Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2025
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IgrejaA inteligência de Jesus

A inteligência de Jesus

(Os teólogos enchem tratados sobre a origem da sua divindade. Os psicólogos dissecam a profundidade da sua mensagem. Os ateus especulam sobre a sua doutrina social. Há, também, o Jesus vingador, o Jesus juiz, o Jesus revolucionário, o Jesus mundano e há, ainda, o Jesus economista – tão propalado nas novas seitas que até prometem […]

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(Os teólogos enchem tratados sobre a origem da sua divindade. Os psicólogos dissecam a profundidade da sua mensagem. Os ateus especulam sobre a sua doutrina social.

Há, também, o Jesus vingador, o Jesus juiz, o Jesus revolucionário, o Jesus mundano e há, ainda, o Jesus economista – tão propalado nas novas seitas que até prometem a subida do PSI 20, em caso de orações colectivas, acompanhadas por dízimos, pagos a tempo e horas.

Contudo, quase nada se fala sobre a sua inteligência, a mesma que o levou a interpretar o mundo e a inferir sobre o rumo certo da Humanidade.

Foi a inteligência de Jesus que humanizou o Homem.

E a inteligência de Jesus era tão humana como o seu corpo.

Foi a inteligência humana de Jesus que demonstrou como ela pode vencer qualquer outra forma de poder.

Inteligência humana, bem entendido!).

Há uma adulteração mórbida neste Cristo mediático que é vendido pelo mundo actual. Do Cristo-moralista ao Cristo-juiz, do Cristo-vingador ao Cristo-revolucionário, tudo serve para alimentar a ansiedade do Homem frustrado por uma existência em que o rumo se perdeu. Cada vez mais sozinho – mesmo que no meio de milhões – o Homem experimenta a pior solidão, aquela em que se sente sem importância, inútil, algo a mais e, como tal, dispensável. Esta é a solidão pior: o Homem vazio de si, sem lugar onde se sinta necessário e sem que outros o reclamem. Este vácuo, deserto incomunicável, transforma-o num ser sedento de falar com algo. Esta materialização de tudo, que grassa na terra abrangendo os próprios sentimentos, as emoções e os desejos, fá-lo esquecer da sua dimensão espiritual. A matéria é mais forte, epidémica, e contagia até a espiritualidade. E o mundo desvairado, violento, reclama a Deus que se manifeste na justiça perfeita, na moral perfeita. Cristo, materializado à nossa imagem e semelhança, assume assim o papel que cada um entende à feição de corresponder aos desígnios de cada qual. O Homem percebe não poder chegar ao tal Deus – cuja linguagem espiritual não cabe na sua bitola – mas acha poder entender–se com Cristo, porque igual a si, e transformá-lo no ícone que lhe alivie o desgosto de momento. Estranhamente, o mundo religioso muitas das vezes embarca neste logro e é ele mesmo a propagandear o Cristo da conveniência momentânea.

Assim, fala-se de Jesus como um ser do género “pau para toda a colher”, número XXL que serve a qualquer um. Mas, muito pouco se fala da sua inteligência. Muito pouco se questiona a sua maneira de inferir, a sua lógica, as suas extrapolações.

Como seria, então, a inteligência de Jesus?

Não sei – e quem sou eu para o saber? – mas sei algumas coisas, muito poucas, como aquela resposta que cobre todas perguntas: a origem divina da inteligência de Jesus.

Mas seria divina? Se o fosse, isso quereria significar que há uma inteligência divina. E haverá?

A inteligência mede-se: uns são mais inteligentes, outros menos, há os idiotas – completamente desprovidos dela, e há os génios – que a têm no seu máximo. A inteligência é mensurável. E então, qual a medida da inteligência de Deus? Será que o Deus sublime tem algo de si mensurável, métrico? Será que Deus é o mais inteligente de todos nós?

Ridículo!

Recuemos: a inteligência não serve para medir a grandiosidade de Deus. Não existe, portanto, uma inteligência divina. A inteligência é humana, material – não espiritual. Jesus era portador de um corpo humano e de uma inteligência humana – disso não tenho dúvidas.

Por isso e muito mais, devia falar-se da tal inteligência de Jesus, da sua maneira humana de entender o seu mundo, não só o “seu” (do seu tempo), mas também como a lógica de um tempo globalizado que atravessa as fronteiras dos séculos. Por isso a sua mensagem é actual e ainda o será daqui a muitos milénios.

