A Voz de Trás-os-Montes – Esperavas atingir o êxito logo na estreita como técnico principal da equipa sénior do Vila Real?
Abel Ferreira – Depois de ter uma experiência como treinador sénior no Bairro Latino e no Lordelo, seguiu-se uma experiência de longos anos na formação e na coordenação das camadas jovens do Vila Real. No ano passado, a direcção vila-realense convidou-me para assumir o comando técnico da equipa sénior. Para mim, foi uma honra poder abraçar este desafio, num clube que gosto muito, um clube que faz parte da minha vida, e do qual sou o sócio número 99. Sou filiado há 46 ou 47 anos, e para além de ter assumido o comando da equipa sénior, também me deram a oportunidade de dirigir toda a estrutura do futebol do clube.
VTM – Mas, muitos acharam que seria uma aposta arriscada por parte da direcção. Concordas?
AF – Com a experiência que fui adquirindo ao longo do tempo, quer como treinador, quer como coordenador do futebol do Vila Real, e noutros tempos em que foi treinador e fundador da Escola Diogo Cão, acho que a aposta não seria arriscada, uma vez que desde sempre estive ligado ao futebol.
Sou um profundo conhecedor do campeonato, seleccionei um bom lote de jogadores, escolhe um bom elemento para a minha equipa técnica, e a direcção, dentro das suas possibilidades, foi preponderante para o sucesso da época. As pessoas foram inexcedíveis, desde o presidente, Artur Ribeiro, o senhor Adoindo, ao apoio de todos os dirigentes do futebol juvenil, que aderiram ao projecto. Não me abandonaram, assim como eu também não abandonei o futebol juvenil. Houve uma espécie de “acordo de cavalheiros”, em que continuei com a coordenação de toda a actividade do futebol e procurei seguir todos os passos das equipas de formação. Mas, admito que, dentro da realidade do próprio clube, pouco acreditariam que fossemos campeões e da forma como o conseguimos.
VTM – Sempre acreditaste que isso seria possível?
AF – Sim, baseado na minha experiência e no lote de jogadores que conseguimos, só numa situação anormal não iríamos alcançar o título de campeão e subir de divisão.
VTM – Agora segue-se uma nova etapa, com o Vila Real a regressar à III Divisão. O que esperas deste novo desafio?
AF – Conheço bem a terceira divisão. Posso até dizer que devo ser o indivíduo nesta cidade que mais jogos viu do Vila Real. Já há muitos anos que acompanho o Vila Real e vou sempre aos jogos, ou como dirigente, ou simplesmente como adepto.
Conheço a realidade do campeonato, os campos onde iremos jogar, os clubes e alguns dos seus dirigentes, apenas não conheço os jogadores, uma vez que o Vila Real nos últimos 5 anos esteve 3 a competir no regional. No entanto, no último mês e meio tive o cuidado de acompanhar o maior número de jogos possível. Aos domingos, fui ver equipas que estavam a competir para descer e outras que estavam a lutar pela subida. Notei que a qualidade do futebol na III divisão tem baixado muito. Posso mesmo afirmar que, com o plantel da época passada, se o Vila Real tivesse jogado na terceira divisão, teria feito um bom campeonato.
VTM – O Vila Real irá estar integrado na Série B, que costuma ser uma das mais competitivas. Como antevês o campeonato?
AF – Este ano, com o Moncorvo, Lamego, Vila Meã, Paredes, Leça, Infesta, Grijó, Rebordosa, Serzedelo, são equipas já com tradição nesta III Divisão e será um campeonato, com toda a certeza, bem competitivo.
VTM – Concordas com o modelo que foi implementado na III Divisão?
AF – Não, de maneira nenhuma. O modelo antigo era mais justo. Este modelo beneficia os plantéis mais competitivos. Quem joga para os primeiros seis classificados fica numa situação descansada, quem fica nos últimos seis pode ficar numa situação aflitiva. Por isso mesmo, estamos a ter algum cuidado na formação do plantel, que irá ter entre 23 e 24 jogadores.
VTM – Como está a decorrer a formação do plantel para a época 2011/2012?
AF – Não podemos sair do orçamento que temos disponível, que é reduzido. Mas, temos procurado fazer contratações responsáveis para honrarmos os nossos compromissos. Atendendo aos objectivos a que nos propomos, teremos que contratar dois a três jogadores para a linha avançada, que terão de vir de fora da região. Claro, que sabemos que isso nos vai custar um pouco mais, mas é necessário para reforçar a equipa nesse sector. Temos encetado esforços para encontrar esses atletas, mas não está fácil. No entanto, ainda temos algum tempo para o início da pré-época. Temos dois blocos (defensivo e meio- -campo) praticamente definidos, mas falta a frente de ataque. Já chegamos a acordo com a maioria do plantel da época passada. Falta saber se o Bouças pretende ou não ficar. Por mim, tem a porta aberta, mas essa decisão não depende apenas da minha vontade. Ainda temos o Abreu, que eu pretendo que integre o plantel, mas ainda vamos falar com ele para alcançarmos um acordo. De resto, está praticamente tudo definido, à excepção dos avançados.
VTM – E quais são os nomes que podes adiantar?
AF – Guarda-redes: Ivo, Cabreca; Defesas: Bessa, Filipe, Kobe, Nuno Fredy, Filipe, Mica (ex-Montalegre), Peixoto, Fredy Coelho (ex-Sousense); Médios: Castanha, Mico, Schuster, Francis, Diogo Seminário (ex-Santa Marta), Pires (ex-Pedras Salgadas), Tapada, Nunes, Carlos Pereira; Avançados: Azevedo, Bouças (por mim fica, mas também depende dele, se quer ou não ficar).
