O Turismo é referido por muitos como o sector que poderá “salvar a região”, o motor de desenvolvimento que poderá levar o Douro à estabilidade económica e a um futuro mais promissor, para as suas gentes. Recentemente, o Governo procedeu a alterações orgânicas que pretendem marcar a diferença no “arranque” e bom funcionamento desse motor, uma reestruturação que levou à criação do Pólo Turístico do Douro que, na sua fase de instalação, é liderado por Jorge Osório, também Presidente da Agência de Promoção Externa da Região Norte. Algumas das temáticas foram debatidas entre aquele responsável e os jovens partidários Armando Vieira e Rodrigo Sá, em mais uma emissão do programa “Pontos nos J’s”, da Rádio Universidade, que será reposto, na íntegra, no próximo Domingo, às 11 horas, em 104.3 FM.
Na prática, como Presidente da Comissão Instaladora do Pólo Turístico do Douro, como está decorrer o trabalho de articulação entre as duas regiões de turismo já extinguidas?
“Estamos a fazer a reestruturação de uma legislação que manteve, durante muito tempo, as Regiões de Turismo. Esta última fase vinha já de 1987, com uma alteração de 1991. As Regiões de Turismo começavam a ser inoperacionais e, por isso, era, de facto, necessário promover à sua revitalização. Este novo decreto de lei, de Abril, cria as novas entidades regionais que coincidem um pouco com as NUTS II, criando algumas excepções para os chamados pólos turísticos que, por reapresentarem uma mais-valia de determinado território ou produtos que, por serem considerados importantes, terão um tratamento especial, dentro das NUTS II, ou seja, terão alguma autonomia, no sentido de fazerem o seu próprio percurso turístico, mas de uma forma articulada. É uma transição que está a ser muito pacífica, calma e tranquila, porque era desejada por todos.
Na prática, neste momento, foram criadas as novas Comissões Instaladoras que, instaladas por despacho do Secretário de Estado, têm um prazo de 180 dias e, por uma razão de localização, no caso do Douro, ou seja, na NUT III, coube a Região de Turismo do Douro Sul a sua liderança, embora com uma equipa em que estão representantes dos vários organismos”.
Nesta reestruturação, há uma série de pessoas e infra-estruturas sobre as quais ainda não sabemos o futuro. Há funcionários que, neste momento, estarão até preocupados com o que vai acontecer. Qual o papel dos funcionários que tinham um papel de “front-office”? Vamos continuar a ter esses postos de atendimento? E em relação às sedes?
“Quanto às sedes, elas serão determinadas pelo Secretário de Estado do Turismo, quer ao nível das entidades regionais do Norte, mais alargadas, quer em relação aos pólos. As decisões serão do Governo. No entanto, não me parece que seja uma questão que vá atrasar todo um trabalho que é necessário fazer em torno do sector que pode ser um motor de desenvolvimento da região. Por outro lado, hoje, quando a acessibilidade entre Régua, Lamego e Vila Real começa a ser fácil, não me parece que a localização da sede seja problemática. Eu presido à Agência de Promoção Externa da Região Norte e, muitas vezes, decido em Lamego o que se faz em Paris, em Londres ou em Madrid…
Relativamente aos funcionários, não há motivo para estarem preocupados. No que diz respeito ao Pólo Turístico do Douro, não há a questão de excesso de pessoal, como acontece noutras regiões do país. E, além disso, vamos promover á proximidade com as entidades. Ou seja, se queremos apostar na restauração, na qualificação dos serviços, na animação turística, não fará muito sentido que um empresário tenha que se deslocar ao outro lado da região, para ter informações. Portanto, esse «front-office» será reforçado, mas tentando ganhar qualidade e eficiência com a rentabilização dos meios humanos. Por outro lado, faz sentido manter-se as estruturas de atendimento aos turistas. Vamos tentar, a todo o custo, evitar essas questões de mobilidade”.
Agora, vamos ter a marca Douro. Qual é a ideia que tem para a delimitação das competências e tarefas com os Municípios? Estamos em condições de dar esse passo qualitativo de fazer a promoção do Douro, como um todo?
“As Câmaras Municipais, actualmente, têm uma sobrecarga enorme de tarefas e as verbas não são muitas. Por isso, as suas prioridades vão para os serviços de educação, de saúde, protecção civil, acessibilidades… Normalmente, o vereador que está à frente do pelouro do Turismo acumula vários outros pelouros, ou, muitas vezes, nem estão disponíveis, a tempo inteiro. Se queremos dar o salto e rentabilizar esta fileira, temos que estar muito actualizados e saber como acontecem as mudanças neste sector. E elas acontecem, de semana a semana. As Câmaras têm um papel importante. Aliás, nas novas entidades regionais, elas têm a maioria. Portanto, são, no fundo, estruturas que dependem da vontade municipal. Já há um despertar dos Municípios para a realidade do Turismo, para aquilo que o turista pode trazer de beneficio a cada concelho. O que me parece é que é necessário fazer uma articulação entre as actividades que cada Município tem e prepará-las, para que os turistas delas possam ter conhecimento e as usufruam. Tirando Algarve e Lisboa, a maior parte das regiões está a dar os primeiros passos, nesse aspecto. E, quando falamos do Porto e do Norte de Portugal, estamos agora a assistir a uma formação do produto. No Douro, ainda estamos um pouco mais atrás. Ou seja, neste momento, o que temos que fazer é um trabalho muito sério, muito técnico e trabalhar mais rapidamente. Os autarcas têm essa sensibilidade, embora seja evidente que têm uma missão política de promoção do seu Município e não podem perder, nem vão perder, essa legitimidade. Mas, ao fazer uma agenda de eventos regionais, pode captar-se investimento e financiamentos para a sua promoção. Por exemplo, o «Allgarve» não é mais do que isso, um programa que junta os principais eventos que cada Município tem, para divulgação internacional. No Douro, temos muitas iniciativas que não valorizamos, mas, depois, quando damos conta, notamos que os turistas estão todos lá. Nós estamos a construir um produto que é composto por vários pequenos produtos, por isso é um turismo que vai demorar tempo a organizar, criar, formatar e divulgar, mas também temos uma vantagem: será um trabalho consistente”.
