Quinta-feira, 11 de Agosto de 2022

Minas de Vila Cova sem futuro

Continua “sepultado” no concelho de Vila Real um dos filões de minério de ferro mais importantes do país. Há cerca de 17 anos que as minas de Vila Cova deixaram de ser exploradas. Num momento em que parece haver uma aposta nos recursos mineiros em todo o país, para este couto mineiro não há interessados e a Câmara de Vila Real assume que a sua exploração ainda não é rentável. A Junta de Freguesia acredita que “pode haver uma luz ao fundo do túnel”. Hoje, as minas estão na posse da Assembleia de Compartes dos Baldios de Mascozelo. A titularidade dos direitos de extração de ferro nas antigas minas de Vila Cova e a licença de exploração já não existem.

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A exploração de mineira de Vila Cova, iniciada em 1956, chegou a ocupar perto de um milhar de trabalhadores e constituiu uma mais-valia no concelho de Vila Real. A própria aldeia beneficiou da exploração e teve um hospital, uma cantina e várias pensões. Com a quebra do mercado mundial do ferro, as minas fecharam as portas em finais dos anos setenta. Trata-se de um jazigo metamórfico estratiforme de magnetite, com a exploração interrompida que se fazia a céu aberto e em subterrâneo. A Vicominas foi a empresa exploradora dessa altura.

As minas chegaram a ter oito pisos, com uma profundidade máxima a rondar os 200 metros e quilómetros de galerias. As minas do Faruca, Lameiro do Bicheiro, Vale do Cieiro foram as mais importantes. Passados mais de 40 anos, a sua exploração nunca foi reativada. O Posto Médico, a Casa do Engenheiro, o Paiol, a Lavaria, a Casa Malta, os Compressores, a Cabine, a Forja, o escritório, a casa das Máquinas, a Britadeira, toda uma série estruturas e logística que o tempo não tem poupado e aos poucos se foi perdendo testemunhos da história mineira do concelho de Vila Real. Há cerca de 20 anos, houve um privado que adquiriu as “casas da mina” e nessa altura houve a esperança de que no local poderia nascer um equipamento turístico, mas o processo não evolui”.

Recorde-se que, o minério de ferro, depois de extraído das minas, seguia para os “Altos Fornos da Campeã”. Aqui passava por um processo de fundição, sendo destinado depois para a produção de silício. O ferro era então derretido e em barras quadradas seguia para o Porto. Com os exemplos de exploração na região em Minas de Jales, Boticas, Tabuaço, Ribeira de Pena (prospeções para a produção de antimónio), as minas de Vila Cova parecem estar em contraciclo e para já não parece haver perspetiva de exploração. Assim deixou transparecer ao Nosso Jornal o presidente da Câmara Municipal de Vila Real, Rui Santos. “Nesta área sabemos os recursos que temos. Ainda há dias falei com um empresário da região Centro sobre a exploração mineira. Só que nós tentamos valorizar estes mesmos recursos, mas há um factor que nos ultrapassa, a rentabilidade. E ainda não houve ninguém a convencer um empresário a investir se isto não acontecer. Há estudo, análise e ponderação, mas só avançaremos se houver garantias e perspetivas de que valha a pena fazer regressar a exploração mineira às minas de Vila Cova. Estamos à espera de uma resposta de empresários desta área, de um estudo socioeconómico que comprove a sua rentabilidade. A cotação na bolsa e os custos de exploração são determinantes. Os outros exemplos têm menos custos de exploração”.

Quanto a uma possível exploração turística, para já reconheceu “ser muito difícil avançar”.

 

250 milhões de euros para procurar minérios passam ao lado de Vila Cova

 

Em 2012 um programa avançado pelo governo de Pedro Passos Coelho duplicou para perto de 250 milhões de euros a sua aposta na indústria mineira, ao assinar uma série de concessões e lançar concursos para a prospeção de minérios em Portugal.

O investimento anunciado pelo Ministério da Economia chegou aos 125 milhões de euros durante cinco anos e mais outro tanto para as concessões já em curso. Mas, o certo é que por variadas razões o couto mineiro do concelho de Vila Real ficou à parte de qualquer programa de reabilitação ou aproveitamento. A região foi abrangida por alguns contratos, nomeadamente Torre de Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta (ferro e metais associados), Tabuaço, São João da Pesqueira, Moimenta da Beira e Vila Nova de Foz Côa (antimónio, arsénio, cobre e lítio).

A União de Freguesias de Pena, Quinta e Vila Cova ainda tem a esperança que apareça um investidor. Maurício Carvalho, autarca deste órgão, referiu, ao Nosso Jornal, que o território das minas pertence agora à Assembleia de Compartes de Vila Cova e Mascoselo, a última constituída em 2007. “Desde 1975 que as minas deixaram de funcionar e, infelizmente, até hoje mais ninguém tirou minério. “É com tristeza que ano após ano, vou vendo todo um património a degradar-se, nomeadamente as suas casas, que em tempos ainda houve a esperança de que fossem aproveitadas para algum projeto turístico. Houve um privado de Vila Real e antigo responsável pela exploração das minas que comprou todo o património habitacional existente, com a justificação de que iria investir no local, porém há mais de 20 anos que nada avançou. As minas de Vila Cova, devidamente exploradas, poderiam ser uma mais-valia, falta apenas a coragem de um investidor apostar, até porque, e ao contrário das minas de ferro de Moncorvo, a dimensão do filão ainda não está cientificamente avaliada nem dimensionada”.

A ideia de Maurício Carvalho é assente num estudo de 1966 dos geólogos Cotelo Neiva e Carlos Teixeira, para definir a estrutura do jazigo e avaliar as suas reservas, assim o comprova. Concluindo os geólogos que o jazigo de Vila Cova “se mantém incompletamente reconhecido”.

De sublinhar que antes da Vicominas, a primeira empresa a surgir na exploração de ferro foi a “Minas de Vila Cova e Siderurgia do Marão”, que tinha por trás António Champalimaud. Acrescente-se que, a nível europeu foi a terceira a ter a eletrossiderurgia e a utilizar tecnologia norueguesa. Contudo, a degradação e o abandono da exploração abrange também outros locais da região, como Carrazedo de Montenegro, Borralha (Volfrâmio), Pinhal Novo (Barroso), Santo Adrião, perto de Vimioso (mármores e alabastros) e Vale das Gatas (Sabrosa).

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