“A imagem de que os pastores são inimigos da floresta, é uma imagem que queremos banir”, defendeu Hermínio Botelho, investigador da Universidade de Trás–os-Montes e Alto Douro (UTAD) e um dos responsáveis pelo estudo que, encomendado pela Autoridade Florestal Nacional (AFN), está a fazer a análise da relação entre o pastoreio e os incêndios florestais.
À margem de um seminário que decorreu, no dia quatro, na academia transmontana, cujo objectivo foi exactamente debater e reflectir sobre as primeiras conclusões do estudo, Hermínio Botelho explicou que na base da investigação está a necessidade de conhecer “mais a fundo as motivações dos pastores, a necessidade que têm da renovação de pastagem através da utilização do fogo e as práticas que utilizam”, com o intuito de sensibilizá-los.
Co-financiado pela União Europeia, e proposto pela AFN, o estudo, que envolveu mais de 20 investigadores, 10 dos quais da UTAD, “visa exactamente abordar todas as componentes desta problemática, desde o ponto vista sociológico e económico da actividade”, fazendo mesmo um retrato da “realidade local em termos do mundo rural onde vivem os pastores, as suas condições de vida e os aspectos económicos da própria actividade pastoril”.
Os pastores “são, talvez, quem melhor poderá contribuir para que possamos manter áreas florestais produtivas, com interesse económico”, defendeu o investigador da UTAD que atribui o conflito entre a floresta e os interesses dos pastores, aos erros que, ao longo de anos, se cometeram na gestão do território. “Os pastores vão reduzindo o material combustível, contribuindo para prevenção dos incêndios e, por outro lado, garantem a presença humana nas zonas rurais”, referiu Hermínio Botelho, lembrando que “a desertificação do interior é uma das causas dos grandes incêndios florestais”.
“Valia a pena, a bem do desenvolvimento rural, e da resolução dos incêndios florestais, incrementar a pastorícia, motivando os jovens a regressar ao mundo rural, a uma actividade que é altamente lucrativa, muito subsidiada pela União Europeia. Vale a pena aumentar o número de cabeças de gado e o número de pastores nas nossas serras”, defendeu.
Relativamente ao “Plano de Gestão de Combustíveis Florestais nas áreas de Pastoreio com Uso de Fogo Controlado, no Distrito de Vila Real”, recentemente aprovado pela Comissão Distrital de Protecção Civil, Hermínio Botelho classifica-o como um “passo importante”, no entanto avisa que “uma das conclusões que se tira de vários estudos, e mesmo da experiência de outros países, é que este é um processo muito longo. Todas as mudanças ao nível social exigem uma grande capacidade de motivação das pessoas para que estas percebam que há outras formas de estar. É um trabalho de sociologia, é preciso ir junto dos pastores e mostrar técnicas ancestrais de gerir o território com o gado, é necessário sensibilizá-los”, frisou.
Iniciado em Maio, o estudo está agora na fase final, e, embora tenha tido como principal zona de acção no terreno o distrito de Vila Real, espera-se que seja aplicado noutras regiões do país com características idênticas, através da criação de um programa de apoio à pastorícia e um melhor enquadramento do uso do fogo na renovação de pastagens e na defesa do fogo contra incêndios.
Segundo o Centro de Ecologia Aplicada “Prof. Baeta Neves” (CEABN), um centro de investigação integrado no Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa, entre os anos de 2002 e 2007, foram analisados 134.989 fogos ocorridos em Portugal continental, verificando-se que 20 por cento de todos os fogos com causa determinadas tiveram origem na actividade pastoril. A nível nacional, os distritos com maior número de fogos atribuídos ao pastoreio são Viseu (30%), Guarda (26%), Vila Real (22%), Bragança (10 %) e Viana do Castelo (9%), concentrando 96,4 por cento de todas as ocorrências.





