Terça-feira, 19 de Outubro de 2021

Investimentos de retorno “zero”

Quando se fala cada vez mais em poupança, em racionalidade no investimento público e em alguns erros cometidos nesta área, na nossa região também existem casos em que os vários milhões de euros gastos ainda estão sem qualquer retorno financeiro. O presidente da Câmara Municipal de Lamego, Francisco Lopes, apontou, ao Nosso Jornal, um exemplo bem visível que é o edifício de apoio ao cais fluvial.

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Há cerca de 10 anos, o ex-Instituto de Navegabilidade do Douro, agora IPTM, gastou perto de um milhão de euros e o edifício continua fechado. Mas, no vale do Douro há mais exemplos, como os quase dois milhões de euros gastos na fábrica de ácido tartárico, até aos 400 mil euros gastos num comboio e que agora nem linha tem.

O concelho de Lamego acolhe um dos casos de investimento público que não tem qualquer utilidade. O edifício de apoio ao cais fluvial de Lamego foi construído pelo então Instituto de Navegabilidade do Douro e seria para servir de pólo de informação turística. Porém, na altura, o IND abriu um concurso público para a sua exploração, mas o único concorrente não aceitou a proposta então conhecida, dado o seu elevado valor. Desde dessa altura, várias soluções foram apontadas para o imóvel, uma delas foi direccionada pelo IPTM para o Município de Lamego, conforme nos contou o seu presidente. “O IPTM propôs à Câmara de Lamego uma solução que nós não podíamos nem quisemos aceitar e cumprir”. A sua utilização para um eventual entreposto de vinhos num projecto cooperativo foi ventilado, mas até agora sem sucesso. “Gastou–se cerca de um milhão de euros na construção do edifício, criação de uma estrada de acesso e anel interno de acessibilidades”, garantiu Francisco Lopes.

Na freguesia de Folgosa do Douro, concelho de Armamar, há um outro investimento sem retorno mas este é de âmbito privado: a fábrica de ácido tartárico da Subvidouro, onde foram investidos 600 mil contos. Concluída em 2004, depois de ter sido gasto tanto dinheiro em equipamento de alta tecnologia na obtenção do ácido tartárico, o certo é que não chegou a ser comercializado, até agora, qualquer quilo da substância química, que seria utilizada como aditivo nos produtos vitivinícolas, nos alimentos, nas bebidas e como agente retardador no gesso, entre outros produtos.

Na fase inicial, o projecto da Subvidouro teve a colaboração de elementos da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e, à partida, seria a esperança de uma mais-valia para a região Demarcada do Douro. Na altura, vários especialistas apontaram o facto do estudo económico não ter sido feito de forma rigorosa, já que o mercado foi invadido de ácido tartárico oriundo de alguns países europeus e asiáticos, como a China.

Na Régua, existe outro investimento que até chega a ser caricato para a região. Em 2000 foram gastos quase 400 mil euros na recuperação de uma locomotiva a vapor, nas oficinas da EMEF em Guifões (Porto). A recuperação da velha locomotiva a carvão traduziu-se em apenas três viagens a vapor na linha do Corgo, entre Régua e Vila Real, em 2001. A máquina Enschel E 214 ganha agora ferrugem junto à Estação da Régua, numa plataforma de via estreita. Um fiasco que a CP e a REFER tentaram sempre evitar abordar. Esta máquina a vapor foi construída em 1923 e foi a última a sair da circulação ferroviária. É considerada uma raridade, é articulada e já foi considerada como uma das mais potentes na linha métrica do Corgo.

Em degradação estão também três carruagens históricas CEYF. Uma delas, de 48 lugares, de 1926. Investimento perdido, expectativa gorada na revitalização do comboio histórico a vapor na linha do Corgo. Agora, o investimento de 400 mil euros nem carris tem para circular.

Ainda na cidade da Régua há outro investimento que se questiona a sua rentabilidade: o palacete brasonado das Vazes do séc. XVIII, adquirido pelo então Instituto do Vinho do Porto, IVP, em 1978, com um valor a rondar os 190 mil euros, com o intuito de ali se instalar a sua sede administrativa. Todavia, o solar, construído em 1723, começou a ficar bastante degradado. Hoje, o tecto está a cair e a ruína acabará por fazer desaparecer do mapa um dos mais nobres e bonitos edifícios da Régua. Já em 1999, um estudo para a sua reabilitação apontava para um custo na ordem dos 300 mil euros. Interessados não faltaram, desde a extinta Comissão Interprofissional da Região Demarcada do Douro, CIRDD, até à Câmara Municipal de Peso da Régua. Em 1999, também se falou que poderia acolher o Solar do Vinho do Porto e até o Museu do Douro. A própria CIRDD, a funcionar na Casa da Douro, chegou mesmo a tomar a decisão de avançar para a compra do palacete. Todavia, o valor pedido então pelo IVP e o custo da sua recuperação foram obstáculos intransponíveis. Neste contexto, é recordada com algum simbolismo uma declaração de Coelho Pires, ex-presidente da CIRDD, alusiva à preferência do organismo pelo Solar das Vazes. “A necessidade de salvar o solar é cada vez mais premente. Depois das obras concluídas, a lavoura duriense terá um espaço bonito e condigno para tratar dos seus assuntos, preservando-se também este magnífico património”.

Há ainda um investimento feito no porto fluvial de Lamego. Desde 2003 que não é utilizado pela navegabilidade comercial do Douro, ou seja, não movimenta qualquer tipo de mercadoria.

Em conclusão, podemos referir que foram investidos muitos milhares de euros, mas sem qualquer utilidade ou rentabilidade para a região.

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