Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2026
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Vila Real“Em Portugal tem falhado quase tudo nas situações de emergência climática”

“Em Portugal tem falhado quase tudo nas situações de emergência climática”

O mau tempo que tem assolado o país levanta questões pertinentes sobre se poderíamos ter evitado tantos prejuízos, não só na região centro, mas também no Douro, onde se tem registado centenas de ocorrências, com muros e taludes a desabarem, vinhas e outras explorações agrícolas afetadas e estradas danificadas.

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Rui Cortes, professor catedrático da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, revela à VTM que tem “falhado um pouco de tudo” nesta situação de emergência que o país viveu nas últimas semanas, como a “falta de monitorização dos rios e de medidas de prevenção nas zonas de risco”. Além disso, as populações “não foram sensibilizadas, nem instruídas para enfrentar estes fenómenos, que vão ser cada vez mais frequentes”.

Para mitigar o problema das cheias, a “ideia de continuar a construir barragens não é aceitável. Devemos prevenir, treinar as populações, fazer as obras necessárias e incluir todo este processo de emergência climática dentro do planeamento territorial”, afirmou, lamentando que os instrumentos de monitorização das cheias, da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), estejam avariados, outros vandalizados.

“Eles têm um papel fundamental na monotorização das albufeiras e dão sensores essenciais para alertar as populações. Até é uma rede relativamente eficiente, mas falta monitorização e treino das populações que estão nestas zonas mais vulneráveis. Estavam previstas obras para a zona de Vila Nova de Gaia e do Porto que não foram realizadas”, explica o professor, adiantando que tudo isto “conduz os territórios a estas vulnerabilidades, em que muitas autarquias têm estado desatentas a este problema”.

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

Rui Cortes, que é especialista na área dos Recursos Hídricos e Ecologia Aquática, revela que Portugal “não é um país surpreendido pela água, é um país que escolheu ignorar a forma como a água influencia o território”.

“Somos sempre muito bons a fazer planos, mas depois temos dificuldade em implementá-los”
Rui Cortes
Investigador UTAD

Como exemplo, o professor recordou os Planos Municipais de Adaptação às Alterações Climáticas (PMAAC), que são instrumentos estratégicos essenciais para aumentar a resiliência local face a riscos como inundações, secas e ondas de calor.

Estes planos, que seguiram as orientações da APA, têm como objetivo identificar vulnerabilidades, definir medidas de proteção de pessoas e bens, e criar uma cultura de adaptação.

“Estes Planos Municipais de Adaptação às Alterações Climáticas deveriam ter sido estabelecidos para todos os municípios até 2024, no entanto, um terço dos municípios não elaborou qualquer plano. Em Vila Real, por exemplo, o município aprovou a estratégia de adaptação às alterações climáticas, mas não a implementou”, frisa o especialista, vincando que “somos sempre muito bons a fazer planos, mas depois temos dificuldade em implementá-los”.

Acrescenta ainda que os governantes e as populações “têm que ter na cabeça que estes fenómenos extremos são fatores de risco, que colocam em causa vidas humanas e também a economia, como se viu na devastação e a paralisação das atividades económicas nas regiões afetadas”.

PLANEAMENTO

Rui Cortes refere que as barragens do Douro “foram construídas para produzir energia elétrica e não para controlar cheias, que têm uma reduzida capacidade de armazenamento”, frisando que “falta planeamento e ordenamento do território, que são instrumentos de segurança coletiva”. Por exemplo, no caso de Peso da Régua, “não podemos esquecer que toda a marginal foi construída em leito de cheia, diminuindo a capacidade de escoamento dessa mesma área”. Ou seja, “vemos frequentemente construções, estradas construídas em leito de cheia, o que aumenta o perigo”, pelo que o planeamento territorial “é absolutamente fundamental, assim como a própria fiscalização”.[/block]

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