Sábado, 4 de Dezembro de 2021

De Vila Real para a Organização Mundial da Saúde

Romeu Mendes está a colaborar com o Gabinete Europeu para a Prevenção e Controlo das Doenças Crónicas Não-Transmissíveis​ da Organização Mundial da Saúde (OMS) no âmbito da resposta à Covid-19, especificamente na estruturação dos serviços de saúde dedicados às pessoas com doenças crónicas. No último ano, tem dividido o seu tempo entre Vila Real, Lisboa (onde exerce funções na Direção-Geral da Saúde), e Moscovo

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Não é transmontano de origem. Qual é a sua ligação a Vila Real?

Eu sou natural do Porto e tenho raízes familiares em Baião e em Lousada. Vim para Vila Real em 1998 para estudar Educação Física e Desporto na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). Deixei a cidade em 2003 e voltei 10 anos depois, já licenciado em Medicina e, a convite da UTAD para lecionar no Departamento de Ciências do Desporto, Exercício e Saúde. Optei assim por fazer a carreira médica na região, com o Internato Geral no Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro, e o Internato da Especialidade de Saúde Pública na Unidade de Saúde Pública do Agrupamento de Centros de Saúde Douro I – Marão e Douro Norte (que abrange os concelhos de Vila Real, Santa Marta de Penaguião, Mesão Frio, Peso da Régua, Alijó, Sabrosa e Murça). Pelo meio, fiz o Doutoramento em Ciências do Desporto na UTAD reforçando ainda mais a minha ligação à instituição e à região. Já me sinto mais transmontano do que tripeiro.

Como surgiu a sua colaboração com a Organização Mundial da Saúde?

Em 2017, candidatei-me a um estágio na Organização Mundial de Saúde (OMS) e estive três meses a trabalhar em Copenhaga, Dinamarca, na sede da OMS-Europa, integrado no Programa de Nutrição, Atividade Física e Obesidade. No final do estágio, fui convidado para continuar ligado à OMS como consultor em alguns projetos. Em 2019, quando terminei a especialidade de Saúde Pública, a OMS fez um acordo com o Ministério da Saúde para que eu pudesse integrar o Gabinete Europeu para a Prevenção e Controlo das Doenças Crónicas Não-Transmissíveis, com sede em Moscovo, Rússia. No último ano, tenho dividido o meu tempo entre Vila Real, Lisboa (onde exerço funções na Direção-Geral da Saúde – no Programa Nacional para a Promoção da Atividade Física), e Moscovo.

Qual o papel desempenhado pelo Gabinete Europeu para a Prevenção e Controlo das Doenças Crónicas Não-Transmissíveis da OMS?

As doenças crónicas não-transmissíveis (doenças cardiovasculares, cancro, diabetes, obesidade, doenças respiratórias crónicas, demências, e problemas de saúde mental) são as principais causas de morbilidade e mortalidade a nível mundial. A região Europeia da OMS, que integra 53 países, é das mais afetadas por estas doenças, especialmente nos países da antiga União Soviética, e é por esta esta razão que este gabinete está sediado estrategicamente em Moscovo.

A equipa dá apoio de proximidade aos Estados Membros da OMS na implementação de estratégias de prevenção das doenças crónicas focadas nos fatores de risco comportamentais como a alimentação, a atividade física, o consumo de álcool e o tabagismo. Estas estratégias podem passar por áreas tão diversas como a formação dos profissionais de saúde, a regulação da oferta de alimentos com elevado teor de açúcar, sal e gorduras nos estabelecimentos públicos, a promoção do uso da bicicleta como meio de transporte, ou o desenvolvimento de campanhas de comunicação de educação para a saúde.

Outras das funções deste gabinete é a vigilância das doenças crónicas já referidas, analisando as tendências na incidência e prevalência nos diferentes países, identificando os fatores de risco, os determinantes socioeconómicos e os grupos mais vulneráveis para que se possam desenhar intervenções adaptadas a cada contexto.

Como é composta a equipa deste gabinete?

É uma equipa internacional, multidisciplinar e altamente especializada. Atualmente integra médicos, nutricionistas, psicólogos, farmacêuticos, analistas de dados, designers, juristas, e outros profissionais das áreas das Ciências da Educação, Ciências da Comunicação, Ciências Políticas, Ciências do Desporto, e Relações Internacionais. Trabalho com pessoas de inúmeros países, inclusive com dois portugueses, o que facilitou muito a minha integração, quer profissional, quer social.

