Comunidade unida para que o Natal seja, de facto, para todos
A Câmara Municipal de Vila Real, através do programa Câmara Amiga, e a Cáritas Diocesana reforçaram, neste Natal, os cabazes alimentares a centenas de famílias carenciadas do concelho, depois de reunir, nos últimos dois meses e graças à boa vontade dos vila-realenses, cerca de oito toneladas de mantimentos.
Massa, arroz, leite, enlatados, azeite, bolachas… Estes e muitos outros bens alimentares fazem parte dos cabazes que têm sido entregues ao longo dos últimos dias por várias organizações e associações do concelho e que vão permitir a muitas famílias uma verdadeira ceia na noite de consoada. A autarquia é uma dessas instituições, como explicou Eugénia Almeida, vereadora responsável pelo pelouro da ação social: “Em novembro fizemos uma campanha de recolha de alimentos em vários supermercados e conseguimos quatro toneladas de bens. Pode parecer muito mas a procura também é muita”.
Explicando que ao longo dos últimos dias foram apoiadas cerca de 100 famílias, a vereadora salientou que o trabalho da ação social, apesar de reforçado nesta altura devido ao seu simbolismo, é desenvolvido durante todo ano, sendo apoiadas, de várias formas, cerca de 500 agregados do concelho.
Eugénia Almeida acredita que as quatro toneladas de alimentos recolhidos deverão ser completamente distribuídos em dois meses, o que demonstra bem as necessidades locais e comprova o quão bem-vindas são as doações, seja de cidadãos anónimos que mensalmente fazem a sua entrega na Loja Social, seja da importante contribuição das campanhas de recolha. “Também é essencial a ajuda dos voluntários, quer seja da bolsa de voluntariado da Câmara, dos estudantes da Universidade, dos escuteiros e das mais variadas organizações”, enalteceu a vereadora, referindo também o projeto desenvolvido pelos professores e alunos da Escola da Árvores, que doaram dezenas de brinquedos para garantir a “magia” no Natal de dezenas de crianças.
“Para quem puder ajudar, a grande prioridade são sem dúvida os alimentos”, revelou ainda a vereadora, sublinhando, no entanto, que na Loja Social os técnicos recebem também outro tipo de dádivas essenciais, como produtos de higiene (champô, sabonetes, pastas dos dentes), produtos para crianças (brinquedos, livros, papas, leite em pó, fraldas), roupas, calçados, equipamentos domésticos (electrodomésticos, panelas, pratos, talheres) e até mobílias (que podem ser recolhidas por funcionários da autarquia).
Para garantir a operacionalidade do seu banco alimentar, a autarquia vai agendar novas campanhas de recolha ao longo do ano e desenvolver parceria com diferentes entidades, entre as quais está o Clube Rotário de Vila Real, com o qual será realizado um projeto específico para fornecer o banco.
Outra instituição que por estes dias vive a “azáfama” da solidariedade é a Cáritas Diocesana de Vila Real. “Durante o ano entregamos uma média mensal de 50 cabazes, este mês deveremos chegar aos 250”, explicou Hélder Afonso, um dos responsáveis da organização.
À semelhança do que aconteceu com o programa “Câmara Amiga”, também a Cáritas contou com o altruísmo dos vila-realenses que, através de várias ações de recolha realizadas em parceria com a comunidade escolar do Colégio Moderno de São José, contribuíram com quatro toneladas de alimentos.
“Claro que os números não são os que gostaríamos, porque temos muito mais pedidos”, lamentou o mesmo responsável, revelando que em 2015 a instituição garantiu apoios diversos a 3500 famílias.
Sempre com o objetivo último de “dar a quem mais precisa”, as duas instituições deixam a garantia de que todas as dádivas são entregues com justiça e transparência. “A pessoa procura a Cáritas e nós fazemos um acompanhamento familiar, social e económico, para que possamos ajudar pessoas realmente carenciadas”, sublinhou Hélder Afonso.
Eugénia Almeida assegurou que a divisão de saúde e ação social da Câmara Municipal tem o cuidado de garantir que os apoios são bem entregues. “O trabalho é rigoroso. Temos assistentes sociais, psicólogos e outros técnicos que recolhem informação, fazem visitas domiciliárias, produzem relatórios e fazem cruzamento de dados. Cada utente tem um dossier pormenorizado, mas tudo é feito com muito sigilo”, frisou.