VTM – O Vila Real tentou estabelecer uma parceria com um clube da I Liga, o Vitória de Guimarães. Mas, acabou por não se chegar a qualquer acordo.
AF – Sim, tentamos uma parceria com o Vitória de Guimarães. Ainda há contactos, as portas não estão fechadas. Mas, há duas situações. A primeira prende-se com os jogadores internacionais, que o Vitória só os quer ver jogar na segunda ou na divisão de honra. Depois, há um outro lote de miúdos que não se enquadram dentro daquilo que nos procuramos para o nosso plantel. No entanto, no futuro poderão surgir novos contactos e a parceria poderá efectivar-se. Esta não foi a primeira vez que tentamos fazer este protocolo, já que em tempos tivemos um protocolo com o Guimarães, que não correu bem e nesse ano o Vila Real desceu mesmo de divisão. Mesmo assim, o Vila Real cumpriu escrupulosamente esse acordo e o Vitória também, mas as coisas não correram como o esperado. No entanto, a porta continua aberta para futuros entendimentos.
VTM – Para além do Nuno Pereira, há mais algum elemento que te irá acompanhar no comando técnico da equipa?
AF – Estou muito satisfeito com o trabalho do Nuno. Este ano, vou contar com uma figura da cidade e do clube, o Jorge Rebelo. É uma forma de lhe prestar uma homenagem pelos mais de vinte anos que dedicou ao ‘Bila’. Pela amizade e pelas competências que lhe reconheço, o Jorge tem condições para fazer parte da nossa estrutura, e irá ser uma mais-valia para nos ajudar a cumprir os nossos objectivos.
VTM – No concelho de Vila Real, as infra-estruturas para a prática do futebol ainda estão muito longe de ser as ideais. As obras no Monte da Forca arrancaram, mas já estão paradas desde Janeiro. O que se passa concretamente?
AF – Efectivamente, no Monte da Forca, deu-se início à construção do novo campo sintético, mas as obras estão estagnadas desde Janeiro. Não sei se vão recomeçar, ou não. O certo é que o Vila Real e sobretudo as camadas jovens, precisam urgentemente de um campo sintético para a evolução qualitativa dos miúdos.
O Vila Real está na moda. Tem onze equipas de formação, já na próxima época vai ter mais duas, os sub-13 e os sub- -15, num total que irá ultrapassar os 300 atletas.
Este ano, o Vila Real foi campeão em seniores, juvenis, possivelmente, será campeão de Benjamins, e vamos ver se ficamos também com o título em Infantis. Tudo isto mostra a força e a vitalidade do clube para os próximos anos. Tem sido uma aposta forte de muitas pessoas, entre as quais me incluo, pois sempre estive dentro do futebol de formação. Mas, há um conjunto de gente amiga que me tem ajudado e que um dia lhe prestarei uma devida homenagem. O futebol juvenil tem uma dinâmica muito forte porque essas pessoas, anónimas, esforçam-se por levar este clube para a frente.
VTM – Noto, pelas tuas palavras, que sentes alguma mágoa por falta de apoio de algumas entidades, que deveriam ser as primeiras a colaborar.
AF – À excepção de Lisboa e Porto, mais nenhuma cidade tem três equipas de formação como tem Vila Real (Diogo Cão, Vila Real e Abambres), que no conjunto, devem totalizar cerca de mil atletas. Mas, as condições para esses ‘miúdos’ são praticamente as mesmas de há 30 anos, não se vê nenhum campo novo, nenhum campo melhorado, não se vê o mínimo de condições para a prática da modalidade. Portanto, é natural perdermos com o Braga, com o Varzim, Guimarães, Boavista, entre outros, que têm claramente outras condições de treino e de trabalho.
Tudo o que vier é bem-vindo, face à falta de condições que temos para a evolução destes miúdos. Ao percorrermos o país, em todo lado se vêem campos sintéticos e boas condições, aqui, em Vila Real, continua tudo como estava há mais de vinte anos.
VTM – Numa situação de crise económica, como vês o futuro dos clubes mais pequenos?
AF – O Vila Real já tem vindo a fazer as devidas adaptações à situação de crise que atravessamos. No meu tempo, eu jogava de graça. Se não houver dinheiro para pagar salários, os jogadores que gostem de praticar futebol terão de passar pelo mesmo. Agora, se tiverem a oportunidade de ganhar dinheiro, acho bem que o façam, mas no dia em que não houver condições para isso, quem gosta de futebol não vai deixar de jogar.
VTM – Queres deixar alguma mensagem aos simpatizantes, sócios e adeptos do Vila Real?
AF – Mais uma vez, quero agradecer à direcção do Vila Real por me confiar o comando da equipa nesta nova época que se avizinha. Uma palavra de agradecimento a todos os sócios, adeptos pela dedicação que tiveram ao longo da época. Espero que este ano não se esqueçam da realidade do clube, já que as pessoas que estão à frente do Vila Real fazem muitos sacrifícios para estar sempre perto dos seus atletas. Todos temos trabalhado para que os nossos objectivos sejam alcançados, dentro das nossas próprias limitações. Vamos tentar fazer uma equipa digna, que represente bem a cidade e que faça uma boa figura no campeonato. Precisamos de todos para apoiar a equipa nesta nova etapa, já que o clube bem o merece, independente de alguns dos insucessos que possam aparecer no decorrer do campeonato.

