1 – No mês de Novembro, com mais ou menos esforço e afecto, em toda a parte se reza pelas Almas, uma das devoções características do catolicismo português, ao lado do culto mariano e do culto eucarístico. Em muitas terras existem os nichos das «Alminhas» a lembrar aos actuais transeuntes aqueles que já partiram para a eternidade e, embora privados dos mealheiros das esmolas por gente carecida ou desorientada, continuam a merecer o respeito do povo que neles coloca ramos de flores num gesto de amor pelas «Almas do Purgatório».
Neste Ano Paulino, vem a propósito ir às raízes e meditar os textos bíblicos sobre os defuntos. São textos densos e embrionários da fé que mais tarde desabrocharia em longas reflexões teológicas. A palavra Purgatório não aparece na Bíblia, como não aparecem as palavras Trindade, Conceição, Assunção, Missa e outras. O importante é o conteúdo fundamental das palavras e esse encontra-se na Bíblia e na vida da primitiva comunidade cristã.
2 – Tanto no Antigo como no Novo Testamento é constante o sentimento de que a visão de Deus requer uma pureza absoluta (Apoc 21,27). Essa convicção originou entre os hebreus um longo cerimonial de purificação e obriga a uma reflexão inevitável sobre a purificação de muitos defuntos, seja qual for a fórmula encontrada para ela.
Acerca da vida depois da morte, nota-se nos textos mais antigos do Velho Testamento um grande respeito pelos mortos acompanhado do sentimento de confusão sobre a vida no Além. Sobretudo nos salmos, fala-se do «shéol», um lugar de tristeza e escuridão, uma espécie de estado de letargia das pessoas, sem memória nem permuta de ajuda, onde nem Deus é louvado. Alguns textos, porém, dão a entender que no «shéol» nem tudo é igual, e falam da felicidade no «seio de Abraão». No tempo dos Macabeus, séc II antes de Jesus, é já clara a consciência da validade da oração pelos mortos e da ressurreição dos justos (2Mc 12,40). Nas cartas de Paulo, refere-se a oração pelos mortos: em Corinto fala-se de um rito confuso em favor dos mortos que Paulo não esclarece mas que toma como prova da esperança na ressurreição (1Cor 15,29); e noutro lugar o próprio Paulo reza e pede por Onesíforo, um cristão dedicado e generoso (2Tim1,16-18). São testemunhos breves mas indicadores de uma prática assumida.
3 – Essa fé e oração manifestar-se-ão em inscrições e pinturas gravadas nas catacumbas e cemitérios dos primeiros séculos e nos textos dos escritores eclesiásticos: Tertuliano fala da oração do marido ou da esposa no aniversário da morte do cônjuge, e S. Efrém recomenda a oração pelos mortos no trigésimo dia do seu falecimento.
Ao longo da Idade Média, cresceram a oração pelos defuntos e a reflexão teológica. Num livro recente, «O Nascimento do Purgatório», o seu autor, Jacques Le Goff, diz que o Purgatório «nasceu» na Europa nos séculos XII-XIII. A princípio fica-se surpreendido com tal afirmação, e o autor confessa não ser um teólogo nem historiador da teologia mas um estudioso das mentalidades, e refere-se ao uso da palavra «purgatório» como substantivo (e não mero adjectivo de «fogo purificador», ignis purgatorius, usado até aí), como um «lugar» com «fogo material» e «duração de anos de castigo», «cheio de elementos imaginários populares e quase folclóricos (painéis e pinturas com fogo e chamas, dias e anos de expiação, anjos e imagens da Senhora do Carmo e S. Miguel Arcanjo com balança) dos quais a Igreja, povo e hierarquia, se servira para difundir a devoção pelas almas».
Seja como for, é verdade que, em volta do núcleo fundamental da oração pelos defuntos, se amontoaram «curiosidades e exageros» sobre o Purgatório que ainda povoam o imaginário de muita gente.
