2 – Nas últimas décadas deu-se uma reviravolta no modo de encarar a vida humana, passando-se gradualmente de uma atitude de absoluto respeito à banalização. Dessa banalização são sintomas o suicídio, o uso das drogas, incluindo o álcool, a prostituição, e até a atitude de desprezo pelas conveniências sociais, desde o desleixo no vestir, na alimentação, no modo de ocupar os tempos livres: em tudo predomina a «felicidade imediata» como valor padrão.
3 – Para isso contribuíram inúmeros factores, entre os quais se devem referir os múltiplos acidentes rodoviários, as hecatombes naturais e as destruições das guerras e lutas tribais: tudo isso, difundido diariamente pelos média, dá a impressão de um mundo abandonado à sua sorte, a fazer lembrar o escândalo de Alberto Camus que sentiu desfazer-se o seu mundo interior ao ver na estrada um criança morrer esmagada por um camião; do lado oposto, podem contribuir para essa banalização da vida as ousadias desportivas e artísticas, a multiforme investigação científica, médica, cirúrgica farmacológica. Por caminhos opostos, podem levar à mesma sensação a vida ser um bem frágil, igual a outros, totalmente dependente do homem. Finalmente, o esmorecimento do horizonte da eternidade retirou o último baluarte da valorização e faz crescer a convicção de que o importante é viver bem neste mundo.
4 – Na actividade política, as promessas da melhoria de vida dos cidadãos, especialmente dos mais frágeis e esquecidos (a mulher, as crianças e dos doentes) e a esperança do prolongamento da vida cada vez maior, levaram a concentrar a atenção na obtenção da «qualidade de vida». Mais: identificou-se a qualidade de vida com a vida digna de ser vivida, vida com conforto e prazer e ausência total de sofrimento desde a gestação ao parto, do trabalho educativo e escolar às tarefas laborais, e na fase terminal. Sem qualidade de vida é melhor não viver, diz-se. Por isso, nos últimos anos multiplicam-se por toda a parte, mormente no Ocidente, as «religiões da felicidade» que vêm de encontro desse desejo inconsciente, e oferecem uma panóplia de elixires da saúde, de técnicas terapêuticas para todos os males físicos e psíquicos: curandeiros, adivinhos, aconselhamentos psicológicos e fornecedores de energias espirituais, massagens e relaxamentos. Nas religiões da «felicidade e o bem-estar» não se fala da «missão» a cumprir, exactamente ao contrário da fé cristã que propõe antes de mais um serviço e uma missão, e a felicidade virá depois como consequência e não como condição.
5 – O sonho de um mundo de felicidade e sem sofrimento acaba por tornar inaceitável a vida real: em nome da qualidade de vida, tende a eliminar-se antecipadamente os que estão incapazes desse patamar ou perturbem a dos outros; em nome de uma fantasia civilizacional, matam-se crianças antes de nascer ou por serem indesejadas ou por serem deficientes, e tende a receitar-se por misericórdia a morte de pessoas incuráveis e em sofrimento; em nome da felicidade do casal, multiplicam-se os esforços para conseguir um filho através da procriação medicamente assistida e, paradoxalmente, legalizam-se casamentos «contra naturam», defende-se a adopção de crianças e dão-se aos casais todas as condições para não terem filhos!
Verdadeiramente, perderam-se os princípios fundamentais acerca da vida. A cultura moderna colocou a «qualidade de vida», a «felicidade do indivíduo» e o seu «bem-estar» acima da vida como tal. Há valores e há direitos, mas falta hierarquizá-los: o primeiro direito, anterior a todos os outros, é o direito à vida, e, sem essa prioridade basilar e indiscutível é impossível acertar as contas.
6 – Falei acima das investigações científicas como possíveis indutores do menosprezo intelectual pela vida. Efectivamente, aquelas investigações são cada vez mais minuciosas e brilhantes, e insinuam subtilmente que a vida é algo dependente do homem, algo de que ele é dono. Ora os biólogos e técnicos limitam-se a descobrir os mecanismos da vida, reproduzem parcelas vitais, mas estamos muito longe da síntese vital e orgânica, nem sei se algum dia lá chegaremos Mas ainda que isso aconteça, tratar-se-á sempre da imitação da natureza e não da «criação» da vida. Prolonga-se aqui o que diz o Credo acerca do Verbo: «gerado e não criado», a vida é um dom e só depois uma tarefa.
7 – No Evangelho, a vida humana mereceu de Jesus todo o respeito, fosse homem ou mulher, cego, coxo ou leproso. Para Jesus, todos pareciam esconder em si mesmos um mistério sagrado. A vida humana era para Jesus quase um absoluto, a ponto de incluir nos seus mandamentos a proibição da morte infligida pelo homem, seja o suicídio seja o homicídio, seja a imposição directa de ferimentos. A pena de morte acaba de ser excluída do Catecismo Católico. Proibiu os seus discípulos de procurar o martírio: «fugi», «sacudi o pó das sandálias». Ele próprio deu o exemplo, evitou ser morto enquanto isso foi possível, aceitando-a somente quando ela se impôs como único meio de confirmar a sua missão. Não estimava o sofrimento, empenhou-se na libertação do sofrimento e da morte (quer em ajudas pontuais quer ensinando que ter sofrimentos não significa a culpa daquele que o suporta, quer pela ressurreição), mas ensinou que o sofrimento faz parte do tecido da história, e que a libertação radical do sofrimento e da morte ultrapassa a história, e essa certeza é que dá sentido à vida.
A jornada da vida quer ajudar a perceber e a assumir esta realidade que a vida é mais que a sonhada «qualidade» de vida. Viver com o sofrimento e em comunhão com Jesus Cristo Ressuscitado afasta a angústia existencial.





