VTM – Na sua mensagem de Natal referiu que a sociedade “trocou o Menino Jesus pelo Pai Natal e pelo consumo desenfreado”. Acha que há forma de mudar estes comportamentos?
D. Amândio Tomás – Não deveremos desistir de mudar, não podemos capitular, porque esta avalanche de banalidades irrompeu na sociedade e é difícil mudar. A tradição do Pai Natal é fundamentalmente cristã, baseada na festa de S. Nicolau de Lira, que foi bispo da Turquia, que tem muita devoção no Norte da Europa e também em Itália e no mundo ortodoxo. Ele dedicou-se aos pobres, aos jovens, foi um homem de Deus e daí vem a tradição dos dons, mas hoje é tudo um comércio, infelizmente.
O que aconteceu à nossa sociedade?
Falta-lhe Deus e valores fundamentais alicerçantes, por isso esta sociedade vive da banalidade, do comércio e da ostentação, ou seja, vive num corpo sem alma.
O que cada um de nós pode fazer para que os valores da amizade e da família voltem a ser aqueles que verdadeiramente interessam?
A família é a pedra base da sociedade. Mas, hoje, a família vive obcecada com o trabalho. Os pais e os filhos não se encontram e não convivem. Os filhos acabam por ser entregues (tal como os velhos), para um armazém (creche) e mal veem os pais à noite. Com a falta diálogo, de relacionamento, como se pode impregnar valores?
E se eles já não os têm, como é que os podem dar? É muito difícil, mas não podemos desistir.
Hoje, os jovens são bombardeados de mensagens de todas as partes, por isso vivemos um período em que é necessário discernimento, olhar bem para aquilo que temos por diante para sabermos distinguir e discernir.
A falta de vocações é uma realidade transversal a todo o país. Em 2019, a nossa diocese poderá contar com a ordenação de algum sacerdote?
Não temos nenhuma ordenação para sacerdócio, vamos ver se temos uma para o diaconato.
Na sua mensagem de Natal, refere que é necessário formar e apostar nos leigos. Acha que esse é um caminho para colmatar a falta de padres?
É um caminho e não só para colmatar. Porque se nós pensarmos só no aspeto utilitário, nós estamos a enfermar de uma falsa visão da igreja, que não é um mostro, não é um tronco, é um corpo com um conjunto de órgãos. A igreja não é o Papa, o bispo ou o padre, a igreja é a comunhão dos batizados que acreditam em Cristo e são alicerçados no Mistério Pascal. Não é pelo facto de haver poucos padres que precisamos de leigos empenhados, nós precisamos de leigos empenhados sempre. Eles podem e devem fazer múltiplas coisas na igreja, o padre não precisa de tocar o sino, acender as velas, fazer tudo e mais alguma coisa, como se fosse omnipotente e omnipresente. Temos comunidades, no passado e até no presente, onde não existem padres e têm cristãos.
E qual será o papel reservado aos diáconos? Eles podem vir a ter cada vez mais preponderância na Igreja Católica?
Sem dúvida e ainda bem que no Concílio do Vaticano II voltou a trazer o diaconado permanente. Tenho dito aos padres que é preciso ordenar mais diáconos permanentes, precisamos de apostar neles para celebrações, em que não é preciso estar lá o padre. Em muitas regiões do mundo, o padre vai lá duas ou três vezes por ano. E se não houver diáconos, podem ser homens e mulheres a presidir a celebração da palavra.
Acha que a igreja tem lugar para todos, incluindo aqueles que se divorciam?
Eles não estão excomungados. Nós enfermamos de um farisaísmo, em que nós é que somos, eles não são. Isso não é cristão, na igreja há lugar para todos, Deus não exclui ninguém. Nós é que nos autoexcluímos com os nossos comportamentos. Há lugar para eles e são bem-vindos, pois a igreja está de braços abertos para os receber.
A desertificação e o abandono do interior são questões que o preocupam e que faz questão de vincar nas suas mensagens. Acha que são ouvidas por quem tem o poder de inverter esta tendência demográfica dramática a que assistimos?
Sinceramente, acho que não, porque eles (governantes) vivem no imediato e o que querem é que alguém os eleja. Por mais que se diga, não fazem nada para reverter esta situação, que é difícil. Nós constatamos uma hemorragia crescente da população em idade fértil para o litoral, isto é um retângulo empinado, o peso é tão grande que qualquer dia dá uma cambalhota para o mar. É um Portugal assimétrico, em que o interior é cada vez mais uma coutada de coelhos, uma terra de caça. Os turistas vêm de tão longe de barco, dizem que tudo é muito lindo, temos belezas naturais extraordinárias, mas falta gente. Eu conheço aldeias que têm um casal septuagenário e outras a desaparecer completamente.
O que acha que poderia ser feito?
