A desclassificação “nunca vai acontecer”. A confiança veio do presidente da Liga dos Amigos do Douro Património Mundial (LADPM), Armando Moreira, um dos convidados da iniciativa “O mundo no Douro”, que desafiou um conjunto vasto de personalidades a definir a região em cinco minutos e representou uma das primeiras acções de comemoração dos 10 anos da classificação da Unesco.
O presidente da Liga acredita que o trabalho desenvolvido ao longo dos últimos dez anos, desde a classificação, em Dezembro de 2001, pela UNESCO, do Vale do Douro enquanto Paisagem Cultural Evolutiva Viva, “valeu a pena”, porque para além do esforço ao nível da preservação, a região saiu a ganhar, sobretudo, quando se fala da sua “promoção”.
“Vai continuar a valer a pena. O reconhecimento fez com que o Douro seja mais conhecido e mais visitado, e esse é um aspecto que registamos com muito agrado”, defendeu Armando Moreira.
Confrontado com a possibilidade, defendida pelos ambientalistas, de desclassificação devido às alegadas consequências na paisagem da construção da Barragem de Foz Tua, o mesmo responsável voltou a reforçar que não acredita nessa possibilidade. “Pode haver um ou outro sítio que, por uma ou outra razão, foi adulterado. Em relação à barragem, nós chamamos a atenção para isso à própria UNESCO, mas também percebemos o que está em causa da outra parte. Muitas vezes é preciso conciliar os dois interesses”, explicou Armando Moreira, salvaguardando que “não podemos ser fundamentalistas”.
Durante um fim-de-semana pelo Douro, organizado pela Rota do Vinho do Porto e da Associação de Empresários Turísticos do Douro e Trás–os-Montes (AETUR), um conjunto de jornalistas de todo o país foi convidado não só a conhecer as paisagens que mereceram a classificação, em toda a extensão do Vale, e algumas das muitas quintas e empresas hoteleiras e de restauração que dão vida à região, mas também a visão de várias entidades, ligadas a vários sectores durienses.
O Douro “é uma tela genial, pintada por muitas gerações”, sublinhou Ricardo Magalhães, chefe da Estrutura de Missão do Douro, que falou ainda da região enquanto uma “terra de paradoxos”, lembrando que, apesar de ter 85 por cento da produção do seu produto de excelência, o Vinho do Porto, comercializado em todo o mundo, em termos turísticos, apenas 15 por cento das pessoas que a visitam são estrangeiros.
“Vamos fazer do Douro uma região rica, onde se ganha a vida”, apelou o chefe da Estrutura de Missão do Douro.
Também António Martinho, presidente da Entidade Regional de Turismo do Douro, e Artur Cascarejo, presidente da Comunidade Intermunicipal do Douro e da Câmara Municipal de Alijó, deixaram “apelos” nas suas intervenções de cinco minutos, mas desta vez aos potenciais turistas, para que visitem “a paisagem humanizada mais bela do mundo”. “Apelo a todos que tiveram oportunidade para que venham vê-la. Já temos uma série de infra-estruturas com pessoas de grande profissionalismo mas também com uma grande paixão em receber”, sublinhou Artur Cascarejo.
António Martinho sublinhou igualmente a hospitalidade do povo duriense que, “apesar da rudeza do trabalho durante todo o ano”, são “capazes de receber muito bem”.
O repto da Rota do Vinho do Porto foi lançado a muitas outras individualidades, que, em cinco minutos, falaram sobre Números (Nuno Fazenda, técnico da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte), Gastronomia (Paulo Vaz, director da Escola de Hotelaria e Turismo do Douro-Lamego), Enoturismo (António José Teixeira, presidente da Associação de Empresários Turísticos do Douro e Trás-os-Montes e da Rota do Vinho do Porto), Douro Natural (Alexandra Pinto Lima, técnica do Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade), Vinhos (José Mesquita Montes, viticultor), Côa (Fernando Real, presidente da Fundação Côa Parque), Azeite (Francisco Pavão, produtor e consultor), Cinema (Luísa Cerqueira, autora e apresentadora do programa Fotograma), Museus (Elisa Babo, presidente do Conselho de Administração do Museu do Douro), Arquitectura (Fernando Seabra (director Interino do Museu do Douro) e Jazz (José Duarte, autor, apresentador e realizador do programa “Cinco minutos de jazz”).
‘Fantasma’ da desclassificação
ganha novo fôlego
Praticamente a partir do primeiro aniversário do Douro Património da Humanidade que se fala na possibilidade de desclassificação, uma hipótese que ganhou maior visibilidade ontem, com a divulgação, através de uma notícia do Jornal Público, da informação de que “o Comité do Património Mundial considera que a construção da barragem de Foz Tua tem um impacto irreversível e ameaça os valores” que estão na base da classificação.
Recentemente fonte Comissão Nacional da UNESCO explicou publicamente que, à semelhança do que aconteceu com outros sítios classificados, o título “permitiu que a região ficasse mais conhecida internacionalmente e pudesse chamar turistas”, desenvolvendo, consequentemente, “toda a economia da zona”.
Além do balanço positivo da classificação, a mesma fonte garantia não ter qualquer conhecimento da possibilidade de desclassificação do Douro. “Eu não sei de onde vem essa ideia, porque não temos qualquer informação sobre isso”, garantiu a mesma responsável, referindo no entanto, que, tal como acontece com outros sítios classificados, “existem sempre queixas de várias entidades”.
A notícia do Público causou uma avalanche de reacções, entre as quais a de António Martinho, Presidente da Entidade Regional de Turismo do Douro, que, apesar de referir não ter conhecimento do relatório mencionado, não podendo se pronunciar sobre o mesmo, considera que a possibilidade de desclassificação, levantada sistematicamente, é má para o destino turístico.
Na próxima segunda-feira, dia 14, a região vai comemorar assim a primeira década do reconhecimento do Alto Douro Vinhateiro, uma região com 25 mil hectares que abrange 13 municípios.
Apesar dos esforços ao nível dos investimentos públicos e privados, que incluem, por exemplo, os 443 milhões de euros aprovados no âmbito do QREN 2007/2013 (322 milhões dos quais de fundos comunitários), o Douro ainda é reconhecido como umas das regiões que conta com menores índices de desenvolvimento do país, sendo de recordar que, só na última década, perdeu 16 mil pessoas.



