A chancela do Sumo Pontífice vem coroar o ciclo de reflexões, feitas pela Congregação para as Causas dos Santos e abre a porta ao estudo do suposto milagre, ocorrido em 2003, na cidade de Baiona, Espanha: a cura repentina de pioderma grangrenoso, operada por Deus em D. Georgina Troncoso Monteagudo que há 34 anos sofria, horrível, mas pacientemente, de braço imóvel amarrado ao peito.
A Venerável Maria Clara do Menino Jesus nasceu na Amadora, Portugal, a 15 de Junho de 1843, filha de nobres que lhe dão o nome de Libânia do Carmo Galvão Mexia de Moura Telles e Albuquerque. Foi baptizada a 2 de Setembro do mesmo ano, na Igreja de Nossa Senhora do Amparo, em Benfica.
Ficando órfã de mãe e pai, vítimas do cólera mórbus e da febre-amarela, respectivamente em 1856 e 1857, entrou para o Internato Real da Ajuda, fundado para órfãs de fidalgos, pelo rei D. Pedro V e orientado pelas Filhas de Caridade São Vicente de Paulo, francesas.
Expulsa do país, esta religiosa foi convidada a viver em casa dos Marqueses de Valada. Depois de alguns anos de permanência nesse ambiente de grandeza e de luxo, inquieto o seu coração por valores de transcendência, entrou no Pensionato de S. Patrício, das Irmãs Terceiras Capuchinhas de Nossa Senhora da Conceição, orientado espiritualmente pelo Padre Raimundo dos Anjos Beirão. Poderia, naquele ambiente mais reservado e de maior silêncio, escutar o que Deus lhe segredava ao coração. Aí, descobre que é chamada à vida religiosa.
Toma hábito de Capuchinha e fica a ser chamada de Irmã Maria Clara do Menino Jesus. Com intuito de fundar em Portugal uma Congregação, para valer aos pobres e todos os desprotegidos da sorte, e porque em Portugal é proibido professar, vai a França fazer o noviciado, após o qual emite os votos religiosos de pobreza, obediência e castidade.
Regressada a Portugal, lança-se à concretização do sonho que acredita ser também o de Deus e nasce, a 3 de Maio de 1871, a Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, dando expressão ao carisma da Hospitalidade, pelo exercício das Obras de Misericórdia para com todos, sob o influxo do espírito das Bem-Aventuranças.
Dotada de um coração repleto de bondade dedicou a vida a minorar sofrimentos e dores, enchendo Portugal de centros de assistência, atendimento e educação, onde todos os desvalidos pudessem encontrar carinho, agasalho e amparo, fosse qual fosse a sua condição social
Ao longo dos 28 anos à frente da Congregação, recebeu mais de mil religiosas, abriu mais de 140 obras, para acolher pobres, doentes e abandonados. Enviou as suas religiosas além fronteiras, missionando em Angola, Índia, Guiné e Cabo Verde.
No meio de trabalhos, de sofrimentos de toda a espécie, na doença, na perseguição, no descrédito e na incompreensão, a Irmã Maria Clara soube manter- -se sempre fiel aos seus princípios e à missão que Deus lhe confiara, num serviço permanente e generoso a todas as pessoas, sem qualquer excepção.
Desgastada por enormes canseiras, morreu em Lisboa, no dia 1 de Dezembro de 1899, com manifesta fama de santidade.
Está sepultada na Cripta da Sede Geral da Congregação, em Linda-a-Pastora, onde acorrem muitas peregrinações, suplicando a sua intercessão junto de Deus. Já em vida, atraía de Deus favores extraordinários para os mais necessitados. Hoje, de muitas partes da Terra e de muitos favorecidos se testemunham graças obtidas por seu intermédio.
A sua inexcedível caridade, a sua perseverante esperança, “como se visse o invisível”, a profunda humildade e fé a toda a prova, aliadas a um sentido de Igreja dificilmente ultrapassado, além de muitas outras virtudes, praticadas até ao heroísmo, reconhecidas agora por Bento XVI, impõem-se à consideração do mundo, erguendo-se como modelo e testemunho de que é possível viver o Evangelho “sem glossa”, na expressão e vida de Francisco de Assis.




