“Temos que encontrar uma estratégia para promover o aumento do consumo internamente”, defendeu José Gomes Laranja, presidente da Associação Nacional da Castanha (RefCast) sobre uma fileira que exporta entre 60 a 70 por cento da produção nacional.
Apesar das várias contrariedades com que se depararam os soutos, nomeadamente as condições climatéricas adversas, com a ausência da chuva na altura em que era esperada, e a chegada aPortugal da vespa da galha do castanheiro (além da permanência de outras doenças como a tinta e o cancro), a campanha deste ano, que já está “praticamente concluída”, correu bem.
“A situação é boa porque, do ponto de vista da quantidade, se recuperaram os valores normais da produção. Em termos comparativos, poderemos estar a falar de uma quebra de produção de 10 a 12 por cento, relativamente a 2013, mas quando se fala no ano passado, poderemos falar de um aumento de mais 30 por cento”, explicou o presidente da RefCast, fazendo já um balanço sobre a apanha.
Atualmente calcula-se que entre 35 a 40 mil hectares de território luso seja ocupado por soutos, dos quais cerca de 30 mil são em Trás-os-Montes. “As estatísticas indicam que entre 80 a 85 por cento da castanha produzida em Portugal é transmontana, mas a tendência é que essa percentagem venha a diminuir ligeiramente, porque tem havido uma aposta muito grande noutras regiões, como nas Beiras e no Minho”, referiu José Gomes Laranjo, explicando que os castanheiros continuam em expansão, plantando-se em Portugal uma média anual de 1.000 a 1.200 hectares de novos soutos.
A nível nacional o setor dá à agricultura, aos produtores, entre 70 a 100 milhões de euros, uma boa parte dos quais ficam em Trás-os-Montes. No entanto, no que diz respeito ao destino final do produto, “entre 60 a 70 por cento da castanha é exportada”, dando resposta sobretudo à procura da indústria europeia da transformação.
Combater a sazonalidade da castanha e fomentar o seu consumo o ano inteiro, é um dos objetivos da RefCast, que poderá ser conseguido através não só de ações de marketing e publicidade junto dos consumidores, mas também com a entrada em força nas grandes superfícies.
“Com o elevado preço a que estiveram à venda, no início da época, os consumidores retraíram-se e compravam apenas para matar o desejo, e não muito mais do que isso. A compra da castanha como um alimento do dia-a-dia deixou de acontecer”, lamentou José Gomes Laranjo lembrando que se trata de um fruto com características nutricionais excelentes e defendendo mesmo a teoria de uma nutricionista italiana que revelou que “oito castanhas por dia” fazem a diferença para uma vida mais saudável.
Outro aspeto a que a Associação Nacional se tem dedicado é a sensibilização junto das grandes superfícies, no sentido de conseguir que a castanha seja tratada “não como um fruto seco”, mas como outras frutas frescas. “A castanha não é um fruto seco como é a noz ou a avelã. Tem 40 por cento de água, por isso deve ser tratada mais como a maçã, porque ela perde bastante água, perde brilho. Tem que estar sempre acompanhada do frio para não se depreciar tanto”, explicou o mesmo responsável.
A RefCast tem ainda feito uma abordagem junto às escolas de hotelaria, lançando o desafio para que apostem no fruto e desenvolvam receitas e novos produtos que possam fomentar não só o consumo mas também inspirar o setor da transformação.
Enchente do mercado levou à redução do valor pago ao produtor
Além da forte sazonalidade, outra contrariedade com que a fileira está a lidar neste momento prende-se com os preços pagos aos produtores, que reduziram muito devido ao facto das castanhas provenientes de vários países terem chegado ao mesmo tempo aos mercados, “o que trouxe uma certa sensação de abundância e até de superavit em relação à produção”.
“O período da apanha foi muito curto, ou seja, sobrepôs-se em quase toda a europa, o que resultou numa fartura muito grande de castanha e mexeu com o mercado. As castanhas portuguesas, espanholas, francesas, italianas e turcas chegaram ao mesmo tempo ao mercado, o que causou desequilíbrio e dificuldades no escoamento” e isso acabou por se refletir na quebra de preço pago aos produtores, podendo-se falar de uma redução de valores “dos 2,5 a 3 euros/quilo, para os 1,5 a 2 euros”.
Ilídio Lucas, de 34 anos e produtor de castanha há mais de quatro, testemunhou essa situação que afetou não só Trás-os-Montes mas todo o país. “Tenho contactado com vários produtores e vários agentes da comercialização e o preço diminui para metade, e em alguns casos, ainda mais”, sublinhou o produtor referindo que na base do problema esteve na antecipação em 15 dias da campanha em Portugal, o que a fez coincidir com a apanha dos soutos italianos, país que normalmente terminaria a campanha mais cedo e depois viria à Portugal comprar mais castanha.
Com uma produção que começou com os quatro hectares de souto que já eram da família mas que se alargou aos 22 hectares, o produtor de São Martinho de Angueira, concelho de Miranda do Douro, acredita que a fileira da castanha “tem futuro” mas alerta para o aumento algo exagerado na aposta em novos soutos. “Neste momento vejo toda a gente a apostar na castanha e quando toda a gente aposta no mesmo futuramente os preços vão cair, porque aumenta a produção”, sublinhou, explicando que por isso está a apostar “um pouco” também noutros setores, nomeadamente na produção de avelãs e de nozes. “Não ficar em monocultura é uma vantagem”, defendeu.
Sobre o futuro, Ilídio Lucas enaltece que através da criação da RefCast e do “excelente trabalho que tem feito”, a fileira tem sido capaz de se organizar para dar resposta aos desafios da produção e que o próximo passo deveria ser a aposta no setor da transformação. “Já existe uma organização adequada da fileira, penso que devia haver mais aposta na transformação de nível secundário, não só a congelação mas também o desenvolvimento de novos produtos”, desafiou.
Hercílio Meireles, produtor na freguesia de Padrela e Tazém, concelho de Valpaços, também acredita que a fileira em Portugal tem muito futuro, afinal, “temos a melhor castanha do mundo”.
“O setor da castanha poderá estar em risco devido a pragas e doenças que estão a afetar os castanheiros, principalmente o aparecimento da vespa da galha dos castanheiros. Essa é uma situação que está a ser controlada. Vamos ver como será a proliferação da próxima primavera e a repercussão que poderá ter em termos de produção”, advertiu o produtor que conta com um total de 18 hectares de souto, dos quais 13 estão em plena produção.
O valpacense, que “herdou” a atividade dos pais, sublinhou ainda a necessidade de cativar “mais jovens para o setor”. “É preciso criar mais incentivos por parte de quem de direito, do Estado, da União Europeia, financiamento para que as pessoas se possam instalar. A instalação de um souto não dá lucro imediato. Desde a instalação até começar com produção suficiente para ser rentável leva, em média, e dependendo do terreno onde é instalado, oito a dez anos a começar a rentabilizar o investimento”, frisou.



