A nível nacional, um em cada quatro projetos financiados pelo anterior quadro de fundos comunitários pertencia a um jovem agricultor. Na região Norte a representação dos jovens foi ainda maior, superando os 50 por cento do total dos beneficiários das candidaturas aprovadas.
Segundo os últimos dados, avançados pela Direção Regional de Agricultura e Pescas do Norte (DRAPN) sobre a execução do Programa de Desenvolvimento Rural (PRODER) para os anos de 2007/2013, foram investidos no setor mais de 900 milhões de euros, dos quais 342 milhões foram injetados em projetos liderados por jovens agricultores, que contaram com um financiamento na ordem dos 233 milhões de euros.
O Douro liderou, de longe, a tabela dos prémios de 1ª instalação atribuídos, tendo sido apoiados 646 jovens (subsídio até ao montante de 40 mil euros por projeto). Só em Lamego beneficiaram desta medida 111 jovens, seguindo-se no top dos concelhos São João de Pesqueira, com 95 candidaturas aprovadas, Armamar e Alijó, com, respetivamente, 59 e 56 novos agricultores apoiados.
Para Manuel Cardoso, diretor da DRAPN, este é “sem dúvida” um sinal positivo para a região. “Trata-se de um rejuvenescimento e de uma mudança: a geração de jovens que está hoje na agricultura está academicamente bem preparada e, mesmo que lhe falte experiência, é muito aberta à inovação e tem capacidade para rapidamente adquirir a resiliência necessária para uma atividade que exige esforço e uma permanente ultrapassagem de dificuldades e variáveis”, explicou.
A área da preferência dos jovens são as culturas permanentes, tendo sido feitos mais de dois mil pedidos de apoio nesta área para a região Norte, sendo de sublinhar ainda a aposta na vinha (942 projetos) e nos pequenos frutso e bagas (598 projetos).
Outra ilação que se pode retirar das estatísticas prende-se com a liderança em alguns setores, como por exemplo nos pequenos frutos e nos cogumelos, em que mais de 90 por cento dos projetos que foram alvo de candidatura tinham assinatura de jovens.
“O interesse dos jovens pelo desenvolvimento de novas atividades está associado a uma crescente procura do mercado mundial (alimentar e farmacêutico) destes produtos”, sublinhou Manuel Cardoso, referindo que ajuda também na decisão de escolher certos setores “a procura de atividades mais ajustadas à região, com fortes características de minifúndio e com custos fixos de instalação inferiores”.
Desde fevereiro que os jovens agricultores podem concorrer aos apoios à instalação no âmbito do Programa de Desenvolvimento Rural (PDR 2020), tendo Portugal sido o primeiro Estado-membro da União Europeia a abrir o período de candidaturas.
O novo quadro trouxe novidades em relação ao PRODER, entre as quais a exigência de “formação agrícola adequada” aos beneficiários e projetos de investimentos de montante igual ou superior a 55 mil euros.
Os apoios estão disponíveis a jovens com idades entre 18 e 40 anos que estejam enquadrados na categoria de micro e pequenas empresas, sendo necessário que sejam titulares da exploração com a qual se candidatam e que tenham um projeto com um plano empresarial de cinco anos.
Quanto aos montantes, o apoio à instalação é de 15 mil euros e pode ser acrescido de 25, 50 ou 75 por cento, se o plano empresarial incluir investimentos superiores a 80, 100 ou 140 mil euros, respetivamente.
O prazo para a apresentação de candidaturas para os interessados em estabelecerem-se como jovem agricultor termina no final de outubro, estando a decorrer, em simultâneo, o concurso para “Investimentos na Exploração Agrícola”.
O diretor da DRAPN salientou à VTM que a aposta nos jovens é “determinante para a manutenção da competitividade”. “São mais abertos a trabalhar em rede e em formas associativas. O novo quadro apoia fortemente o trabalho em associação e a constituição de organizações de produtores”, defendeu Manuel Cardoso, adiantado que, desde que abriram os concursos, já deram entrada “mais de mil candidaturas”, havendo “novas tendências nos projetos que estão em análise”. “Nota-se que há uma grande atenção a novidades e aos mercados. Isso é bom. Deve-se produzir aquilo que se sabe que se vai vender”, concluiu.
Uma aposta que está a dar frutos
Dois anos e meio depois de ter plantado os primeiros pés de kiwis, Miguel Teixeira, jovem agricultor de Ribeira de Pena, considera que a aposta na agricultura está, literalmente, a dar frutos, com a empresa que criou com o irmão a crescer “aos pouquinhos”.
“Começamos por investir por conta própria numa pequena produção de kiwi com 7 mil e 500 metros. A partir daí fizemos um projeto de Jovem Agricultor, com ajuda aumentamos essa área para três hectares e apostamos na produção da framboesa”, explicou o agricultor de 27 anos que, com o irmão, José Nuno Teixeira Fernandes, de 30, é um bom exemplo da aposta dos jovens no mundo rural.
