Quarta-feira, 22 de Julho de 2026
Vila Real“Naufrágio” da navegação comercial, no Douro interior

“Naufrágio” da navegação comercial, no Douro interior

Está em crise a navegação fluvial comercial no Douro. Desde o cais de Várzea do Douro até ao porto fluvial de Veja de Turrón, em Espanha, não há nenhum cais em actividade regular. O desinteresse dos investidores e empresários da região, os constrangimentos na Barra do Douro e a não continuação dos trabalhos de escavação […]

Está em crise a navegação fluvial comercial no Douro. Desde o cais de Várzea do Douro até ao porto fluvial de Veja de Turrón, em Espanha, não há nenhum cais em actividade regular. O desinteresse dos investidores e empresários da região, os constrangimentos na Barra do Douro e a não continuação dos trabalhos de escavação do canal do Tua, para embarcações de maior calado, estão a contribuir para este facto. O cais fluvial de Lamego é o exemplo da navegabilidade comercial, no Douro: Desde 2003 que não movimenta qualquer mercadoria e o espaço está “às moscas”, sem qualquer utilização.

A última empresa a usufruir do cais fluvial de Lamego foi a Gralpe (Pedras Salgadas), empresa ligada à extracção e exportação de granitos e que ainda incrementou, durante alguns anos, o tráfego fluvial comercial, entre aquele cais duriense e alguns portos do Norte da Europa.

Em 1999, este cais teve o seu ano de ouro, com uma exportação de 10.240 toneladas de granitos e teve uma afluência de dezanove navios comerciais. A partir de 2003, começou a perder, gradualmente, importância e simbolizou a decadência, no Douro interior, da navegabilidade comercial.

Dos seus quase 220 km de via navegável, apenas cerca de trinta por cento, desde a foz ao Porto de Sardoura e Várzea do Douro, têm sido utilizados, pelas embarcações. Uma das obras de desencravamento e que poderia alterar este estado de coisas era o alargamento e aprofundamento do canal do rio Douro, junto à Barragem da Valeira, no espaço compreendido entre a zona de Foz Tua e esta grande represa. Ao todo, são cerca de oitocentos metros e muitos milhões de quilos de rocha a extrair do fundo do rio. Esta obra, a ser concretizada, representaria a possibilidade de embarcações, até 84 metros de comprimento e onze de “boca”, sulcarem o rio, até ao porto espanhol de Vega de Turrón, situado defronte de Barca de Alva (Figueira de Castelo Rodrigo).

O interesse nesta importante obra também vem do lado de Espanha, neste momento a parte interessada na abertura da navegação fluvial comercial, entre o litoral e Espanha.

Fonte da Delegação do Instituto Portuários dos Transportes Marítimos referiu que o problema não está na escavação do canal da Valeira, mas que é um problema global.

“Se o sector empresarial e comercial não mostra interesse no transporte fluvial no Douro interior, não é atractivo estar-se a investir na abertura do canal de navegação do Tua. Não há estímulos. Ou seja: o problema não está no constrangimento do canal, porque, para isto, sempre houve vontade e instrumentos financeiros para serem recorridos, mas, sim, na resposta dos agentes activos da própria região” Segundo a mesma fonte, “não se entende porque o vinho e outros produtos da região continuam a ser transportados por outros meios que não a via navegável”.

Os cais fluviais de Lamego, Ferradosa, Pocinho e de Barca de Alva são estruturas subaproveitadas, em termos comerciais. O primeiro representou a grande esperança para o desencravamento comercial da região. A exportação de granitos foi a única actividade desenvolvida pela estrutura, porém, os preços praticados, a morosidade do transporte e as novas acessibilidades rodoviárias para o litoral fizeram com que, gradualmente, as opções fossem outras. De acordo com a mesma fonte, “a escavação do canal do Tua está, na mesma, em cima da mesa” e o “processo não está esquecido”.

De referir que a complexidade dos trabalhos a efectuar e os milhões de euros necessários para a sua abertura também refrearam os trabalhos. Contudo, a crise comercial na navegabilidade do Douro Interior poderá ter os dias contados. Na semana passada, realizou-se uma reunião, na cidade do Porto, em que estiveram presentes várias entidades, onde a questão foi debatida. Ao que tudo indica, no primeiro trimestre de 2008, poderá haver grandes novidades, relativamente a esta matéria, e, quiçá, o anúncio de um conjunto de investimentos na viabilização.

O Presidente da Câmara Municipal de Lamego, Francisco Lopes, foi, ao longo de alguns anos, Administrador-Delegado do IPTM do Douro.

“A questão da crise da navegabilidade no Douro Interior representa a falha da região, em todos os aspectos, mormente do seu tecido empresarial. Não há capacidade económica dos agentes, não há carga que sustente os portos, a região em si não tem estrutura industrial que alimente. Por outro lado, também não importa, ou seja, não consome. Se não importa, nem exporta, é evidente que este cenário reflecte-se, de imediato, na actividade dos cais e portos fluviais do Douro”.

O autarca de Lamego contou um exemplo daquilo que acontece, no sector comercial da região: “Temos, na nossa zona industrial, um empresário ligado à indústria de transformação e exportação de granitos, para Inglaterra. E aqui poderia colocar-se a utilização do porto fluvial de Lamego, mas é o próprio comprador que dispõe e escolhe os meios, para o seu transporte. Ou seja, o granito é carregado na zona industrial e levado, pela via rodoviária, até ao Porto de Leixões. Nota-se na região e nestes processos alguma debilidade negocial, em defesa dos interesses da região”.

Em relação ao aprofundamento do canal do Douro, junto à barragem da Valeira, Francisco Lopes foi peremptório: “Primeiro, desobstruir os molhes da barra e, depois, o canal do Tua. O primeiro projecto de escavação já remonta a 1999 e, em termos de custos, em 2002, andava na ordem dos vinte milhões de euros. Hoje, o seu preço deverá estar inflacionado. A zona a escavar sofre já alguns deslizamentos que terão de ser tratados. Porém, questiono: vamos tornar navegável, comercialmente, o canal do Tua, só para os espanhóis colocarem os seus produtos cá? É uma situação que terá de ser avalizada. Ou seja, tem de haver desenvolvimento na região e carga que sustente tal investimento. Mas criar acessibilidades unilaterais, não”.

Francisco Lopes contou, ainda, ao Nosso Jornal, que a Câmara Municipal pretende criar condições, no cais fluvial de Lamego, para a instalação de uma grande adega que possa consubstanciar alguns processos de fusão cooperativista que são ventilados, na região Demarcada do Douro.

 

 

José Manuel Cardoso


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