Sábado, 25 de Abril de 2026
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Adegas durienses preparadas para milhares de toneladas de uvas

As adegas durienses têm tudo preparado para receber a colheita deste ano, que se espera em maior quantidade e qualidade. Nesta edição fomos conhecer duas adegas localizadas em Alijó, separadas apenas por dois quilómetros. A primeira foi a Gran Cruz que tem tecnologia de ponta, única em Portugal, e que se prepara para processar quase sete mil toneladas de uvas. A segunda foi a Adega Carlos Alonso, uma unidade de cariz mais familiar, que cruza o tradicional com as novas tecnologias, e que se tem afirmado cada vez mais num mercado onde a concorrência é “feroz”

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Situada em pleno coração do Douro, no concelho de Alijó, esta adega investiu 16 milhões de euros na sua conceção e construção, em que tem um sistema de automação baseado em 35 km de tubos e em mais de 100 de cabos de dados que a colocam na vanguarda da tecnologia.

Entrar no espaço assemelha-se a um filme tipo ‘Matrix’, em que se circula num amplo espaço aberto e nos confrontamos com ‘montes’ de tubos, sobretudo em inox, mas há alguns que têm cobertura de borracha, que fazem a ligação entre si, para não haver falhas na distribuição dos vinhos. São quilómetros de tubos que ligam os pontos de recolha de mosto às cubas vinificadoras, seguindo depois para as enormes unidades de armazenamento de vinho. Gerir estas ligações parece um autêntico quebra-cabeças, mas tudo está interligado a um software que é crucial para evitar erros entre todo o sistema instalado.

A nível estético, no interior do enorme edifício não se veem paredes, o espaço é preenchido com grandes cubas, com capacidade de 25 mil (as mais pequenas) e 40 mil (as maiores), que fazem uma espécie de círculo onde se movimentam grandes tubagens, máquinas, lagares e plataformas. A contrastar com esta visão, há uma espécie de teto em madeira, que dá uma beleza ímpar a todo este espaço arejado e amplo.

 

Como funciona a entrada das uvas

 

Em primeiro lugar deve proceder-se ao registo dos agricultores, que recebem um cartão com um chip que permite gerir de forma individualizada as suas entregas. Nos meses que antecedem a vindima, os produtores são informados da data em que devem vindimar. Poucos dias antes, têm de levantar na adega caixas de plástico que carregam até 160 km de uvas. Cada uma destas caixas tem um chip que é lido por um medidor com radiofrequência. Os dados da carga são enviados para o computador e cada agricultor fica imediatamente a saber as quantidades que entregou, além de outras informações específicas sobre as uvas. Este sistema também é muito útil para os enólogos da Gran Cruz que têm ali muita informação, sobretudo de que zonas provêm as uvas e quais as castas predominantes, por exemplo.

Num dia normal, a adega consegue receber até 200 toneladas de uvas de mais de mil viticultores da região. No final de cada vindima, passarão pela adega umas 6600 toneladas de uvas que logo no início se dividem em duas categorias: a maior parte, cerca de 6000 toneladas, entra na linha principal de produção, designada ‘standard’. As melhores uvas entram numa linha autónoma (chamada ‘especial’) e recebem um tratamento mais cuidadoso e, por norma, dão origem a vinhos do Porto de categoria superior. Estas 600 toneladas são selecionadas com o máximo cuidado, vêm numas caixas mais pequenas, é feita uma triagem antes de entrarem nos lagares. “Não vão a pegões, nem caiem diretamente, passam numa máquina que as escolhe bago a bago. Temos uma mesa vibratória, que faz a escolha dos cachos, com duas pessoas, uma de cada lado. Se um cacho tiver machucado e tiver folhas são logo retirados nesta fase, explica Sousa Soares, da Gran Cruz”. As uvas seguem para o desengaçador, “que tem um sistema oscilante que permite que as uvas caiam direitinhas e separadas num tapete, que atinge uma velocidade de 10 km/h. Nesta fase, há uma outra máquina com um computador, que é previamente informado por fotografia, sobre as uvas que se quer selecionar. “Ele faz uma seleção em função da qualidade, as restantes vão para a adega ‘standard’, e se não estiverem em condições vão para bagaço”, refere Sousa Soares, adiantando que as melhores passam então para a vinificação. “Feito o esmagamento, as massas descem para os lagares robóticos onde entrarão em fermentação”, diz este responsável da empresa.

Na adega ‘standard’, as uvas desengaçadas e esmagadas seguem por tubos suspensos até as cubas autovinificadoras que ficam no piso dos lagares. Antes, recebem o primeiro tratamento sanitário e se, por exemplo, em causa estiver um vinho branco que requeira uma fermentação mais suave e dilatada no tempo, passam por longos tubos arrefecidos que fazem baixar a temperatura dos mostos.

Nas cubas com vinho tinto, para além do habitual recurso de regar a manta na sua extremidade superior, a Gran Cruz dispõe ainda de um sistema robótico que a desfaz e aumenta a área de contacto com o líquido – fundamental para a extração de cor, de taninos e de aromas. Todas as cubas têm sistemas de aquecimento e de arrefecimento para controlo de temperatura na fermentação. Quando as uvas chegam a horas tardias, esta adega tem uma arca enorme onde poderá colocá-las até à manhã seguinte, sem perderem qualidade. As cubas da aguardente estão mais isoladas cerca de 15 metros de tudo à volta, porque é um produto facilmente inflamável.

