1 Quando esteve em Lisboa, durante a visita a Portugal em 2010, o Papa Bento XVI disse na Missa celebrada no Terreiro do Paço, aos 11 de maio, que «sucede não poucas vezes que os cristãos sintam maior preocupação com as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando esta como um pressuposto óbvio da sua vida diária. Ora tal pressuposto não só deixou de existir, mas frequentemente é até negado».
Bento XVI retoma este alerta na sua carta sobre o Ano da fé, e lembra a necessidade de, durante o Ano da Fé, fazer a catequese conveniente sobre o conteúdo central das festas religiosas. «Enquanto no passado era possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ela inspirados, hoje parece que já não é assim em grandes sectores da sociedade devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas» (Carta Porta da Fé, n2).
Vale a pena refletir nesta advertência.
2 As festas religiosas (sobretudo as grandes como a Páscoa, o Natal, o Pentecostes, o Domingo) revestiram-se, nas terras de tradição cristã, de reflexos sociais, culturais e até políticos que as pessoas vivem, mesmo esquecendo o conteúdo religioso ou nem sequer acreditando nele. Recordemos a campanha da solidariedade em favor dos pobres na época do Natal; os passeios às amendoeiras e o turismo religioso na Páscoa; a bênção dos animais reunidos junto de uma capela nos montes na Ascensão; as visitas turísticas aos Açores nas festas do Espírito Santo; as feiras francas na solenidade de Todos os Santos; os grandes concertos musicais da Páscoa. Tudo isso se vive no pressuposto de que se sabe e acredita no acontecimento religioso.
Mesmo pessoas responsáveis caem nessa ilusão e, para não serem repetitivas, enveredam por apresentar nesses dias reflexões sobre a Paz mundial, a Caritas, a recolha de sangue, as campanhas de beneficência. Frequentemente, trocam-se os conteúdos cristãos por generalidades jornalísticas, tais como: dizer que «o Natal é qualquer dia» desde que haja amizade e partilha de bens com os outros, e encobre-se o facto da Encarnação que só existe na religião cristã; dizer que o domingo de Ramos é a festa da saudação aos padrinhos, e esconde-se a entrada messiânica de Jesus em Jerusalém; dizer que a Páscoa é a festa dos afilhados e da primavera com alusões ao coelho como símbolo da festa pagã da fecundidade da natureza, e esconde-se o facto ímpar da Ressurreição de Jesus Cristo; dizer que os domingos são dias de descanso, confundindo uma conquista social do domingo (vinda do tempo do imperador Constantino e inscrita nos códigos de trabalho dos estados modernos) com a natureza pascal do dia.
Deste modo, os factos e mistérios basilares da fé católica – a Criação, a Encarnação do Verbo, a Ressurreição de Jesus Cristo, a presença do Espírito Santo – são ignorados ou postergados em favor de atividades sociais, e quando se fala daqueles factos, ouvem-se barbaridades, tais como confundir ressurreição com reanimação do cadáver, reencarnação ou metempsicose. Já não falo das expressões linguísticas e adágios portugueses lindíssimos que têm pressupostos cristãos que são cada vez mais ignorados, pois isso levar-nos-ia até à ignorância ou descuido de muitos professores de história e de português. Quem se lembra de dizer aos alunos que a expressão «fim de semana» é a mistura comercial do último dia da semana com o primeiro da semana seguinte, o que acaba por sabatizar o domingo?; que os nomes dos dias da semana são, em português, rigorosamente cristãos (numerados a partir do domingo como satélites em volta do sol), enquanto na língua francesa e castelhana são meio pagãos e meio cristãos e, na inglesa, totalmente pagãos?
3 Esta troca do conteúdo religioso das festas cristãs pelas dimensões sociais das mesmas transporta-me a uma homilia que fiz há anos numa peregrinação do dia 13 de julho em Fátima. Como é sabido, na aparição de 13 julho em 1917, Nossa Senhora falou aos pastorinhos do Inferno. Na fidelidade ao facto, também falei aos peregrinos da dimensão eterna da nossa vida. No final, um jornalista católico admirou-se de eu não ter preferido falar dos «infernos deste mundo». Referia–se à droga, ao desemprego, à violência doméstica, às tais dimensões sociais da fé. Disse-lhe que há um tempo para tudo.
Pior ainda é a adulteração da fé dos sacramentos, transformados em meios de cura. Um antigo pároco contou- -me, com um sorriso de malícia, a estranheza que sentiu ao ver o interesse dos jovens de uma paróquia em serem crismados, eles que nem eram muito fervorosos na participação na Missa dominical. Indagou um pouco e verificou que o crisma era procurado como meio de acautelar a gaguez, pois, segundo eles, «quem não for crismado, torna-se gago». Era, afinal, a corruptela da missão confiada aos Apóstolos «que falavam sem medo e abertamente de Jesus em toda a parte». Haviam trocado o conteúdo apostólico por uma ameaça supersticiosa à saúde!
Para que as nossas festas cristãs e os sacramentos não fiquem gagos, é indispensável falar dos conteúdos religiosos dessas festas, não fazendo suposição de conhecimentos





