No Domingo a seguir ao dia de Natal celebra-se a solenidade da Sagrada Família e, em pleno Ano Paulino, ela convida a bater à porta da casa de família e a reler os textos em que se fala do contributo da casa na acção evangelizadora de Paulo.
Como já se referiu, S. Paulo nunca celebrou a festa do Natal de Jesus, não só por essa festa ainda não estar instituída no calendário mas também porque nem sequer se falava da infância de Jesus. O dinamismo dos Apóstolos vinha da Ressurreição de Jesus que Paulo vivia de um modo singular por causa da aparição do próprio Jesus Ressuscitado na estrada de Damasco e que alterou toda a sua vida. Por isso, a casa que aparece na acção e nos escritos paulinos é a casa vinculada ao anúncio da fé pascal e à formação das comunidades cristãs ou «igrejas domésticas» e não a casa do Natal. De qualquer modo, é a casa de família.
2 – Como verdadeiro judeu, Paulo tinha a cultura e a mística da «casa». Como lugar de habitação, a casa era a morada dos israelitas sedentários. No período das colheitas utilizavam as cabanas. Só os nómadas viviam em tendas, como tinham vivido todos os israelitas durante a travessia do deserto. Nos tempos bíblicos já ninguém vivia em cavernas, excepto em tempo de guerra ou catástrofes.
O termo casa estender-se–á ao templo de Jerusalém, anunciado pelo profeta Natã e construído por Salomão como «casa de Deus». O templo funcionará também como factor de união de todos os israelitas.
A palavra casa pode ter ainda o sentido figurado de conjunto de gerações, o clã e a tribo. Nesse sentido se diz «casa de José», «casa de David», «casa de Judá», e de cada uma das outras tribos. A própria comunidade nacional será chamada «casa de Israel».
Esta mística da casa terá um lugar de relevo na acção evangelizadora de Paulo, quer como espaço de reunião, quer como linguagem para falar do mistério da fé e da Igreja. Paulo irá sempre à sinagoga local anunciar aos judeus e prosélitos a chegada do Messias, mas será nas casas de família que fará a evangelização e as celebrações. Numa época em que ainda não existiam igrejas como lugares de reunião e de culto, é nas casas de família que se formam as comunidades cristãs, chamadas por isso «igrejas domésticas», «igrejas de casa», «casas-igreja».
A «família» tinha então uma amplidão maior que a de hoje, aproximava-se da família patriarcal com os pais, filhos, parentes e servos, pelo que a «igreja doméstica» era mais que «família piedosa ou piedade familiar»». Por sua vez, a palavra «Igreja» vinha do Antigo Testamento com o significado de «assembleia convocada», nascida da iniciativa de Deus, ideia que se mantém tendo Cristo como cabeça.
A Casa, a Família e a Igreja interpenetram-se. A casa é o lugar de habitação (1Cor11,22); é a comunidade cristã que se reúne em casa de uma família (a de Áquila e Priscila-1Cor 16,19, a de Filémon-l,2, a de Cornélio-Act10,22,11,11, a do Bispo-Tim3,4, a de Estéfanas-1Cor 16,15, a de Ninfas-Cl4,14, a do carcereiro convertido-Act 16,30-34); é o corpo humano, designado por «templo do Espírito Santo»; e é o céu ou «casa do Pai» e de todos os ressuscitados.
3 – Este vínculo histórico e espiritual entre «casa», «família» e «Igreja» revela-se ainda hoje em muitas palavras: pai/padre, mãe/madre igreja; mesa da refeição familiar/ mesa da Palavra e mesa de altar; e o hábito de chamar ao prédio familiar «casa da família x» é idêntico ao de chamar ao prédio da paróquia «a casa da igreja», sendo «família» e «Igreja» as pessoas que se reúnem nos dois prédios.
A própria semântica pode ajudar a sentir a relação família-casa: ao acto da união do homem e mulher por legítimo matrimónio chamamos «casamento», e à mera coabitação de homem e mulher chama-se hoje «união de facto» e chamava-se antigamente «mancebia; à comunidade do homem e mulher legitimamente constituída chamamos «casal» e juridicamente dizemos que estão «casados» e a cada uma das pessoas damos o nome de «marido e esposa»; às que vivem em união de facto chamam agora «companheiros» e chamavam os antigos «amancebados», coisa de «jovens». Casa, casal, casados, casamento, têm a mesma raiz.
A reciprocidade da família e Igreja mantém-se, podendo dizer-se que não há Igreja sem famílias cristãs, e as famílias cristãs prolongam o mistério da Igreja, a família maior. O baptismo das crianças celebra-se na Igreja a pedido dos pais e a Igreja confia aos pais o encargo de fazer a educação dos filhos na fé da Igreja. Os filhos de famílias cristãs entendem mais depressa o que é a Igreja, e a vida da Igreja faz sentir aos jovens a os fundamentos e a beleza da família. Os jovens ajudarão a paróquia e a paróquia ajuda os noivos a constituir dignamente a sua família proporcionando-lhes meios de formação específica e afastando-os de casamentos precipitados, sem liberdade pessoal, com parentes demasiado próximos ou pessoas já comprometidas. Depois de casados, a Igreja ampara os casais com movimentos pastorais, e as famílias cristãs cuidam de despertar nos filhos a vocação ao sacerdócio e à vida religiosa.
4 – Feito este percurso histórico, bíblico e cultural, a dinâmica do Ano Paulino convida à revisão pessoal e comunitária.
Há boa relação das famílias com a paróquia? O interior das nossas casas revela que são casas cristãs? Há nelas uma Bíblia, um Crucifixo ou outro sinal religioso? Reza-se lá dentro? Os casais e os filhos participam em alguma actividade nas paróquias? Compreende-se o alcance da visita pascal às famílias, da visita aos doentes em casa? Como é que os jovens preparam e celebram o seu casamento?
Entendemos a razão por que a Igreja viveu sempre as questões da família como questões suas, seja na vida das paróquias seja na comunidade política? Do lado oposto, compreende-se por que razão a perseguição aberta ou disfarçada à Igreja se faz sempre pela agressão ao casamento e à família?
Também a política da construção e comércio das casas de família não é indiferente à pastoral da Igreja, como se se tratasse de simples questão comercial. Casas demasiado reduzidas, sem espaço envolvente, sem luz natural nem condições de habitabilidade, impõem a restrição da natalidade, são um obstáculo ao diálogo e um convite ao abandono da casa em favor da rua, do café, do clube, do restaurante. A família constrói a casa e a casa faz a família. «Vê-se de fora quem na casa mora».
E o arrendamento das casas? Os ardis colocados por senhorios e por inquilinos podem revestir injustiças sociais e ser um grave obstáculo a futuros arrendamentos. Como se vive esta realidade entre nós? Sentimos que os idosos fazem parte da família, e que o recurso aos «lares de idosos» pode ser uma necessidade mas não é um ideal?



