Vila RealCentro Hospitalar dá “salto gigantesco”, no tratamento de doentes cardíacos

Centro Hospitalar dá “salto gigantesco”, no tratamento de doentes cardíacos

O Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro volta a marcar pontos na batalha por serviços de Saúde cada vez mais diferenciados, para a região. A funcionar há pouco mais de um mês, o novo Laboratório de Hemodinâmica, um investimento de 1,5 milhões de euros, marca a linha da diferença entre a vida e a […]

O Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro volta a marcar pontos na batalha por serviços de Saúde cada vez mais diferenciados, para a região. A funcionar há pouco mais de um mês, o novo Laboratório de Hemodinâmica, um investimento de 1,5 milhões de euros, marca a linha da diferença entre a vida e a morte, para doentes cardíacos em fase aguda, transmontanos que, antes, tinham que se deslocar ao Porto, para receber tratamento, e que, agora, podem usufruir de uma unidade “ao nível das melhores da Europa”.

Desde o mês de Abril que está em funcionamento o Laboratório de Hemodinâmica do Serviço de Cardiologia do Centro Hospitalar de Trás–os-Montes e Alto Douro (CHTMAD), uma aposta na “Cardiologia de Intervenção” que exigiu um forte investimento financeiro e o empenho e dedicação de uma equipa de profissionais de Saúde, o qual vai permitir “salvar vidas, muitas vidas”.

A abertura do Laboratório “é, sem dúvida, um salto gigantesco, na melhoria dos Cuidados de Saúde prestados à população de toda a região de Trás-os-Montes e Alto Douro, Nordeste Transmontano e zonas limítrofes”, explicou, ao Nosso Jornal, José Ilídio Azevedo Moreira, Director do Serviço de Cardiologia e Unidade de Cuidados Intensivos Cardíacos do CHTMAD.

Segundo o mesmo responsável, na nova unidade, localizada no Hospital de São Pedro, em Vila Real, “efectuam-se exames e tratamentos, no âmbito da chamada Cardiologia de Intervenção, através dos conhecidos cateterismos cardíacos. Esta técnica começou a ter uma aplicação clínica regular a partir da década de 80, nessa altura, e por muitos anos, apenas com o intuito de diagnóstico, isto é, visualizar as artérias coronárias e seleccionar os doentes com indicação para cirurgia cardíaca. A situação actual é completamente diferente, já que o objectivo principal de um Laboratório de Hemodinâmica é, agora, o tratamento de lesões coronárias e não o simples diagnóstico”, explicou o cardiologista, sublinhando que, apesar do “diagnóstico de doença coronária e intervenções diversas, a nível de outros problemas cardíacos” continuarem a ser feitos na Hemodinâmica, é, exactamente, “a capacidade de tratar lesões, sobretudo em doentes graves, com síndromas coronários agudos (ataques cardíacos, enfartes do miocárdio, anginas de peito instáveis) que torna imprescindível esta valência, nesta região”.

 

Centenas de doentes deixam de ser anualmente transferidos para o Porto

 

O tratamento de doentes com determinados problemas cardíacos agudos e alguns tipos de enfarte do miocárdio obriga à referenciação imediata para uma Unidade com Hemodinâmica, o que modifica, radicalmente, o prognóstico, permitindo a recuperação com muito menos sequelas. Antes da abertura do novo serviço, em Vila Real, estes doentes tinham que ser conduzidos para o Porto, alguns sem “qualquer hipótese de receber tratamento, em tempo útil. Mesmo alguns que acorriam, directamente, ao Hospital de Vila Real e com indicação para angioplastia urgente, não conseguiam ser transferidos, em tempo adequado. Para já não falar nos muitos que, pela sua instabilidade, não tinham sequer condições de transporte”, recordou o Director do Serviço de Cardiologia.

“Não é um capricho nosso, é uma necessidade crítica e real, é o que se passa em todos os países desenvolvidos”, revelou o médico, frisando o exemplo de Espanha, onde, só na Galiza, foram seleccionados quatro Centros com Cuidados Intensivos Cardíacos e Cardiologia de Intervenção, funcionando 24 horas por dia.

Orçado em um milhão e quinhentos mil euros, o Laboratório coloca o Centro Hospitalar transmontano, em termos de intervenção coronária, “ao nível dos Centros mais desenvolvidos do país, da Europa ou dos EUA”.

“Os nossos primeiros números são impressionantes, no contexto do ‘pequeno’ Serviço de Cardiologia e das muitas carências, sobretudo de médicos e de infra-estruturas que ainda temos” – garantiu o cardiologista, contabilizando que, no primeiro mês de funcionamento, a Unidade de Hemodinâmica já fez mais de 70 procedimentos.

“Montar uma Unidade de Hemodinâmica, a partir do zero, num curto período de tempo, é extraordinariamente difícil e complexo. O empenho do Presidente do Conselho de Administração do CHTMAD, Carlos Vaz, foi determinante e decisivo, ao perceber a validade do nosso projecto, o interesse para o Centro Hospitalar, para a região e, sobretudo, para os doentes, ao conseguir as verbas e apoios necessários”, explicou o cardiologista, sublinhando, ainda, o apoio fundamental de Fernando Araújo, Vice-Presidente da ARS Norte; Carlos Faria, das instalações e equipamentos; Sara Mota, do aprovisionamento; e de Luís Rocha, enfermeiro “incansável, no trabalho de coordenação e interligação com a equipa de Cardiologia de Intervenção”.

 

Escassez de meios humanos não impediu que o projecto passasse à realidade

 

Um hemodinamista é um médico cardiologista que, após a especialidade, se diferencia, durante vários anos, nesta valência.

“Em Portugal, há poucos hemodinamistas, no Norte do país ainda menos. Uma equipa-tipo é constituída por dois cardiologistas de intervenção, dois técnicos CPL diferenciados, dois enfermeiros diferenciados e um médico anestesista. O Serviço de Cardiologia do CHTMAD não dispõe, sequer, no seu quadro de pessoal, de cardiologistas, em número suficiente, muitos menos de cardiologistas diferenciados em Hemodinâmica”, lamentou o Director daquele serviço, sublinhando, no entanto, que,a equipa que colabora com o Serviço de Cardiologia do Hospital de Vila Real, coordenada pelo cardiologista Henrique Carvalho, conta com “cardiologistas de intervenção com formação e trabalho num dos maiores Centros Europeus, em França”.

“Move-os, seguramente, a amizade e a vontade de implementar um projecto completamente inovador, em Portugal, com enorme sacrifício, já que, para além dos procedimentos programados, se deslocam a Vila Real para as intervenções de Urgência, sempre que necessário” – reconheceu Ilídio Moreira, realçando que “uma Unidade de Hemodinâmica não poderia ser equacionada sem o ‘background’ de um serviço de Cardiologia com outras valências funcionantes e com médico presente 24 horas por dia, o que, no caso de Vila Real, face à carência de recursos humanos, tem sido possível apenas graças ao esforço de muitos cardiologistas que cá estão ou que por cá já passaram”.

Para além de ser considerado como a “única hipótese de tratar adequadamente os doentes com patologia cardíaca aguda”, o Laboratório de Hemodinâmica permite, agora, a implementação da Via Verde do Enfarte Agudo do Miocárdio, em toda uma vasta região, servindo, assim, mais de 450 mil transmontanos e alto-durienses.

 

Maria Meireles

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