O Concílio Vaticano II retoma a linguagem simples da fé e do mistério da morte e da eternidade, e fala da comunhão dos «que peregrinam na terra, dos que, terminada esta vida, são purificados, enquanto que ouros são glorificados» (LG 49), e, logo a seguir, afirma que «a Igreja terrestre, desde os primórdios da religião cristã, venerou com grande piedade a memória dos fiéis defuntos, e, porque «é um santo e salutar pensamento rezar pelos defuntos para que sejam perdoados de seus pecados» (2Mc 12), ofereceu sufrágios em favor deles» (LG 50).
4 – Mesmo sabendo que o Concílio não quis expor toda a doutrina, o texto citado merece atenção pela sua força educativa, longe da vã curiosidade e fantasia. Não fala de «lugar» e prefere o termo «purificação» ao de «expiação». Também não usa a palavra «mortos» nem «finados», termos frios, próximos de «arrumados», mas prefere a linguagem mais quente do Missal que fala de «defuntos» para designar aqueles que partiram depois de cumpriram uma «função» ou missão confiada por Deus.
A nossa dificuldade ao falar da eternidade está em aproveitar palavras que designam coisas pertencentes ao «espaço e tempo», com um «antes» e «depois, e aplicá-las a realidades que estão fora desses quadros. Temos de continuar a usar tais palavras («purgatório», inclusive), mas temos de intuir que tudo se passa no encontro com Deus, fora do tempo. «Para se dizer que a eternidade é diferente do tempo, diz-se que a eternidade não tem fim. Mas, por mais longo que seja, o tempo tem sempre um termo. A eternidade não é semelhante ao tempo, e a verdadeira definição de eternidade não é a duração, mas a presença. A eternidade é um presente perene, um presente de alegria crescente, de alegria sempre presente. A vida eterna é a nossa vida transformada em Deus presente em nós e de nós em Deus» (J.Guitton – O meu pequeno catecismo. Diálogo com um menino).
Para vislumbrar o mistério desse encontro com Deus, convém ler os textos sobre os encontros com Deus referidos na Bíblia: a mãe de Sansão (Jz 13,22), Isaías (6,5), Ezequiel (1,28), o anúncio a Zacarias e a Maria (Lc1,12.29), Pedro na pesca milagrosa e no Tabor (Lc1,12.29;5,9; 9,34), as mulheres no dia de Páscoa (Lc 24,5) e a vida dos Apóstolos (Act 2,43; 3,10;5,5). São momentos geradores de alegria e da consciência da indignidade pessoal. Nesse momento, actualizam-se em nós todas as capacidades não desenvolvidas: é a experiência do purgatório, mistura de felicidade e dor, que não deve ser olhado como um castigo mas como uma graça de Deus. «É a participação na Paixão de Jesus e última purificação antes de entrar na glória de Deus» (cardeal Martini).
Não se pergunte, portanto, onde está o Purgatório nem quanto dura, pois do outro lado da morte desapareceram as categorias do mundo. A nossa oração pelos defuntos, feita agora, mantém-se válida e necessária, sem problemas do «antes» e «depois» do encontro, uma vez que para Deus «um dia é como mil anos» (2Ped 3,8).
5 – A importância da morte não está, portanto, no que se deixa, mas no que se encontra: é a plenitude da vida, a abertura dos olhos à luz eterna. O leitor imagine-se nesse encontro com Jesus Ressuscitado, e exercite-se desde já no desenvolvimento do diálogo e relação pessoal com Ele, afastando ideias e gestos de superstição, de espiritismo ou de sonolência. Acabou o sono e a distracção. Só há vida, olhos nos olhos.
Depois da leitura dos textos referidos acima, reze com Paulo VI: «Ó Senhor, faz que a minha fé seja humilde, não se fundamente em fantasias, mas se renda ao testemunho do Espírito Santo e não busque garantia melhor do que a docilidade à Tradição e à autoridade do Magistério da Santa Igreja. Amén» (Audiência de 30.10.68)
* Bispo de Vila Real



