S. Lucas narra o facto no seu Evangelho: “Ao sexto mês, foi o Anjo Gabriel enviado da parte de Deus, a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem que era noiva dum homem da casa de David, chamado José, e o nome da virgem era Maria. Ao entrar para junto dela, disse o Anjo: Salve, ó cheia de graça, O Senhor está contigo. A estas palavras, ela perturbou-se e ficou a pensar que saudação seria aquela. Disse-lhe o Anjo: Não tenhas receio, Maria, pois achaste graça diante de Deus. Hás-de conceber e dar à luz um filho ao qual porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo; dar-Lhe-á o Senhor Deus o trono de Seu pai David, reinará eternamente na casa de Jacob e o Seu reinado não terá fim. Disse Maria ao Anjo: Como será isso, se eu não conheço homem? Disse-lhe o Anjo, em resposta: Virá sobre ti o Espírito Santo, e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a Sua sombra. Por isso mesmo é que o Santo que vai nascer há-de chamar-Se Filho de Deus. (…) Maria disse então: Eis a escrava do Senhor: seja-me feito segundo a tua palavra”(1, 26-35; 38).
Depois do fiat de Maria a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade tomou carne no seio puríssimo daquela que foi virgem antes, durante e depois do parto. Li algures, não sei onde, que os Anjos no Céu estavam ansiosos que Gabriel regressasse da sua missão; logo que chegou, perguntaram: «que disse Ela?» Quando souberam que dissera «sim», suspiraram de alívio (se é que os Anjos suspiram).
A sua determinação de viver a virgindade, inspirada pelo Espírito Santo, é um anúncio do Novo Testamento, no qual a virgindade tem excelência sobre o matrimónio, sem por isso diminuir a santidade de união conjugal, que é elevada à dignidade de sacramento (cfr Gaudium et spes, nº 48).
Maria ao receber a visita do Anjo ficou perturbada, mas por pouco tempo, pois logo o Anjo a tranquilizou: «Não temas». Maria tornou-se a escrava do Senhor e o Senhor velaria por Ela. E por nós? Será que também não vela? É um facto só que nós, muitas vezes, por soberba julgamos saber mais do que Deus e o «omnia in bonum» – tudo concorre para bem, não passa para nós de letra morta.
E se Maria não tivesse dito fiat? Se se tivesse escudado numa falsa humildade (coisa impensável n’Aquela que, isenta do pecado original, não teve jamais pecado), o que seria da Humanidade? O fiat de Maria é mais do que um «sim», é uma entrega total ao Senhor para toda a vida. O seu fiat começou na Anunciação, e prolongou-se por todo o sempre, mesmo depois da Ascensão do Senhor, como Mãe da Igreja nascente.
O Senhor veio e “muitos não O acolheram”. E o que estamos a nós a ver atualmente? O Senhor, outrora acolhido por muitos, está a ser perseguido na pessoa dos cristãos: a «cristianofobia» vai imperando, desde a tristemente famosa «Guerra dos crucifixos», até ao número crescente de cristãos barbaramente torturados só por serem cristãos – lembro o horror que se passou na bomba deitado no Egipto para dentro de uma igreja católica, matando dezenas de pessoas incluindo crianças.
Tentemos imitar Maria e demos ao Senhor tudo o que Ele nos pedir, mesmo que sejam umas pobres redes rotas, como os Apóstolos, uns pães e uns peixes como o rapazinho que colaborou no milagre da multiplicação dos pães ou duas moedas de escasso valor como as da viúva louvada por Jesus.
Estamos a poucos dias da Comemoração da Paixão e Morte de Jesus, bem como da Sua Ressurreição (1 de abril é domingo de Ramos). Ele que viera pela Encarnação estabelecer um laço de amizade entre Deus e os homens, vai agora selar essa amizade com a Morte na Cruz. A nossa atitude não pode ser senão de profunda e sincera gratidão.





