O problema da transmissão da fé é tão vasto e complexo que no próximo ano de 2012 vai realizar-se em Roma a XIII Assembleia ordinária do Sínodo dos Bispos que terá como tema «A nova Evangelização para a transmissão da fé cristã». (Recorda-se que o «Sínodo dos Bispos» é uma estrutura eclesiástica criada depois do Concílio pelo Papa Paulo VI para ajudar o Papa no governo pastoral da Igreja. Tem um secretariado permanente e reúne em assembleia ordinária de dois em dois anos com bispos de todo o mundo eleitos para cada assembleia).
As breves reflexões que desejo apresentar poderão ajudar a perceber a dimensão do problema mesmo na sociedade civil, pois a questão é global. Comecemos por uma observação jurídica.
2 – A transmissão da fé aos filhos é um compromisso assumido por todos os noivos quando se casam: «estais dispostos a aceitar os filhos e a educá-los na fé cristã?», ou seja, a transmitir-lhes a fé? Esse compromisso é também assumido pelos padrinhos em relação aos afilhados: «estais dispostos a ajudar os pais na educação desta criança?» Já entre os hebreus havia compromissos semelhantes: «haveis de transmitir esta fé aos filhos dos vossos filhos, de geração em geração, pelos séculos dos séculos».
Muitos pais e padrinhos não cumprem esses compromissos ou não conseguem que o seu trabalho resulte. E nem sempre é por desinteresse e preguiça. Em muitos casais novos (os nascidos depois do 25 de Abri) infiltrou-se um errado espírito de liberdade religiosa, argumentando que transmitir a fé às crianças seria «forçá-las», sendo mais democrático deixá-las crescer e serem depois elas a escolher, e os padrinhos deixam o papel de figuras exemplares da fé, ficando-se pelos laços de amizade com os pais e por alguma ajuda económica e social aos afilhados. A catequese paroquial reduz-se, para alguns pais, à preparação de uma festa social, sem cuidarem de atingir o íntimo das crianças, nada fazendo em casa para a criação de hábitos de piedade nem para a vivência da Missa aos Domingos. Finalmente, as aulas de moral e religião católica nas escolas encontram um estatuto frágil, e o número de alunos que as procuram vem a descer.
Portanto, as estruturas naturais e eclesiais (família, paróquia e escola) revelam muita dificuldade na transmissão da fé.
3 – Das questões que este facto levanta, a primeira é a reflexão sobre a ideia de liberdade de educação. Da coragem e lealdade na resposta depende a mudança futura.
Nas áreas fundamentais da formação da personalidade da criança (alimentação, higiene pessoal, vestuário, linguagem, criação dos afectos, sentimentos éticos, religiosos e estéticos), não se pode adiar esses actos como sinal do respeito pela liberdade de escolha dos filhos. A liberdade da criança não pode nascer de um deserto, porque a criança morreria ou cresceria carenciada e anormal. O seu «querer» pessoal manifestar-se-á quer na continuação dos hábitos legitimamente transmitidos e recebidos em criança quer na sua hipotética rejeição. Entender a liberdade de escolha da criança a partir do zero é um sofisma, e é triste que muitos pais se deixem arrastar por ele. A transmissão dos valores fundamentais da vida, entre os quais se inclui a fé, é um direito do filho e do aluno.
4 – Há outro obstáculo frequente à transmissão da fé: é a ignorância cultural das palavras e sinais da cultura bíblica. Ignorando o sentido doutrinário e afectivo dessas palavras e gestos, gera-se um vazio, e o ruído matraqueado das palavras nada gera. Dizer que «é costume» não basta, e até ofende a inteligência.
De facto, há as palavras e gestos que não podem ser trocados por outros. Quem viaja de uma terra para outras sabe os mal entendidos e até as anedotas que as mesmas palavras ocasionam quando são usadas noutras regiões. Ora, que entendimento têm as crianças, os jovens e adultos do conteúdo simbólico do «óleo» usado na celebração do baptismo, do crisma e da ordenação sacerdotal? Nunca viram um lagar de azeite. E do incenso e até do vinho? Nem o usam nem bebem! Como entenderão o «vinho novo»? E a palavra «aliança»? Ficar-se-ão pela frágil dimensão política». E os gestos de «impor as mãos» sobre o pão e o vinho na Missa, e sobre os jovens na ordenação? E as parábolas do Evangelho ligadas à vida agrícola e piscatória? Há crianças que nunca viram uma galinha com pintainhos nem um homem fazer uma enxertia, nem a arrastar uma rede de pesca marítima com peixes, algas e lixeira do mar. Como podem entender o seu alcance simbólico? É esse também o drama das músicas usadas pelos jovens no culto: nunca conheceram o mundo bíblico nem as melodias orientais e, por isso, foram buscar ao subjectivismo dos artistas do mundo os gemidos com que pensam exprimir os textos bíblicos! Ainda na semana passada caiu-me a alma aos pés ao ouvir tais gemidos na festa dos 50 anos de um casamento! O próprio casal não gostou da música dos netos.
Alargando a questão, esse problema verifica-se já na ausência de educação literária e artística. Há símbolos fundamentais que estão ameaçados por termos recentes vindos do saber tecnológico e da informática e da sua «eficácia». A esse respeito, lembro o desabafo de uma criança que, habituada a carregar no botão do telemóvel e falar com a mãe, desabafou com ela acerca das palavras do padre na consagração na Missa: «o senhor padre na missa fala para o pão e para o vinho mas fica tudo na mesma».
Aí está um sinal do grande trabalho da educação da nova geração para a simbólica e para a variedade da «eficácia» que é muito mais vasta que a energética.
Há pontes que caíram e que é preciso reinventar.