Ninguém entendeu as fraquezas humanas como ele. Ninguém, como ele, lhes deu um rumo, um caminho de aperfeiçoamento, de salvação. Esta impressionante capacidade de inferir (estado superior do raciocínio) levou-o à maior revolução no conceito de Poder e à maior mudança na atitude humana perante o universo. Antes da palavra de Jesus, o Poder era o “Ter”, e o Poder media-se pelo número das cabeças cortadas nas batalhas. O Poder era ter nas mãos o destino dos outros. Estes resquícios dos tempos A.C., ainda hoje fazem escola na mente de humanos primários que, há luz do que Jesus ensinou há mais de 2000 anos, permanecem selvagens e animais. Pobres dos que nada aprenderam com 2000 anos de ensinamentos!

Mas depois de Jesus, o Homem aprendeu que o seu caminho era humanizar-se, integralizar-se espiritualmente. Foi Jesus quem humanizou o Homem. E fê-lo só com a força da sua palavra, da sua lógica, da sua inteligência.

Pouco se fala da inteligência de Jesus, repito, porque falar da inteligência de Jesus pode ser uma forma de subversão.

Em tempos, quase que era proibido falar dela, atribuindo-se a Deus tudo o que Jesus dizia e fazia. Era o Jesus-marionete, sem autonomia, manobrado pelo Pai. Era heresia aceitar-se que a inteligência de Jesus não fosse humana. E como ela era Humana! Como Deus quis que fosse humana, com tanto de humana como o corpo que a possuía!

E porquê?

Porque colocou Deus, neste mundo, um ser igual a nós com a missão de nos salvar?

E seria que Deus, ao fazê-lo, pretendia que fosse só para nos salvar?

Onde começam e terminam os limites da missão de Cristo?

E salvar-nos, assim, definitivamente? Sem que, depois, tenhamos que fazer mais nada?

Que veio, afinal, este Cristo cá fazer?

Já vimos que veio salvar-nos, humanizar o Homem. E que mais?

O que falo não passa de mera especulação de uma alma preocupada com estas coisas complexas da existência. Depois dos cinquenta, é inevitável que qualquer um comece a dar mais atenção às dúvidas e a tentar acertar algumas certezas – se tal é possível.

A religião não explica tudo mas a fé sim. Será então com alguma fé que poderemos contornar o cabo das tormentas dos nossos humanos medos.

Medos. Eis aqui algo que, de certeza, fazia parte do roteiro de tarefas de Jesus: ensinar-nos a combater o medo, o nosso ancestral medo. E a quem falar dos nossos medos?

Do que ouvi, do que aprendi, do que pensei, tenho para mim que, para além da missão que Jesus carregou por este planeta, havia outra, mais simples, e que poderia traduzir a forma de nós, limitados humanos, podermos dialogar com o tal Deus cuja essência o torna inacessível para a arreigada materialidade que nos cobre e da qual muito poucos se conseguiram libertar em vida. Era uma missão que só uma inteligência humana podia desempenhar, porque só uma inteligência humana podia ser entendida pelos humanos.

Deus deu-nos Jesus, também para isso. Para que pudéssemos dialogar com ele, exprimir-lhe as nossas angústias, partilhar também as nossas alegrias, falar com ele como se fala com um pai, um irmão, um amigo.

Dialogar com Jesus é aprendermos mais, pois que melhor aprendizagem do que partilhar a inteligência do Mestre. Por isso se diz que quando falamos com Jesus ficamos mais perto de Deus. Mas só é possível falar com Jesus através da inteligência. E não será a inteligência a melhor forma de comunicar?

Nesta Páscoa, habituemo-nos a falar com Jesus e a aprender com a sua humana inteligência. A inteligência de Jesus é uma dádiva de Deus, uma oferta à nossa escala para que a aproveitemos. E é também a demonstração de que a inteligência humana é capaz de mudar o mundo. De tudo o que nos deu, creio que foi a inteligência o maior presente que Deus algum dia nos podia dar.

 

(texto escrito na sequência de uma das muitas cavaqueiras frutíferas que partilhei com o Prof. Dr. Padre Joaquim Fernandes, um ser humano superior, prematuramente falecido, em 2005, com o qual tive o orgulho de trabalhar e de merecer a sua estima)

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