O que mudou no seu trabalho na OMS com a Covid-19?

A pandemia expôs a vulnerabilidade das pessoas com doenças crónicas não só à Covid-19, mas também aos efeitos do confinamento e à reorganização que os serviços de saúde sofreram para dar resposta a este novo vírus. Todo o trabalho da nossa equipa foi redirecionado para analisar e mitigar os efeitos da pandemia na gestão das doenças crónicas e dos seus fatores de risco.

Quais os riscos da Covid-19 para as pessoas com doenças crónicas?

Os relatórios e os estudos já publicados demonstram que condições/doenças crónicas como a hipertensão, obesidade, diabetes tipo 2, doença das artérias coronárias, cancro e a doença pulmonar obstrutiva crónica aumentam o risco de gravidade da doença provocada pelo novo coronavírus. Ou seja, as pessoas com estas condições/doenças, quando infetadas por este vírus, tem maior risco de necessitarem de internamento em cuidados intensivos, e maior risco de morte por Covid-19, daí que tenham sido considerados grupos de alto risco.

Alguns peritos consideram que a interação entre a pandemia de Covid-19 e a pandemia de doenças crónicas é uma “tempestade perfeita”, com efeitos devastadores nas comunidades mais pobres, onde as doenças crónicas são muito prevalentes, e as condições sanitárias e de literacia em saúde essenciais no controlo da Covid-19, são muito frágeis.

Que limitações foram colocadas às pessoas com doenças crónicas devido à pandemia de Covid-19?

As medidas de confinamento e de isolamento social parecem potenciar os fatores de risco comportamentais para as doenças crónicas, como a inatividade física e o sedentarismo, a alimentação não saudável, o consumo de tabaco e o abuso do álcool, e influenciar o controlo das mesmas, especialmente quando associadas a elevados níveis de stress.

Por outro lado, o cancelamento ou adiamento de consultas, cirurgias, e exames complementares de diagnóstico, habitualmente dedicados à monitorização destas doenças, assim como as restrições nos transportes e nas deslocações de pessoas, com impacto na aquisição de bens alimentares, medicamentos, e outros serviços, têm sido reportados como fatores de disrupção da gestão destas doenças, especialmente quando aliados a um clima de insegurança económica.

Que medidas são sugeridas para atenuar o impacto da pandemia de Covid-19 na gestão das doenças crónicas?

A resposta à pandemia de Covid-19 (e a eventuais futuras pandemias) deve ser planeada e adaptada de forma a integrar a continuidade das ações de prevenção e controlo das doenças crónicas, e naturalmente isto tem de envolver os próprios doentes, as suas famílias, os cuidadores, e os serviços de saúde. Uma das medidas sugeridas passa por potenciar o uso da tecnologia, por exemplo através campanhas de promoção e educação para a saúde dirigidas aos cidadãos (quer seja através da televisão, da rádio, ou de outros meios digitais como as SMS e as redes sociais), através das teleconsultas, da renovação automática da prescrição de medicamentos, ou através do desenvolvimento de serviços mais abrangentes de encomendas com entrega no domicílio (como por ex. de medicamentos ou alimentos). Por outro lado, o planeamento das ações de rastreio ao novo coronavírus deve dar a prioridade adequada às pessoas com doenças crónicas, e à grande rede de cuidadores formais e informais que lhes está associada.

Sendo Médico Especialista em Saúde Pública como vê a evolução da pandemia de Covid-19?

Tenho acompanhado de perto, e com alguma preocupação, o desenrolar da situação nacional e internacional. À data desta entrevista (18 de junho de 2020), vejo o número de casos diários mundiais de Covid-19  a aumentar cada vez mais. Ultrapassamos, pela primeira vez, os 150.000 mil casos num só dia, vejo a Nova Zelândia com novos casos, já depois de ter anunciado que estava “livre” de Covid-19 e ter levantado por completo as medidas de confinamento, vejo a China a voltar a isolar comunidades e a fechar escolas e serviços, vejo milhares de adeptos de um clube de futebol em Itália (país com registo até à data de 34.000 mortes por Covid-19) a festejarem um título desportivo nas ruas, de forma completamente descontrolada. Vejo, em Portugal, alguns surtos importantes consequentes da falta de literacia em saúde da população, em especial dos jovens. Ninguém consegue prever o que vai acontecer nos próximos meses. Deveríamos guiar-nos pelo Princípio da Precaução em Saúde Pública e sermos muito cautelosos.

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