Costuma dizer-se, em Economia, que a oferta induz à procura. No Douro, temos um problema de falta de oferta e de procura, mas, sempre que há um acontecimento, na região, de repente, num raio de 30 a 40 quilómetros, esgotam-se as camas. O que se prevê poder acontecer, nos próximos anos, em termos de oferta hoteleira?
“Se nós puxarmos pelos eventos, podemos, com a oferta que temos, neste momento, aumentar a taxa de ocupação. Se puxarmos, por exemplo, a temática das vindimas, uma época que, anteriormente era considerada média, começou a ser uma época alta. Tendo a noção de que não somos um destino de sol e praia, não estamos muito longe da média de ocupação que o país tem. O Norte está com 1,6 / noite, Lisboa tem 1,8 e o Algarve tem 2,0. A questão é que quem vai para Algarve já sabemos que, no mínimo, fica lá oito ou quinze dias. Nos restantes destinos, cada vez mais o turista vai à Internet, vê os pontos disponíveis, vai numa Sexta-feira e regressa, ao seu país, no Domingo, para, passados dois ou três meses, viajar, novamente. Esta é a nova tendência, em termos de turismo, a que temos de nos adaptar. Temos que apostar numa oferta em hotelaria tradicional e turismo em espaço rural. Neste momento, temos cerca de 3.400 camas, a perspectiva é a de que, daqui a três ou quatro anos, perante os projectos que existem, possamos triplicar essa oferta. A meta é atingir as 7.500 camas que são viáveis. Há ainda espaço para termos unidades de grande dimensão, mas o que devemos defender, para o Douro, para acompanhar a realidade, são as pequenas unidades hoteleiras, se possível a adaptação dos hotéis rurais, hotéis familiares que não têm que ter uma carga de serviços e de pessoal muito grande, para fazer face à época baixa, sem rentabilidade.
Temos já uma oferta muito interessante, ao nível das pensões, de hotéis de duas ou três estrelas e, depois, temos as unidades topo de gama, o que é bom, porque há mercado. Uma região só pode ter apetência de destino turístico se tiver essa abrangência.
No entanto, há uma questão para a qual gosto de chamar sempre a atenção. Já vi números que dizem que o Douro deve ter «x» mil turistas, número que nem Portugal tem. Outro erro é quando se diz que o Douro vai ser o quarto destino turístico. Gosto de ser ambicioso, mas nem tanto. Neste momento, temos o Algarve, Lisboa, Madeira e o Porto e Norte. O Porto e Norte podem vir a ser o terceiro destino, mas engloba o Porto, o Douro, o Minho e Trás-os- -Montes. Dentro desses quatro destinos regionais, o Douro é o que tem menos capacidade de alojamento, menos que Trás-os-Montes, por exemplo.
Nesta altura, ainda falamos de uma Comissão Instaladora, mas já conseguimos ter uma ideia do caminho a seguir no Douro?
“Se reflectirmos e lermos com atenção o Plano de Desenvolvimento Turístico do Vale do Douro, temos lá todas as estratégias necessárias para que o Douro seja um excelente pólo turístico. Temos cinco dos dez produtos definidos no Plano Estratégico Nacional. E temos que aproveitar a questão dos cruzeiros fluviais. Apesar de haver quem defenda que os turistas não deixam cá dinheiro nenhum, temos que aproveitar os produtos que o Douro pode oferecer. Dos 200 mil turistas que visitaram a região, cerca de 80 mil utilizaram o barco hotel. A região tem que se organizar, para responder a esses números, saber o que pode vender. Segundo um estudo recente, há destinos com o mesmo tipo de oferta em que os turistas gastam uma média de cem euros, fora do barco. No Douro, não conseguem gastar 20 euros. E isso não é um problema dos operadores nem dos turistas, é um problema nosso, da região. Temos que nos organizar, ter as lojas das recordações nos locais estratégicos. Mais, temos que pegar nos produtos e dar um toque, adaptar, modernizar. Precisamos de vender.
Outro aspecto a rentabilizar é o património mundial: Porto, Guimarães, Douro e Foz Côa. Acho que não há no mundo uma região com tanto património classificado por metro quadrado, mas temos que estudar a forma de trazer gente.
Há muita coisa que precisava da tal estrutura organizada, da interligação das estruturas. Temos que ganhar escala, ganhar dimensão”.
Maria Meireles