Há ainda uma secção com barricas, que contém vinho tinto que fica ali a envelhecer 18 a 24 meses, enquanto o branco fica seis a 12 meses e acabam ali a sua fermentação.

O vinho é depois expedido em camiões para Vila Nova de Gaia, onde se faz o engarrafamento.

Este ano, a Gran Cruz, em Alijó, vai fazer a terceira vindima, e esta semana entrou em velocidade de cruzeiro com as uvas a chegar em grandes quantidades, sendo necessário reforçar a equipa com 30 elementos, nos restantes meses do ano apenas laboram neste enorme espaço quatro funcionários.

No mundo há apenas quatro centros idênticos a este de Alijó, mas, segundo dizem, como este foi o último a ser instalado, é também o mais complexo, em que nada foi deixado ao acaso para conseguirem ter os vinhos de qualidade superior.

 

Carlos Alonso alia o tradicional com as novas tecnologias num espaço que não pára de crescer

 

Seguiu-se uma visita à Adega Carlos Alonso, que é de menor dimensão e tem um cariz mais familiar. Instalada desde 2004 na Zona Industrial de Alijó, esta adega começou por vinificar apenas a produção própria, em instalações “bastante rudimentares”, mas ao longo do tempo foi crescendo e hoje já vinifica milhares de uvas. Numa ligação estreita ao vinho e à vinha, Carlos Alonso optou por enveredar por este setor e a sua empresa não tem parado de crescer. Nos anos 60, o seu pai teve uma adega durante três anos, mas acabou por encerrá-la por não gostar deste negócio. Trinta anos depois, Carlos Alonso reativou essa adega e hoje é já um nome muito conhecido no país e ganha cada vez mais clientes no mercado externo. “Comecei em 1994 a fazer a vinificação, a armazenagem e o engarrafamento numa adega do meu pai em Sanfins do Douro, que começou a revelar-se pequena, por isso tive de passar a parte da vinificação e do engarrafamento para Alijó”. Agora concentra todo o processo num amplo espaço que foi ganhando escala na zona industrial. A ideia original era ser só produção própria, mas depois com a queda das cooperativas, houve vários viticultores que procuraram este empresário para lhe comprar as uvas devido às dificuldades financeiras de muitas adegas da região. Inicialmente não queria ficar com as uvas dos produtores que o contactavam, mas acabou por ceder e começou a transformar as uvas de outros viticultores. “Comecei por vinificar 100 por cento de uva própria, atualmente a minha uva representa apenas 10 por cento da produção”.

A entrada das uvas na adega

Esta semana começou em força a entrega de uvas, que chegam em dornas que são pesadas à entrada da adega. Antigamente tinha que receber primeiro as uvas brancas e só depois as tintas, mas este ano a adega está preparada para receber os dois tipos de uvas em simultâneo, uma vez que adquiriu um novo tegão. Há um primeiro armazém onde se faz a receção das uvas, que chegam nas carrinhas e são de imediato pesadas. As uvas são colocadas nos tegões, seguindo até ao desengaçador-esmagador. É efetuado o desengaçamento e esmagamento das uvas com saída dos engaços que são transportados por tapete até um reboque, no qual são acondicionados. Depois é feito o transporte das massas vínicas por bomba de impulsão para as zonas de fermentação para tintos e brancos.

Para os tintos e licorosos utilizam prensas continuas, que estão sempre a receber massas, enquanto as prensas pneumáticas são usadas para os brancos, rosés e tintos de maior qualidade. Depois de prensados, os vinhos são armazenados nas cubas em bruto, seguem-se as filtragens e no final o engarrafamento.

Com uma capacidade de armazenagem de três milhões e meio, nesta altura do ano a empresa tem de reforçar a equipa com mais dois trabalhadores, mas durante o ano são dez pessoas permanentes, em que a maioria está diretamente ligada à linha de engarrafamento. “No verão procuramos aumentar o stock dos engarrafados para que na altura das vindimas todos estejamos disponíveis para ajudar na vinificação das uvas”.

Sendo uma empresa de cariz familiar, a “flexibilidade” é a palavra de ordem. Nesta altura de azáfama na região duriense, por dia são descarregadas cerca de 60 toneladas de uvas, mas tem capacidade para muito mais. “Já me aconteceu estar a almoçar em família num domingo e ter de vir para a adega descarregar as uvas de um produtor. Por norma descarregamos 60 toneladas por dia, mas se aparecerem 100 temos capacidade para responder, só temos de ficar até mais tarde, mas nunca ficou aqui um carro carregado de um dia para o outro”, sublinha Carlos Alonso.

O mercado

No mercado tenta vender pelo melhor preço, mas nem sempre consegue os resultados desejados para os produtores, pois a concorrência é muito forte neste setor. “Vejo o preço ao qual consigo vender, depois retiro os meus encargos e, o montante que sobrar, faço a distribuição pelos viticultores. Posso dizer que paguei bastante mais do que as grandes adegas do Douro. Eu funciono com o princípio das cooperativas. Apesar de pagar pouco (30 cêntimos o quilo), ainda consigo pagar melhor do que muitas adegas grandes da região”.

O mercado nacional absorve grande parte da produção, mas “está estagnado”, por isso tem apostado na exportação, sobretudo para a China, onde aposta na marca “Exlibris-baco”, a mais recente da empresa. Destaque ainda para as marcas Piano, Anna Alonso, Carlos Alonso, RedVelvet, Quintela, que tem uma boa relação preço-qualidade, distinguido pela Revista de Vinhos.

Apesar do verão ter sido bastante seco, Carlos Alonso espera uma boa produção de qualidade elevada.

 


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