Estas duas instituições, entre outras do concelho que fazem também um trabalho meritório e rigoroso, têm a porta aberta para receber a benevolência de quem puder e quiser ajudar. Assim, fica o apelo a todos os vila-realenses para que ajudem a fazer com que o espírito do Natal ultrapasse dezembro e se “respire” o todo o ano.
Jovens polacos adoçam consoada de família transmontana
Para a família de Aida Osório, a noite de Natal já ganhou um novo significado que, por ser tão especial, se repetirá em muitas outras ocasiões. A oportunidade de receber em casa um estudante de Erasmus durante a consoada surgiu este ano, promovida pela Erasmus Student Network (ESN) da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), e Aida candidatou-se quase de imediato. A resposta não poderia ter sido melhor e, em vez de um visitante, a família ficou com dois.
“Achamos a ideia muito interessante porque gostamos de mostrar as nossas tradições e conhecer outras culturas. O meu marido também sempre me incentivou a participar nestes programas. Além disso, a ideia de proporcionar um Natal acolhedor a jovens que não o podem passar com as suas famílias de origem é muito bonita”, referiu Aida Osório, acompanhada pela filha Filipa Osório.
A época natalícia em casa desta família é essencialmente tradicional. Na mesa não pode faltar o bacalhau e as batatas cozidas com troncha, o polvo e, claro, “todas as sobremesas a que temos direito”. Fazem-se trocas de presentes, disputa-se a vitória nos jogos de tabuleiro, canta-se, dança-se e recordam-se os bons momentos. Depois da meia-noite, abrem-se as prendas do Pai Natal, junto da árvore e do presépio. “Habitualmente somos oito à mesa. Este ano somos mais pois convidamos uns primos do Porto e temos os nossos polacos. Espero que tragam tradições novas e gostem do que fazemos”, disseram mãe e filha, já a pensar em incluir a Polónia no próximo destino de férias.
Durante a conversa, ambas se mostraram incrivelmente ansiosas pela chegada da noite de Natal e igualmente impacientes por estarem perto de conhecer as caras que vão receber. “Eles falam inglês, não falam?”, “Como será que são as tradições da Polónia?”, perguntavam as duas em uníssono. Passados uns minutos, o casal apareceu, sorridente e bem-disposto. Findas as apresentações, Aida não perdeu tempo em pôr em prática os conhecimentos adquiridos nas lições de inglês. Curiosos em trocar informações, Marzena Druzik e Grzegorz Zastepa contaram que é a primeira vez que visitam Portugal e que “as pessoas são muito simpáticas e bondosas”.
Segundo os estudantes, o jantar da consoada destaca-se por contar com 12 pratos diferentes, exceto de carne, que não comem nessa noite. É costume ainda deixar um lugar a mais na mesa para um convidado inesperado que não tem onde ficar. Outra das tradições são as hóstias, que têm uma utilidade interessante. Cada pessoa oferece a sua hóstia a outra, que parte um pedacinho ao mesmo tempo que formula um desejo. Cantam-se muitas canções religiosas, comem, bebem, conversam e dançam. “Portugal é muito bonito e queremos conhecer esta nova cultura. Vai ser divertido”, disse o casal.
Deliciadas com a cultura natalícia polaca, Aida e Filipa Osório estão determinadas em “acolher os jovens da melhor maneira possível para que fiquem com boa imagem dos portugueses”. “Tanto acolheria alunos em Erasmus como outra pessoa qualquer, de forma a poder proporcionar a quem precisa uma ceia em família. Isso é o mais importante e, se fosse o caso, também gostava que o fizessem pelos meus filhos”, disse Aida.
Esta iniciativa, realizada unicamente em 2006, regressou este ano e tem como objetivo presentar os estudantes de Erasmus que ficam em Vila Real com um Natal “à portuguesa”. “Tornamos o evento público para que qualquer família se pudesse inscrever e pelo menos sete alunos vão ter esta experiência. Nada melhor que um ambiente íntimo para os integrar na sociedade da cidade que os acolheu”, explicou César Guedes, presidente do ESN, revelando que a ideia é para se repetir e será alargada, pela primeira vez, à Páscoa. “Tudo o que seja tradições deve ser para partilhar”, frisou.
