Quinta-feira, 29 de Julho de 2021

“Chaves é uma das cidades mais extraordinárias que o país tem”

Carlos Magno fez o liceu em Chaves, cidade pela qual nutre um enorme carinho. Licenciado em jornalismo, foi repórter durante vários anos e fundou um canal de televisão por cabo, de onde surgiu a RTPi. Entre inúmeras atividades que tem desenvolvido, destaque para o facto de ter sido presidente da Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC) de 2011 a 2017. Fique a conhecer um pouco melhor este transmontano, que é fã da Estrada Nacional 2

Veja também a entrevista em vídeo AQUI

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É um homem de letras. Acaba por escolher também jornalismo como profissão. Porquê o jornalismo? 

É da minha natureza. Eu sempre gostei de dar notícias desde miúdo, no sentido de contar às outras pessoas aquilo que eu ia percebendo, que tinha conhecimento. Eu acho que o jornalista não é apenas aquele que escreve bem, é aquele que sabe contar uma história e percebe qual é o sentido de uma informação nova. 

Embora, hoje, eu ache que os jornalistas estejam a matar as notícias, porque se chama notícia a tudo aquilo que não o é. Eu sou da informação pura e dura e também tenho a minha opinião, naturalmente. 

Era isso que também lhe ia pedir… 

Eu sempre gostei de dar notícias. Hoje estou bastante retirado da chamada vida ativa, mas um dia hei de regressar à reportagem e a outro tipo de trabalhos. 

Neste momento, estou a fazer um livro que é uma biografia dos quatro fundadores da democracia, Sá Carneiro, Mário Soares, Cunhal e Freitas do Amaral. A minha memória pessoal passou muito pelo convívio com estes quatro grandes líderes políticos que o país teve. 

Vivi intensamente a revolução, as lutas académicas antes do 25 de Abril, diverti-me muito durante a revolução. Agora do ponto de vista profissional, eu gosto sempre de sublinhar isto: eu li jornais censurados, mas nunca escrevi sobre o efeito da censura. Tive amigos que morreram na guerra colonial, mas nem sequer fui à tropa. Eu sei o que era o país da castração, um país provinciano, isolado, antes do 25 de Abril, e assisti à completa modificação desse país. 

Nesse sentido, concordo com António Barreto, nós não percebemos ainda o que se fez nestes 40 e tal anos de democracia. 

Sendo jornalista de formação, como é que vê hoje em dia não só a comunicação, mas também o jornalismo? 

Vejo com preocupação, mas, ao mesmo tempo, com uma enorme esperança. A notícia nunca morre. Nós não sabemos o que é que vai acontecer amanhã, e esse é o grande seguro de vida do jornalismo. Eu sou, desse ponto de vista, muito rigoroso porque não há notícias do futuro, e ensinei sempre isso aos meus alunos. O futuro é previsão, é agenda, é outra coisa. Podem escrever-se as coisas mais incríveis sobre o que aí vem. Uma notícia sobre o futuro não há, porque uma notícia é um acontecimento verificado, ou então não é notícia. A notícia é um facto recente, onde o jornalista transforma a realidade em atualidade. Nós, os jornalistas, banalizamos o conceito de notícia. Fomos nós que permitimos que se admitisse um jornalismo amador, que um cidadão possa fazer notícias. 

É preciso ter a noção exata de que o jornalismo é para profissionais, que é uma atividade que tem uma ética, uma atitude e uma técnica. 

A questão das novas tecnologias, da internet, das redes sociais, também veio prejudicar essa qualidade no jornalismo? 

Antigamente nós tínhamos dinheiro, tínhamos condições para ir como enviado especial ao Iraque, a Angola, ao Afeganistão. Hoje, quando acontece alguma coisa, os jornalistas correm para a internet e reproduzem aquilo que outros já fizeram no digital, onde, como nós sabemos, a promiscuidade é total. Acho que era importante começar a explicar às pessoas que o espaço digital é a rua, onde há de tudo.  

O grande problema começa quando os chamados “comentários dos leitores” já tornam aquilo numa selva. 

Enquanto fui presidente da ERC, uma das regras que tentei impor é que houvesse jornalistas a editar os comentários dos leitores. Eu sei que é mais um jornalista a quem tem de se pagar, mas é fundamental impedir que os espaços de comentário na internet, que estão sob a tutela daquela marca editorial, se transformem numa selva, porque isso contamina a imagem do jornal, e a última coisa que um jornal pode perder é a sua própria credibilidade. 

Nós, jornalistas, temos quem nos regule, a ERC, organismo que já presidiu. Como vê atualmente a atuação desse organismo? 

A lei que criou a ERC, é uma lei datada e desastrada. Quando nasceu, na transição entre o governo de Santana Lopes e Sócrates, aquilo foi negociado, salvo erro, entre Marques Mendes, Santos Silva e Nuno Morais Sarmento. Houve ali uma negociação com mais uma série de pessoas que fazem parte da “tralha” dos partidos, que têm sempre opiniões muito próprias sobre aquilo. 

Eu quando estive na ERC procurei, sobretudo, perceber como é que funcionava a regulação internacional e fui a todas essas reuniões em que tinha assento. 

Defendo que a regulação deve ser mais certificação do que propriamente vigilância, coimas, multas e, por isso, acho que não devem ser os juristas a dominar a ERC, porque têm uma tendência natural da profissão deles que é tentar aplicar leis. Criam problemas que depois não resolvem, os quais só se solucionam com aquela que é a última lei, a do bom senso. 

A ERC, com os seus atuais estatutos, é impotente e omnipotente. Pode fazer tudo e não pode fazer nada. 

Também foi analista político…

Hoje faço comentários sobre tudo. Comento alguma atualidade europeia e internacional, também algumas coisas relacionadas com a atualidade portuguesa, evito escrever na imprensa, mas faço um ou outro comentário, ainda que raro. Seleciono muito as pessoas com quem contraceno. 

Como tem visto toda a atuação social e política no decorrer da pandemia? 

Em Portugal houve muita propaganda de parte a parte. Éramos o exemplo para a Europa, toda a gente queria saber qual era o milagre português, afinal já não havia milagre, depois vem o caso do Boris Johnson…

Nós jornalistas, nesta questão da Covid-19, devíamos aprender com os cientistas. O papel do jornalismo é o papel que os cientistas estão a ter perante o vírus, isto é muito novo, não sabemos, temos que ir por experiências. O problema é quando há pessoas que enunciam logo a teoria da conspiração. Isto obriga-nos a uma grande humildade, a fazer as clássicas perguntas do jornalismo. 

Mas a nível político acha que o país esteve ou está a gerir bem a pandemia? 

Eu estava em Lisboa a jantar com o Reitor da Universidade de Lisboa, o professor Cruz Serra, um ilustre flaviense. Estávamos os dois, no

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