Proprietário da Fruticultura Pereiro, empresa que tem o nome da localidade onde está sedeada, no concelho ribeirapenense, Miguel Teixeira expandiu ainda mais o negócio, plantando mais um hectare de framboesas e apostando também, desde o ano passado, em mais uma produção, a da groselha.
Depois de uma experiência no estrangeiro, a trabalhar na Bélgica numa produção de framboesa, o jovem decidiu regressar a Portugal e, além de aproveitar os conhecimentos que trouxe, ainda se aventurou em setores que desconhecia. “Ainda estamos a aprender e a testar. Uma pessoa está sempre a aprender”, reconheceu.
Atualmente, a Fruticultura garante dois postos de trabalho ao longo de todo o ano e chega a empregar, durante mais de um mês, mais de 15 trabalhadores na altura das colheitas.
“O investimento inicial foi um bocadinho elevado. Tivemos que recorrer à banca e agora estamos a pagar o crédito”, explicou o jovem agricultor, que não se mostra arrependido de ter regressado à terra natal, seguindo as pegadas dos pais que estavam já ligados ao mundo rural, mas dedicando-se ao setor pecuário.
Exportando a maior parte da sua produção para países como a Bélgica, a Alemanha e a Holanda, considerados os “grandes consumidores dos pequenos frutos”, no ano passado a empresa ainda decidiu avançar para a vertente da transformação, produzindo agora com as suas frutas licores e doces.
Sem arrependimento na escolha que fez, Miguel Teixeira deixa uma palavra de incentivo a outros jovens que queiram dedicar-se ao setor agrícola, mas adverte que “é preciso gostar”. “É uma área muito trabalhosa, que exige levantar muito cedo, que obriga a trabalhar de manhã à noite. Mas acho que é uma boa aposta”, sublinhou.
Quanto à venda dos frutos, o jovem refere que consegue escoar toda a sua produção, pese embora “às vezes o preço esteja tão baixo que nem compensa muito ter as despesas com o pessoal, com o transporte…. mais vale deixar o fruto na planta”.
Apesar dos aspetos negativos, ligados ao setor, o jovem agricultor é perentório a garantir que vai continuar a apostar na sua quinta.
Uma “viagem difícil”, mas que vale a pena
“Fiz uma mudança radical com a decisão de voltar para o país e apostar na viticultura como jovem agricultor”, recordou Jorge Coutinho, de 37 anos, que deixou para trás o emprego fora do país numa empresa multinacional para se instalar em Celeirós do Douro, no concelho de Sabrosa.
Apesar de ser natural de Viseu, o jovem empresário, que casou em Vila Real, decidiu apostar numa quinta que já pertencia à família e criou a Altapontuação, uma empresa pensada “com o objetivo de produzir vinhos de grande qualidade, a partir de uvas produzidas na região demarcada do Douro”.
Quase sete anos depois de se ter instalado como jovem agricultor, tendo usufruído do Prémio de 1ª Instalação disponibilizado pelo PRODER 2013/2017, Jorge Coutinho faz um balanço positivo da experiência. “Na altura fiquei com pena que o apoio de 40 mil euros não permitisse investimento, contudo deu um grande empurrão, sobretudo na vertente da comercialização, que permite à empresa ser mais forte, mais aguerrida, e também voltada para a exportação”, explicou.
Contando com dois funcionários a tempo inteiro e a contratação de empresas prestadoras de serviços para o trabalho na quinta, a Altapontução produz atualmente 15 mil garrafas de vinho por ano, que são comercializadas no mercado nacional, sobretudo Lisboa e Porto e no estrangeiro, em especial para a Alemanha, Bélgica e Suíça.
“A viagem não foi fácil. É preciso ter muita consciência de que o mundo rural é muito difícil”, advertiu o jovem agricultor, sublinhando, no entanto, que o apoio dos fundos europeus é um “bom empurrão” para quem esteja “decido a trabalhar a cem por cento, a dedicar-se totalmente”. “Vale a pena”, defendeu.
Em relação ao futuro, o empresário quer avançar com uma nova candidatura aos fundos europeus, no âmbito do novo PDR 2020, mais exatamente na medida direcionada aos investimentos na agroindústria . “Neste momento estou a alargar as instalações para a vinificação e gostava de ter a minha própria adega, com uma ‘Wine Store’ e um ‘Wine Bar’ para a venda não só de vinhos mas de outros produtos tradicionais que produzimos na quinta, como por exemplo o azeite”, adiantou.
A quinta, que “dá corpo” ao projeto de Jorge Coutinho, data de 1876, tem cerca de 5,5 hectares e já produziu vinhos premiados logo na sua primeira colheita, com o vinho Altapontuação 2008 Tinto a ser distinguido com a medalha de prata no Wine Masters Challenge 2010 do Estoril.




