Segunda-feira, 2 de Agosto de 2021

“Alguns pensaram que era uma praxe”

Portugal está em estado de emergência e os cidadãos tem as suas liberdades condicionadas, o que impede as habituais celebrações do 46º aniversário do 25 de Abril de 1974, aquela que foi e continua a ser uma das datas mais marcantes da história do país. 

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A Voz de Trás-os-Montes esteve à conversa com Anselmo Martins, flaviense que viveu de perto o 25 de Abril e recordou o dia em que foi derrubado o regime ditatorial e instaurada a democracia depois do golpe de estado orquestrado por militares. 

Anselmo Martins tinha 25 anos e estava na Escola Prática de Cavalaria de Santarém, onde iria dar instrução a cerca de 100 jovens recrutas, quando se deu o 25 de Abril. 

“No dia 24 de abril à noite saí para jantar com mais colegas e quando regressei à Unidade fiquei surpreendido, porque fomos recebidos pelo oficial de dia, o que não era normal. Disse-nos que ia haver um golpe de estado e perguntou-nos se estávamos de acordo. Apenas um dos meus colegas não entrou. Fomos fardar, levantar armamento e munições. Alguns pensaram que uma praxe, mas era mesmo a sério”, relembrou o então cabo miliciano que pertencia ao esquadrão de formação comandado por Salgueiro Maia, o célebre capitão de Abril. 

Anselmo Martins conta que o seu capitão, “homem afável, brincalhão e sério no trabalho”, reunia com todos os seus homens à sexta-feira “antes de irmos de fim de semana” e já nessas conversas passava a sua mensagem política. “Dizia-nos que o problema das províncias ultramarinas dificilmente se resolveria militarmente e que a solução teria que ser política. Nós achávamos estranho e ousado da parte dele aquele tipo de mensagem”. 

Na madrugada do dia 25 de abril, Salgueiro Maia comandou a coluna militar composta por oficiais e sargentos que saiu de Santarém em direção a Lisboa, onde ocupou o Terreiro do Paço. 

Anselmo Martins ficou de prevenção em Santarém e quando chegou a notícia de que o Golpe de Estado estava consolidado, a Unidade recebeu ordem para deter os elementos da PIDE. “Nós nem celas tínhamos. Colocámo-los numa casa de banho com metralhadoras apontadas para a porta. Permaneceram lá durante a noite e na manhã do dia 26 de abril fomos para Lisboa e levámo-los para Caxias”. 

No período pós-25 de Abril, assistiu e participou ativamente em todas as convulsões políticas, uma vez que fazia parte do “pelotão de intervenção com as viaturas blindadas que, juntamente com outros forças, salvaguardava a ordem pública”. 

ESTADO DE SÍTIO VS ESTADO DE EMERGÊNCIA

Em 46 anos de democracia, esta é a primeira vez que um presidente da República declara o Estado de Emergência, em que os cidadãos veem direitos e liberdades garantidas pela Constituição serem suspensos. O mais parecido que o país vivera foi o estado de sítio decretado pelo então presidente da República, o flaviense Francisco Costa Gomes, aquando do golpe de estado de 25 de novembro de 1975. “À época, os cidadãos não foram afetados porque as medidas tomadas visaram essencialmente os setores armados e políticos”, explicou Anselmo Martins que, embora seja contra os condicionamentos das liberdades e garantias dos cidadãos, concorda com o estado de emergência. “Se calhar vale a pena perdermos algumas liberdades, por algum tempo, para garantirmos a saúde de todos”, referiu Anselmo Martins. 

46º ANIVERSÁRIO DO 25 DE ABRIL

O Parlamento aprovou a proposta de comemoração do 25 de Abril na Assembleia da República, no próximo sábado, uma decisão que tem sido contestada por muitos. Apesar de não concordar com os moldes em que as celebrações vão decorrer, Anselmo Martins diz que “é uma data importantíssima para o país” e relembra que “a decisão não foi do Governo mas sim da casa da democracia”, acrescentando que “uma coisa é, não o fazer para dar o exemplo, agora comparar um cerimónia destas com um casamento ou um funeral ou outro tipo de ajuntamento público, é pura demagogia”. 

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