Ainda a tempo fazer mais um pedido ao Pai Natal, Aida e Filipa desejam que, “no próximo ano, mais famílias possam viver melhor e que não haja tanto desemprego, que é um fator muito preocupante”. “Esperamos melhores condições de vida e que amanhã ninguém fique sozinho”, foram os votos das duas, que ainda estão a pensar no “presente tipicamente português” que vão colocar nos sapatinhos dos jovens polacos.
A tradição à mesa na ceia de Natal de uma família transmontana
Na aldeia de Paredes, a poucos quilómetros de Vila Real, em casa dos Coutinho, a mesa farta, com o bacalhau, as couves, as batatas cozidas, para além do polvo, são os pratos principais que nunca faltam, bem regados com azeite transmontano e o bom vinho vila-realense. Os doces tradicionais também não poderiam faltar, com as rabanadas, os bolos de bacalhau, os sonhos, a aletria, o arroz-doce, os bolos de abóbora, entre outras iguarias que deixam água na boca e dão cabo de qualquer dieta neste altura do ano. No entanto, é tempo de abusar “um bocadinho” nesta quadra festiva, em que se celebra o nascimento do Menino Jesus.
O dia que antecede o Natal começa bem cedo para as duas irmãs mais novas, Alexandrina e Carla, dos cinco filhos de Armindo Coutinho e Alcina Fernandes, que organizam a ceia e preparam a ementa da “noite mais feliz do ano”. As compras são feitas antecipadamente para que lhes reste mais tempo para pensar na confeção dos pratos e das sobremesas, que fazem sobretudo a delícia dos mais novos.
Alexandrina é a filha mais nova deste casal e é ela que organiza sempre esta ceia especial. “Já estou habituada, gosto de cozinhar, apesar de dar bastante trabalho. Mas quem faz isto por gosto, não cansa. O mais importante é estarmos todos reunidos em família”.
O dia é longo e à noite “é um prazer” ver toda a família reunida à mesa, onde a tradição ainda é o que era. “Começamos a preparar a ceia bem cedo. Primeiro preparamos os bolos de bacalhau, que são os que dão mais trabalho. Segue-se a confeção das rabanadas e os bolos de abóbora. Mais ao final da tarde começamos a preparar os pratos principais para o jantar”, diz a filha mais nova, adiantando que as couves e as batatas são de produção própria. “Vêm diretamente do nosso quintal”.
A troca de prendas é também um hábito que se mantém no seio deste agregado familiar. No final do jantar, a ansiedade começa a tomar conta dos mais pequenos, no entanto já ninguém acredita no Pai Natal, uma vez que o neto mais novo já tem dez anos e sabe que quem lhe oferece os presentes, nesta noite em que a magia invade as casas de todo o mundo. “A troca de prendas é feita no final do jantar, porque à meia-noite temos de estar na igreja para assistir à missa do Galo”, dizem as duas irmãs, Alexandrina e Carla. Apesar do dia ter sido longo, sentimo-nos com “vontade de participar na eucaristia”.
Esta tradicional ceia de Natal continua a juntar à volta da mesa todos os elementos desta família, numa tradição que já leva vários anos, como nos confirmou as duas irmãs mentoras da iniciativa. “Gostamos de celebrar todos os momentos juntos e o Natal, sendo a festa mais importante do ano, não poderia ser exceção”.
Armindo Coutinho, 77 anos, recorda as tradições mais antigas
“As tradições mudaram um pouco ao longo dos tempos, até porque hoje há tudo, antigamente não havia nada. Mesmo assim havia sempre bacalhau cozinho, com batatas e couves, como prato principal. Para sobremesa havia o arroz-doce, aletria, bolos de bacalhau, rabanadas e figos secos. Quando era miúdo ia ao monte à procura de pinhas para tirar os pinhões. Quando chegava a casa colocava-as na lareira, elas abriam e nós tirávamos os pinhões para depois jogarmos uns com os outros. Quem adivinha-se os pinhões que levávamos na mão, ganhava o jogo e ficava com os pinhões dos outros. Apesar de ser um tempo de grandes dificuldades, as pessoas eram mais divertidas e conviviam mais entre todos. Antes de irmos dormir, gostávamos de cantar versos de Natal, todos juntos com os meus irmãos e irmãs, éramos 14 filhos mais os meus pais. Agora, somos 22, entre filhos, netos e genros. A minha família é grande e gostamos muito de nos reunir e conviver em constante alegria e festa”.



