo, e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a Sua sombra. Por isso mesmo é que o Santo que vai nascer há-de chamar-Se Filho de Deus. (…) Maria disse então: Eis a escrava do Senhor: seja-me feito segundo a tua palavra”(1, 26-35; 38).
Depois do fiat de Maria a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade tomou carne no seio puríssimo daquela que foi Virgem antes, durante e depois do parto.
A sua determinação de viver a virgindade, inspirada pelo Espírito Santo, é um anúncio do Novo Testamento, no qual a virgindade tem excelência sobre o matrimónio, sem por isso diminuir a santidade de união conjugal, que é elevada à dignidade de sacramento (cfr Gaudium et spes, nº 48).
Maria ao receber a visita do Anjo ficou perturbada, mas por pouco tempo, pois logo o Anjo a tranquilizou: «Não temas». Maria tornou-se a escrava do Senhor e o Senhor velaria por Ela. E por nós? Será que também não vela? É um facto só que nós, muitas vezes, por soberba julgamos saber mais do que Deus e o «omnia in bonum» – tudo concorre para bem, não passa para nós de letra morta.
E se Maria não tivesse dito fiat? Se se tivesse escudado numa falsa humildade (coisa impensável n’Aquela que, isenta do pecado original, não teve jamais pecado), o que seria da Humanidade? O fiat de Maria é mais do que um «sim», é uma entrega total ao Senhor para toda a vida. O seu fiat começou na Anunciação, e prolongou-se por todo o sempre, mesmo depois da Ascensão do Senhor, como Mãe da Igreja nascente.
Tentemos imitar Maria e demos ao Senhor tudo o que Ele nos pedir, mesmo que sejam umas pobres redes rotas, como os Apóstolos, uns pães e uns peixes como o rapazinho que colaborou no milagre da multiplicação dos pães ou duas moedas de escasso valor como as da viúva louvada por Jesus.
Estamos a escassas semanas da Comemoração da Paixão e Morte de Jesus, bem como da Sua Ressurreição. Ele que viera pela Encarnação estabelecer um laço de amizade entre Deus e os homens, vai agora selar essa amizade com a Morte na Cruz. A nossa atitude não pode ser senão de profunda e sincera gratidão – a Jesus e a Sua mãe, Maria, que nos foi dada como mãe no alto do Calvário, na pessoa de S. João: “Estavam junto à cruz de Jesus, Sua mãe, a irmã de Sua mãe, Maria, mulher de Clopá, e Maria de Magdala. Jesus, ao ver a mãe e o discípulo que amava, ali presente, diz à mãe: Senhora, eis o teu filho. A seguir, diz ao discípulo: Eis a tua mãe. E a partir daquele momento, recebeu-a o discípulo em sua casa”(Jo. 19, 25-27).
“E como Maria, a mulher, também o discípulo predilecto é, simultaneamente, uma figura concreta e um modelo de discipulado que existe e deverá existir sempre. Ao discípulo, que o é verdadeiramente na comunhão de amor com o Senhor, é confiada a mulher: Maria, a Igreja” (Jesus de Nazaré – Da Entrada em Jerusalém até à Ressurreição, de Joseph Ratzinger – Bento XVI).




