A Direcção da Cooperativa Agrícola de Vila Real acusa um associado, professor universitário ligado a duas empresas, de lhe provocar um prejuízo superior a 100 mil euros, por não cumprir um contrato estabelecido entre as partes. A agremiação considera, mesmo, que o incumprimento desse contrato “ajudou a agudizar a crise financeira” da Cooperativa. Por sua vez, Ferreira Monteiro prefere não dar a sua opinião sobre este caso, mas deixou escapar que o comportamento da agremiação cooperativa tem sido “inqualificável”, acusando-a de uma gestão “mal conseguida”.
Jaime Portugal, Secretário da Direcção da Cooperativa Agrícola, expôs, ao Nosso Jornal, a versão do organismo a que pertence, relativamente a este caso.
“O Dr. Francisco Ferreira Monteiro é docente, no Porto, tendo duas empresas de importação de videiras enxertadas. Esse senhor, nosso associado, pediu-nos, há cerca de dois anos, o aluguer duma câmara de frio, sendo, depois, alugada uma segunda. Ou seja, eram duas câmaras de frio e uma parte do armazém ocupados com videiras que mandava para Itália. Porém, há um ano, deixou de nos pagar (embora ainda haja registo um pequeno montante, entregue em Março de 2007) mas, praticamente, há um ano que não nos tem entregado nenhum dinheiro”.
Situação já deu origem a despedimentos de pessoal
Segundo Jaime Portugal, “tal situação criou um problema terrível. Primeiro, obrigou-nos a facturar mais de 6 meses, pagando nós o IVA, sem nos entregar dinheiro nenhum. Depois, tivemos de manter as câmaras ligadas, para não deixar estragar o produto. Tudo isto porque nos enganou, dizendo que, em Fevereiro/ Março, liquidaria tudo, com a nova campanha de venda. Não fez isso, colocou num outro armazém, noutro ponto da região, os produtos em frio, obrigou-nos a manter as câmaras ligadas, porque não queríamos deixar estragar as videiras, com um prejuízo terrível, porque tínhamos que pagar, mensalmente, à EDP, se não esta cortava a energia eléctrica à Cooperativa”.
O efeito desta situação é apontada, por si, como causadora de se ter chegado a um ponto, em Agosto deste ano, “em que tivemos de despedir três funcionárias que foram para o desemprego, porque não tínhamos dinheiro para pagar a qualquer funcionário. Tínhamos sete funcionários, a partir de Agosto despedimos três senhoras e ficámos com quatro. Mas isto era desnecessário, se esse associado nos pagasse para cima de 50.000 euros facturados” – frisou.
Danos terríveis causados à Cooperativa
O assunto foi parar ao Tribunal, através de dois processos.
“Francisco Monteiro deve-nos esse dinheiro, temos um processo em tribunal contra ele e esse senhor tem ainda a distinta lata de nos pedir uma indemnização, porque lhe deixámos estragar o produto, alegando que não lhe deixámos retirar o mesmo. Assim, considero que é uma pessoa desonesta e que ajudou a atirar para o charco uma entidade como esta que tem um carácter social importante, como é uma Cooperativa Agrícola”.
Além da promessa que, a partir de Março, pagava tudo, “afinal, não pagou um tostão, deixou de atender o telefone, deixou de nos atender e, ainda por cima, quando lhe pusemos a acção em tribunal, argumentou que nós é que o prejudicámos, porque lhe deixámos estragar os produtos, quando temos duas câmaras de frio, para quem quiser ver, com as videiras desse senhor, sempre na expectativa de que ele as fosse levantar”.
Jaime Portugal disse, ao Nosso Jornal, que “se não levantar as videiras, seremos obrigados a despejar as videiras na rua. Porque nós temos que libertar as instalações”.
Quanto a números, Jaime Portugal avançou com alguns: “Há um prejuízo calculado grande, porque, além dos 50.000€, seguramente temos mais 20 ou 30.000 de prejuízo, pelo facto de termos pagado o IVA dessa facturação e, também, termos de efectuar as limpezas das câmaras, levar (ainda não sabemos para onde) as videiras, porque como vendemos as instalações, temos que as tirar. Temos de 30 a 40 mil euros de prejuízo. Tudo isto deve rondar os 100.000€. Ou seja, a dívida, mais os juros, mais o prejuízo estimado de termos as câmaras ocupadas e não podermos facturar a outros.
Empresário considera postura da Cooperativa como “inqualificável”
Contactado por nós, Francisco Ferreira Monteiro, cordialmente, declinou fazer qualquer comentário “oficial” sobre esta matéria, embora classificasse a postura dos dirigentes da Cooperativa Agrícola de Vila Real como “inqualificável”.
“Tudo o que poderia dizer, oficialmente, neste caso, poderia, eventualmente, interferir no processo, daí que não comente”. Este docente/empresário reservou-se, no entanto, a emitir uma opinião “mais tarde, sobre esta matéria”.
Entretanto, o sistema de frio da câmara onde estão milhares de pés de videira foi já desligado, estando ainda acondicionados outros produtos do mesmo empresário. Segundo Jaime Portugal, se o empresário não retirar os pés de videiras, as mesmas sofrerão um processo de trituração. A Cooperativa Agrícola de Vila Real, em breve, deverá mudar de instalações. O processo ainda está em discussão e o lugar para onde irá transitar ainda está a ser estudado.
O próximo ano poderá representar, para o organismo cooperativo de Vila Real, um virar de página na sua história, após alguns anos de constrangimentos financeiros e de projectos adiados.
José Manuel Cardoso




