O Douro está a fervilhar com o pico das vindimas a aproximar-se. Espalhados pelos socalcos, andam centenas de homens e mulheres munidos de tesouras a cortar as uvas que vão ser transformadas “no néctar dos deuses”. Longe vão os tempos em que a safra era uma “autêntica festa” e era realizada sobretudo pelos residentes nas diversas localidades, agora os produtores contratam um empreiteiro agrícola que ao longo do ano tem pessoal suficiente para todas as tarefas necessárias na vinha.
Perante um cenário verdejante misturado com as cores das uvas, ouvem-se as conversas apressadas dos vindimadores e o som das tesouras a cortar os cachos que já atingiram a maturação e estão prontos para serem levados à adega. A azáfama é grande, pois há hora marcada para as uvas entrarem nas adegas, que é necessário cumprir. Espalhados de forma organizada pelos socalcos, nos rostos das pessoas não se vê a alegria de outros tempos. Trabalham desde as 7h00 da manhã até às 16h00, numa jornada dura em que o sol quente não ajuda a minimizar o cansaço. “É um trabalho duro, cansativo, que dá grandes dores de costas”, refere Cristina Monteiro, de 42 anos, depois de mais um dia de trabalho árduo na vinha selecionada para este dia, localizada em Martim, freguesia de Candedo, concelho de Murça. “É a primeira vez que estou nesta localidade, mas já venho vindimar para o Douro há vários anos. No ano passado andei por cá um mês, mas só vim fazer o tinto, este ano devem ser mais dias, uma vez que começamos mais cedo com a vindima do branco”.
Os 25 euros que recebe por dia é uma preciosa ajuda para quem está desempregada há mais de dez anos e sem receber qualquer apoio da Segurança Social. “Por vezes ainda frequento algumas formações que dão um subsídio de 10 a 12 euros, no entanto ainda tenho de pagar o transporte e sustentar a casa, não sobra nada”.
Casada e ainda com um filho menor, Cristina gostava de ter um trabalho certo, mas hoje em dia são raros e na localidade onde vive, Porto Antigo, ainda é pior. “Não há empresas, nem trabalho, temos de nos sujeitar ao que aparece. Até nem desgosto desta tarefa, mas repare nos meus braços, todos arranhados e ainda estou a usar luvas. Quando nos levantamos temos sempre dores na coluna porque andamos muitas horas agachados. Não é fácil, mas alguém tem de fazer este trabalho”.
Os cestos que antigamente pesavam cerca de 50 quilos foram substituídos por barris de plástico que os homens carregam no ombro até à carrinha, ou tratores, que depois transportam as uvas para as adegas.
Joaquim Violante, de 47 anos, faz de tudo um pouco nas vinhas. Esta altura é dedicada só às vindimas, mas ao longo do ano faz as outras tarefas, como a poda, os tratamentos das videiras, tudo o que for preciso. Esteve vários anos em Inglaterra a trabalhar, começou por lavar pratos num restaurante e passou por várias etapas até chegar a cozinheiro. Ainda estudou para se tornar um chef de cozinha, mas acabou por não fazer o curso todo e voltou para Portugal porque a “cabeça não deu para mais”, diz Joaquim conformado. “Já tive uma vida boa, mas acabei por estragar tudo. É a vida. Agora faço este trabalho, que é mal remunerado, uma vez que ainda temos de comer às nossas custas, mas é o que há”.
Já Ricardo Luvas, 46 anos, também vem de Cinfães do Douro e encontrou nas quintas do Douro uma alternativa à sua profissão, armador de ferro. “Como na construção há pouco trabalho, aproveito e venho ganhar mais uns trocos. Mas gosto muito deste trabalho e do convívio com as pessoas”.
Armindo Pinto Machado é empreiteiro agrícola, vive em Resende e tem 74 anos. É responsável pela contratação do pessoal, que ao longo de todo o ano faz os trabalhos nas quintas. Nesta altura das vindimas são precisas mais pessoas que consegue contratar com alguma facilidade na zona de Cinfães e Resende. “Sou o responsável por esta equipa de 25 pessoas. Tenho de os transportar todos os dias de casa para os locais onde vão prestar o serviço. Levanto-me por volta das 3h30 para ir buscar o pessoal, que depois trago até ao local da vindima”.
O responsável pela vindima nesta quinta de Murça é Manuel Agostinho, de 53 anos, que orienta o trabalho e dá as indicações sobre o que deve ser vindimado. “Começamos por vindimar a malvasia fina e o gouveio, mas hoje estamos a colher todas as castas. As uvas estão boas e este ano há mais um bocadinho que em 2014”.
No final de mais uma jornada de trabalho, este grupo de 25 pessoas regressa a casa, mas no dia seguinte volta ao Douro para colher as uvas que vão ser levadas para as adegas, que as transformam em vinho, que é o verdadeiro tesouro do Douro.