Acha justo que num país tão pequenino como Portugal tudo se concentre em Lisboa? Há países grandes na Europa que nos dão o exemplo. Pensa que a Alemanha tem tudo concentrado em Berlim? O tribunal Constitucional está em Berlim ou em Karlsruhe? É preciso concentrar tudo em Lisboa? Assim é impossível estancar a emigração. É muito triste.
Depois da empresa Águas do Norte se ter instalado no Seminário, há também um projeto para ali se instalar um hotel. O que nos pode adiantar sobre este último projeto?
É um projeto que está em banho-maria. Quem tem de decidir é o bispo e para já digo que não. Mas, um bispo não pode nem deve fazer o que quiser, tem um conselho de consultores e de presbíteros, por isso não pode agir de qualquer maneira, nem à pressa. Reuni conselhos, consultei advogados, técnicos e decidi parar o processo. Além disso, a minha situação é parecida a um governo de gestão, que não pode decidir de forma precipitada e deixar um presente envenenado para o seu sucessor. Seria como dar uma bofetada ao meu sucessor, que ainda não sei quem é, mas que deverá chegar até abril. É uma questão que tem de ser estudada e não será do pé para a mão.
Mas seria um investimento importante para o Seminário?
Sim. Sei que no futuro tem de se optar por uma ideia dessas. Naquele contrato nem sequer conhecia a fundo o projeto, por isso não poderia decidir de olhos fechados. Sei apenas que o Seminário ficaria confinado a um espaço ao pé da cozinha.
É evidente que temos de fazer alguma coisa, como se fez com a empresa Água do Norte, que ficou com uma mínima parte, mas foi bom.
Se temos imóveis disponíveis para venda, arrendamento ou comodato, se o conselho estiver de acordo, avançamos para a concretização do contrato, mas não pode ser precipitadamente, é um projeto que tem de ter cabeça, tronco e membros. No entanto, consultei advogados que me informaram de algumas cláusulas da minuta. No projeto do hotel, o investidor iria servir-se de quase todo o espaço, exceto a parte de cima, onde está a cozinha e o recreio. Havia perigos, por isso é preciso analisar com cuidado.
Em abril completou 75 anos e apresentou a sua resignação ao Papa, como está consagrado no Direto Canónico. Mesmo assim, gostaria de continuar…
Farei o que os meus superiores mandarem. “Somos criados inúteis, servos inúteis que não fazem se não a sua obrigação”, disse Jesus. Foi o que eu disse.
Mandaram-me de Roma para o Alentejo, um lugar onde nunca tinha colocado os pés, caí lá de paraquedas e lá fiquei seis anos. De lá mandaram-me para aqui e para aqui vim. Quando decidirem que outro deve comandar o barco, fico contente.
Desde 2011, como classifica este caminho que tem percorrido à frente da Diocese?
Não há missões sem sofrimento, mas também houve momentos de alegria, em prol de bom um povo, simples e humilde. Sinto-me bem entre a gente do povo, gente humilde que me acolhe, me recebe, em plena transparência. Sinto-me melhor nesses meios do que nos meios palacianos.
Sempre se considerou “um pecador”. Porquê?
Somos todos. Começamos a eucarística, com o confesso a minha culpa, minha tão grande culpa, durante três vezes. Quem diz que não tem pecados, mente, disse S. João.
No futuro, o que se vê a fazer?
Ainda não sei para onde irei, permanece um enigma.
Isso preocupa-o de alguma forma?
Sim, um pouco. Seja como for, eu continuarei a dar o meu contributo, com pregações, se me pedirem. Se estiver aqui, eu beijo a mão ao próximo bispo. Ele será o meu bispo e eu obsesso.
Quantos padres tem a diocese de Vila Real e qual a sua média de idades?
Tem 110, com uma média etária nos 73 anos, o que é mau. Era preciso renovar. Temos oito alunos no seminário menor, aqui em Vila Real, e no seminário maior no Porto temos 11, o que quer dizer que temos mais lá do que cá. Isso significa que para o seminário vão cada vez mais jovens no fim do curso liceal ou então mesmo universitários. É o retrato do que se passa um pouco por todo o país.
Uma mensagem de Natal…
Queridos diocesanos, aproximando-se o Natal do Senhor, a festa do seu nascimento, desejaria formular votos de felicidades, de alegria e paz para todas as famílias. A todos os diocesanos, sacerdotes, religiosos e religiosas, diáconos, leigos, irmãos e irmãs em Cristo, o Natal é a festa da vinda do Filho de Deus, o Natal é presença do Senhor entre nós, nesta igreja que somos, uma comunhão de irmãos e amigos, alicerçados no Mistério de Cristo, bafejados pelo Espírito Santo que em nós habita. Desejo a todos muita alegria, muita paz e a bênção de Deus para o próximo ano, que está à porta, que o senhor a todos abençoe.




