O cristão sabe que o mundo não é divino, que está sujeito ao pecado, que vive envolto em paixões humanas e erros condenáveis, e que um dia terminará. Mesmo assim o cristão é chamado a recomeçar sempre, a fazer uma sementeira de esperança: A Igreja tem uma finalidade salvífica e escatológica que só pode ser plenamente alcançada no século futuro. Todavia, ela já está presente aqui na terra formada por homens e projeta sobre todo o universo o reflexo da sua luz, sobretudo sanando e elevando a dignidade da pessoa humana, firmando a coesão da sociedade e dando à atividade diária dos homens um sentido e um significado mais profundos. Deste modo pode contribuir muito para tornar cada vez mais humana a família dos homens e a sua história (GS40). Repare-se nos três objetivos: sanar e elevar a dignidade da pessoa, firmar a coesão da sociedade, dar um sentido mais profundo à atividade humana.
Um exemplo dessa persistência traduz-se concretamente na estima do matrimónio, uma realidade humana frequentemente enxovalhada, que a Igreja liberta de todas as flutuações das opiniões que ou rebaixam demasiado o corpo humano ou, pelo contrário, o exaltam excessivamente (GS 41). A Igreja persiste em acreditar na capacidade de o homem viver um amor de qualidade e, quando pede aos seus ministros uma consagração plena, não o faz por desprezo do matrimónio, mas para testemunhar uma maior capacidade do coração humano. Outro exemplo é estima pela atividade política, arte muito difícil mas ao mesmo tempo muito nobre», devendo «cuidar-se muito da educação cívica e política, tanto do conjunto dos cidadãos como, particularmente, dos jovens e dos que podem vir a exercê-la (GS 75).
2- Esta atitude positiva ilumina o próprio problema da salvação, questão que parece insolúvel pelo aumento da descrença. O problema da descrença, sendo fonte de preocupação, é atravessado por um clarão de esperança: Nós devemos acreditar que o Espírito Santo oferece a todos, de um modo que só Deus conhece, a possibilidade de serem associados ao mistério pascal. E isto vale não apenas para aqueles que creem em Cristo mas também para todos os homens de boa vontade, no coração dos quais, invisivelmente opera a graça (GS 22).
Estas palavras repetem aquelas que a constituição dogmática sobre a Igreja havia dito: A divina Providência não nega os meios necessários para a salvação àqueles que, sem culpa, ainda não chegaram ao conhecimento explícito de Deus, mas procuram com a graça divina viver retamente. De facto, tudo o que neles há de bom e de verdadeiro considera-o a Igreja como preparação evangélica e dom dAquele que ilumina todo o homem para que, finalmente, venha a ter vida. (Lúmen Gentium 16)
3- Sentimento análogo deve ter-se acerca da evolução do mundo e do progresso: O Espírito de Deus, que com admirável providência dirige o curso dos tempos e renova a face da terra, está presente a esta evolução. Por seu lado, o fermento evangélico suscitou e suscita no coração dos homens uma exigência irreprimível de dignidade, o que conduz à renovação dos espíritos e a profundas reformas sociais (GS 26). E mais adiante continua: Constituído Senhor pela sua ressurreição, Cristo trabalha já pela virtude do seu Espírito nos corações dos homens não só despertando o desejo da vida futura mas também alentando, purificando e robustecendo a família humana a tornar mais humana a sua própria vida e a submeter a este mesmo fim a terra inteira (GS 38)
O progresso é algo que deve merecer o empenho dos cristãos, e a fé na vida eterna não pode afastar os crentes do seu empenho no mundo: A esperança de uma terra nova não deve enfraquecer, mas antes excitar, a preocupação de cultivar esta terra onde cresce o corpo da nova família humana, o qual nos dá um esboço do século novo. Por isso, ainda que haja que distinguir cuidadosamente progresso terreno e crescimento do Reino de Deus, contudo este progresso tem muita importância para o Reino de Deus na medida em que pode contribuir para uma melhor organização da sociedade humana (GS 39).
Uma espiritualidade que se refugiasse no além e se alheasse do mundo não seria uma espiritualidade cristã. Isso acontece com certos espiritualismos orientais e seitas recentes que se dedicam à criação de estados eufóricos para criar estados de bem-estar e curas psíquicas e se alheiam do mundo. A mesma constituição diz explicitamente: Afastam-se da verdade aqueles que, pretextando que não temos aqui cidade permanente, pois demandamos a futura, creem poder por isso mesmo descurar as suas tarefas temporais, sem se darem conta de que é a própria fé que, de acordo com a vocação de cada um, os obriga ao mais perfeito cumprimento delas ( GS 43)
4- Desta certeza da presença ativa do Espírito em todos os homens, mesmo dos que parecem estranhos à Igreja, nasceu uma nova pastoral de não recorrer a ameaças nem a pressões psicológicas, mas ao diálogo fraterno e de proposta de vida. O cristão sabe que, ao dirigir-se ao mundo para o anúncio explícito de Jesus Cristo, já lá encontra, ainda que disfarçada, a presença ativa do Espírito que inspira comportamentos exemplares.
Este novo estilo de relacionamento foi exemplificado pelo Papa João XXIII ao dirigir, durante a I sessão do Concílio, a sua carta encíclica Pacem in terris a todos os homens de boa vontade, e não somente aos católicos. O mesmo fez Paulo VI que, antes da aprovação da constituição conciliar sobre a Igreja, publicou a encíclica Eclesiam suam na qual propõe o diálogo como método pastoral da Igreja.
Em resumo: O mundo criado e o trabalho humano não estão satanizados, mantêm a dignidade de obra do Criador que nem o pecado original destruiu. Este espírito novo entrou no Missal oriundo do Concílio. O último prefácio das missas do tempo comum, o n.º 9, traduz muito claramente esta nova sensibilidade sobre a presença do cristão no mundo. É quase a síntese de um capítulo da constituição. Também a «Oração Universal», a fazer depois do Credo, inclui uma série de orações sobre a atividade no mundo cheias de otimismo e de esperança. Quando o sacerdote, no fim das celebrações, traça sobre os fiéis o sinal da cruz, não os envia para o inferno, mas em paz, para o trabalho do campo, para cuidar dos doentes, para as escolas, para as repartições públicas, para os centros de turismo, para ajudar a construir um mundo melhor.




