É a luta dos partidos pelo seu futuro. O calcanhar de Aquiles dessa formação é o excesso da feição partidária, dando como verdadeiro o que o respectivo partido defende e como errada a perspectiva dos adversários. Mas é alguma coisa.
2 – A Igreja ensina que «deve cuidar-se muito da educação cívica e política do povo; e ela é particularmente necessária hoje, tanto para o conjunto do povo, como, e sobretudo, para os jovens. Aqueles que são ou podem tornar-se capazes de exercer a arte muito difícil, mas ao mesmo tempo muito nobre, da política, devem preparar-se para ela; que eles se entreguem a ela com zelo, sem se preocuparem com o seu interesse pessoal nem com as suas vantagens materiais. Lutarão com integridade e prudência contra a injustiça e a opressão, contra o absolutismo e a intolerância, quer sejam obra dum homem ou dum partido político; e consagrar-se-ão ao bem de todos com sinceridade e rectidão, mas ainda com o amor e a coragem exigidos pela vida política» (Vaticano II- Constituição sobre a Igreja no mundo contemporâneo, 75).
Fala-se neste texto das atitudes éticas fundamentais dos políticos, mas, além delas, há outros requisitos indispensáveis: a competência científica, o conhecimento dos variados sectores da vida em sociedade, a capacidade de diálogo.
De facto, criou-se na opinião pública a fantasia de que ser político é ser «habilidoso», «saber falar ao povo», «ter capacidade de argumentação», menosprezando a competência científica. Há casos de jovens e de adultos que enveredaram pela carreira política com vontade de servir. Além dos dotes naturais impõe-se competência científica.
3 – Portugal e toda a Europa confrontam-se hoje com um novo modelo de organização económica. Ate há pouco, a economia do país organizou-se dando ao Estado um lugar preponderante; agora tende-se a entregar a organização e o dinamismo económico aos cidadãos. O anterior esquema diz-se proteccionista, social, «gordo» em linguagem jornalística; o esquema actual classificam-no de liberal, por estimular o mercado livre, e tender para um Estado «magro», isto é, sem estruturas sociais supérfluas e grupos dependurados nele.
O primeiro esquema cria um conforto imediato, uma sensação de segurança, mas consome fortunas, gera alguns hábitos de preguiça, de comodismo e de passividade dos cidadãos; o segundo favorece os mais capazes, os mais dotados, estimula campeões e, como consequência disso, faz aparecer desníveis sociais.
Na Europa tendeu-se durante décadas para o Estado proteccionista que, em casos extremos, chegou a tomar conta de tudo, incluindo a economia; na América do Norte predominou sempre a liberdade de iniciativa dos cidadãos e dos grupos. Actualmente, soprada pela consciência cada vez mais viva do indivíduo, é esta a tendência dominante, deixando a tendência proteccionista, típica do séc. XIX, para os países menos desenvolvidos.
4 – O que ensina a Igreja sobre isto? A Igreja não desce a estes aspectos concretos da organização económica, por não serem da sua competência e nascerem da cultura de cada povo e da preparação dos cidadãos. Anuncia, contudo, alguns princípios gerais que podem ajudar a orientar-nos:
a) «Na organização económica da sociedade, deve ter-se em conta a pessoa humana e os grupos naturais, isto é, na organização económica não deve confiar-se demasiado no Estado»;
b) Deve, contudo, ter-se em conta que muitos cidadãos, pela sua debilidade natural, pela falta de preparação e pelos fracassos naturais, não conseguirão acompanhar os mais dotados, ficando à margem do carro do triunfo. E a Igreja fala de uma hipotética «rede de instituições sociais nos países muito desenvolvidos para garantir assistência social e ser um modo de distribuir os bens», mas acrescenta logo que, «ao organizar essas instituições sociais, deve cuidar-se de que os cidadãos não assumam, em relação à sociedade, uma atitude de passividade, de irresponsabilidade ou de recurso de serviços» (id. n.69).
Neste duplo texto faz-se, por um lado, a afirmação da iniciativa da pessoa e a necessidade de cuidar dos mais débeis; por outro lado, adverte que o cuidado pelos mais débeis não deve criar cidadãos passivos e irresponsáveis.
5 – Os povos do sul da Europa, dizem os sociólogos, são tendencialmente individualistas, dados ao improviso e pouco organizados; os do centro e norte, anglo-saxónicos, são mais frios, esquemáticos, organizados e prevenidos.
Os historiadores da sociedade portugueses dizem que, desde o Marquês de Pombal, os regimes políticos têm dado prioridade ao Estado, e esse proteccionismo manteve-se com a República e com o Estado Novo até à democracia depois do 25 de Abril. O Estado chamou a si o direito de tratar de tudo, de dar empregos, de ensinar, de tratar da doença e da velhice, de garantir reformas, até de criar divertimento e passatempos oficiais. E o povo habituou-se a essa bengala, sendo a maior ambição de muitos cidadãos tornarem-se funcionários públicos, «empregados do Estado». Com a entrada na comunidade europeia, somos obrigados a viver noutro registo. Seremos capazes de nos adaptar?
6 – Que nos espera? – Uma longa aprendizagem.
Quem viveu encostado ao Estado queixa-se agora dos desafios do novo estilo; quem aposta na iniciativa do cidadão responde que deviam lembrar-se mais cedo dessa fatalidade. Economistas dignos de crédito científico e políticos de bom senso começam a gritar que não se queira corrigir em poucos meses um entorse de séculos, e sugerem aos financeiros maior condescendência nos juros.
Resta-nos uma longa aprendizagem. Em qualquer caso, atenção aos mais frágeis.





