Desde segunda-feira que está reposta a circulação ferroviária do troço da Linha do Tua, entre Mirandela e Foz Tua, naquela que é considerada a “última maravilha de via estreita” do país. O segmento de 21 km (Brunheda-Foz Tua) estava encerrado à circulação, desde a queda de uma automotora, ao rio Tua, em 12 de Fevereiro de 2007, na qual morreram três pessoas. Quando a automotora “Lisboa” do Metro de Superfície de Mirandela passava no local do acidente (às 11.45 horas), o acto de se benzer, solene e emocionado, do maquinista, Fernando Pires, não passou despercebido.
O Presidente da Câmara Municipal de Mirandela, José Silvano, que marcou presença na viagem da reabertura, não esqueceu “a ameaça da construção da Barragem do Tua, para a Linha”.
“Eu já não estou com tanta certeza de que esta barragem possa vir a ser feita. Já ouvi o senhor Ministro e o Presidente da Comissão da Coordenação da Região Norte e eles próprios têm muitas dúvidas sobre a viabilidade desta barragem, sabendo que duas coisas ficam irremediavelmente perdidas. Uma delas é a linha mais bela do Mundo, um património que ficará irrecuperável. A outra é o Vale do Tua. Já tenho conhecimento de que o Partido Os Verdes e outros, em conjunto com instituições, estão a tentar classificar o Vale como Património da Unesco”.
José Silvano comparou o Tua com o Douro, em termos turísticos.
“O Tua não deve nada, em beleza e atractividade, ao Douro. Este tem um milhão de visitantes, se nós apanhássemos 10%, seriam 100.000 pessoas. Não vejo, para Trás-os-Montes, nenhum projecto estruturante que não seja a linha férrea que iria por Mirandela, com ligação a Azibo e, depois, para Bragança, para ligar ao TGV espanhol. É por isto que vamos lutar, para o futuro”.
O autarca exigiu, também, “o prolongamento da linha, para Barca de Alva. O caminho-de-ferro traz, por ano, doze mil turistas, a Mirandela, e o encerramento da linha, durante um ano, trouxe muitos prejuízos”.
A partir de agora, existe a possibilidade de fazer “charters” turísticos, independentemente dos horários oficiais.
Por seu lado, Bruno Martins, representante da CP, abordou a reabertura do troço encerrado: “A CP aguardava que fossem retomadas as condições de circulação da linha, após o acidente. Tudo se reuniu e a operação foi retomada, parcialmente, uma vez que parte deste trajecto tem condicionamentos de velocidade”. Em relação à “marcha à vista”, ela pode ser alterada e a velocidade aumentada, “logo que estejam reunidas as condições de velocidade e de segurança antes existentes, o serviço será retomado, na plenitude, e a oferta reajustada”.
Alguns dos poucos passageiros que entraram ficaram contentes com o regresso da “motora”.
“Não tenho carro, nem outro transporte. Se não for o comboio, não posso ir a Mirandela” – disse António Pereira, residente no Cachão.
A velocidade no troço reaberto não pode exceder os 30 Km/h, no regime de “marcha à vista”. Daí que a viagem entre Mirandela e Foz Tua dure, agora, mais 22 minutos. Ou seja: os 54 quilómetros do percurso são cumpridos em 1 hora e 49 minutos. Este regime de restrição à velocidade é de carácter experimental, até 29 de Fevereiro. Mesmo com velocidade a “passo de caracol”, a linha do Tua possui raridades de incalculável valor paisagístico e de património natural. Uma delas é a existência, ainda, no rio, dos açudes de “pedra posta”, alguns deles centenários e destinados aos “moinhos de cheia”, outra raridade, existindo alguns no Guadiana, entretanto submersos pela barragem do Alqueva.
Jmcardoso





