Quarta-feira, 17 de Agosto de 2022

O SNS é “uma ilha de humanismo no meio do mundo selvagem em que vivemos”

Apesar de reconhecer que muitos aspetos têm que ser melhorados, António Arnaut continua a defender que o Serviço Nacional de Saúde “é uma porta sempre aberta de solidariedade”

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António Arnaut, ex-ministro e fundador do Serviço Nacional de Saúde (SNS), foi a figura central de uma cerimónia realizada no dia 17, em São Martinho de Anta, e que marcou o 20º aniversário da morte do escritor Miguel Torga.

No âmbito da homenagem àquele que ficou conhecido como o “pai” do SNS, foi descerrada uma lápide, instalada do edifício da junta de freguesia de São Martinho de Anta, onde é imortalizada uma frase dita por António Arnaut na altura em que este assinou a lei que permitiu a criação de um serviço nacional “universal, geral e gratuito”. “O Serviço Nacional de Saúde é um cravo de Abril plantado no chão de Portugal”.

35 anos passados desde que a lei foi publicada, o seu autor considera que hoje “há um consenso”, e que “mesmo os partidos da direita, que agora estão no Governo e que na altura votaram contra a lei, o defendem”.

Apesar do SNS ter sido responsável por “grandes milagres”, como a redução da mortalidade infantil, o alargamento da esperança de vida e, sobretudo, a igualdade no acesso aos serviços de saúde, António Arnaut recorda que o sistema do qual foi fundador “sobreviveu a muitos ataques que lhe foram dirigidos por vários governos”.

“Acode as nossas aflições, alivia as nossas dores, prolonga a nossa vida e, sobretudo, dá-nos uma sensação de respeito pela nossa dignidade, porque anteriormente as pessoas que não tinham dinheiro não se podiam curar, e hoje todos são iguais na doença”, sublinhou o ex-ministro.

Relativamente às dificuldades sentidas hoje pelo SNS, o mesmo responsável acredita que este, apesar de algumas deficiências, “como por exemplo nos tempos de espera e em, alguns casos, com a falta de instalações”, ainda é imprescindível para garantir que todos tenham acesso aos serviços de saúde. “Portugal tem hoje dois milhões de pobres, outros dois milhões em risco de pobreza. Há cerca de um milhão de desempregados, mas todos têm acesso à saúde, portanto o SNS continua a ser uma porta aberta de solidariedade, sempre aberta”.

António Arnaut criticou ainda a existência de “muitos interesses económicos que estão contra o SNS, embora não o afirmem diretamente”. Temos hoje “a saúde mercantil, aqueles que têm hospitais e clínicas com objetivo lucrativo”, explicou, reconhecendo que “eles têm liberdade de criar estabelecimentos privados porque vivemos num país democrático”, mas não podem tratar a saúde como “um negócio como outro qualquer”.

A saúde tem que ser pautada por comportamentos éticos e de respeito pela dignidade das pessoas, e muitos daqueles privados não se preocupam com o utente, preocupam-se com o lucro. Vivemos numa economia neoliberal, uma economia que, como explicou o Papa Francisco, “mata”, que “não tem compaixão de ninguém e visa apenas o lucro fácil, especulativo”.

José Luís Gonçalves, presidente da União das Freguesias de S. Martinho de Anta e Paradela de Guiães, que em conjunto com a Câmara de Sabrosa organizou a iniciativa, explicou que a dupla homenagem (a Miguel Torga e António Arnaut) faz todo o sentido. “Era importantíssimo que o amigo de Torga, companheiro, que ‘lhe fechou os olhos’”, marcasse presença na homenagem ao escritor no assinalar no 20 aniversário da sua morte.

O autarca defendeu que “todos os portugueses deveriam ter um bocadinho mais do espírito de Miguel Torga e de Arnaut”. “Além de médico e escritor, Torga foi um homem fantástico, nunca transigiu, tinha o poder de dizer não porque nunca estava comprometido. Era competente, trabalhador e em Portugal nós precisamos de exemplos destes”, defendeu.

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