É esta surpresa que gostaria de comentar. Há oito dias lembrei que a festa do Natal foi colocada em Dezembro, no séc. III, para evangelizar a festa do sol ou heliolatria que vigorava no império romano. Mas o importante é o Natal em si mesmo, um acontecimento inédito na história das religiões que trouxe uma mudança radical no modo de entender Deus e de viver a relação religiosa.
2 – De um modo geral, as religiões podem designar-se como «religiões da distância» e «religiões de proximidade».
As religiões da distância acentuam o abismo intransponível entre Deus e o homem como realidades totalmente diferentes e longínquas. A relação religiosa será aí uma ponte longamente tentada pelo esforço do homem, mas ponte frágil e nunca plenamente conseguida. Entre as religiões da distância há duas que afirmam haver recebido uma comunicação trazida por um mensageiro divino: o judaísmo e o islamismo: o primeiro afirma possuir uma revelação feita por Deus a Moisés no monte Sinai e prolongada pelos profetas até à vinda do Messias; o Islamismo reivindica uma revelação feita a Maomé na Arábia, no séc. VII depois de Cristo. Separam os dois acontecimentos uma distância de quase dois milénios. De resto, Maomé confessa-se devedor da revelação feita a Abraão, anterior a Moisés.
Em ambos os casos existe um livro: no primeiro caso, a Bíblia (melhor, parte dela); no caso de Maomé, o Corão, ainda que com grandes diferenças no modo de conceber o texto religioso: a Bíblia é assumida como um livro escrito por vários homens ao longo de séculos que utilizaram factos históricos, símbolos e outros recursos humanos para veicular a mensagem recebida; o Corão é assumido como escrito de uma só vez e pelo próprio Deus, intangível e invariável.
Nas duas religiões, porém, Deus mantém-se distante, quase sem rosto.
3 – O cristianismo quebra essa distância, podendo chamar-se a “religião da máxima proximidade”: Deus não se limitou a enviar mensageiros e mensagens, mas veio Ele próprio, “fez-se homem verdadeiro”, “Deus connosco”, o “Emmanuel”.
Este facto é de tal modo surpreendente e estranho que, desde o início, se tentou tomar o Cristianismo como uma bela lenda, à maneira dos deuses da mitologia que se faziam nascer de deusas ou princesas e se passeavam entre os mortais sem lhes tocarem, etéreos. O aparecimento de Jesus Cristo tem geografia definida no mapa, coordenadas históricas balizadas pelos homens importantes do império romano: viveu num país real, falou e agiu perante homens reais; e as suas palavras e actos, sem pretenderem ser um registo magnético, foram transmitidos oralmente e conservados por testemunhas reais. O tempo de Jesus é um tempo real, térreo, agarrado ao chão, com frio e calendário, não é um tempo mítico, fora do espaço e da história reais.
Com certo humor, dizia um judeu nosso contemporâneo que o que o incomodava no credo católico era a inclusão de Pilatos. As afirmações de fé ainda ele as podia atribuir ao entusiasmo e fantasia dos cristãos, o pior era aquela referência a Pilatos, um homem indiscutivelmente histórico, perante o qual Cristo compareceu, não sendo possível incluir o caso de Cristo no número dos mitos nem das fantasias.
4 De vez em quando, renascem as tentativas de voltar às religiões da distância propondo o «Deus da consciência subjectiva», o «Deus da tolerância», o «Arquitecto do universo», desprezando a Encarnação ou esfarrapando os textos do Novo Testamento. É uma nova versão do deísmo e da antiga gnose, e isso anda por aí disfarçado em livros e ditos. Por isso, nos seus livros sobre Jesus Cristo o Papa insiste no carácter histórico do acontecimento cristão. Sem Cristo, Deus é desconhecido, é quase inútil, dizia sagazmente Pascal, é um Deus tão vago que cada um faz dele o que lhe convém.
O Natal também é para recordar isto, e passa por aqui a nova evangelização. O cristianismo não é um dilúvio de belos sentimentos, inclui uma componente histórica e do «logos» que aproxima e obriga a caminhar pelo concreto – pelos caminhos dos homens e pelo mistério da Igreja – mesmo que ela seja por vezes friorenta e pobre como o presépio. Desde o Natal de Jesus, o fio religioso vertical que nos liga a Deus tem de ser sempre acompanhado do outro fio que nos liga à terra, em contacto com o mundo. Nenhum deles tem música sem o outro. «Ora assim entendo»: foi desse modo que terminou há dias um diálogo entre doentes que aguardavam numa sala hospitalar a sua vez de serem atendidos numa consulta de rotina.
Aproveito para desejar a todos os leitores um Santo e Real Natal e um Bom Ano Novo.





