Sábado, 25 de Abril de 2026
Em Foco“O talento não é uma cama onde nos possamos deitar… é preciso trabalhar”

“O talento não é uma cama onde nos possamos deitar… é preciso trabalhar”

Com apenas 19 anos foi classificada como uma “promessa” na música portuguesa. Cinco anos depois, Catarina Miranda, que assina o seu trabalho como Emmy Curl, lançou, na última sexta-feira, o seu primeiro álbum. A 24 de novembro subirá ao palco da Casa da Música, no Porto, para o lançamento do CD. Entretanto, foi no palco da sua terra natal que subiu, não para cantar mas para falar em exclusivo à Voz de Trás-os-Montes sobre o seu mundo, sonhos e objetivos. Apaixonada por todas as formas de arte, a jovem de Vila Real acredita que todas as pessoas nascem artistas, artistas que muitas vezes acabam por “perder-se” por não serem capazes de fazer crescer o seu talento.

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Como aparece a música na tua vida?

Nasci no meio artístico, rodeada de instrumentos, porque os meus pais já faziam música. O meu tinha um estúdio e eu fui usufruindo desse espaço para as minhas criações, sempre muito autodidata. Nunca pedi ajuda, nem aos meus pais, que durante muito tempo nem sequer sabiam que eu fazia música, só mais tarde é que lhes mostrei os meus projetos. Fui gravando até conseguir fazer um mini álbum, um conjunto de músicas que estavam mais ou menos audíveis.

Quando tinha 16 ou 17 anos, coloquei as músicas no MySpace e começaram a aparecer muitos convites para tocar em bares. Andava com a minha guitarra por bares de todo o país. Em 2010 fui convidada pelo Henrique Amaro para gravar o Optimus Discos, com o “Birds Among the Lines”. Mais tarde gravei o “Origens”, em 2012, depois o “Cherry luna” e agora o “Navia”.

 

No teu trabalho sente-se muito a presença de várias artes, da pintura, da fotografia…

Sim. Como eu nasci num ambiente artístico (além dos meus pais fazerem música, a minha mãe também pintava e o meu pai é arquiteto), tinha os materiais à minha disposição, por isso sempre fui muito ligada, por exemplo, à pintura. Passei a minha infância a fazer colagens, a pintar com aguarela, a apanhar e desenhar flores. Estava em mim. Ser artista não é uma coisa que se aprende, é uma coisa com que se nasce. Todas as pessoas são artistas, ou se tem as ferramentas para trabalha o talento, ou então perde-se, acaba-se por se esquecer. Tirei o 12º ano em artes plásticas e também frequentei muito teatro. Desde os 18 aos 22 anos fui a muitos espetáculos porque comecei a namorar com um rapaz que era encenador, o João Fino, que agora afirma-se como pintor. Inspirei-me nas peças dele, que eram espetaculares. Fiz parte da Rouge, uma banda teatral. Tudo isso também influenciou muito a minha estética.

 

Vês na música a possibilidade de trabalhar um pouco de cada uma das artes?

Não sou profissional em todas as artes, mas identifico-me com todas. Talvez a dança seja a única arte que ainda não consegui explorar. Mas quero muito começar a dança Lindy Hop. O meu propósito não é ser master em todas as artes. Eu dou muito valor é ao processo de criação, de construção das coisas e não me importo muito com o final. Isso apesar de achar que tudo o que nós começamos a fazer devemos fazer com brio. Não se deve deixar nada a meio, não se deve fazer nada por alto.

 

Como defines o seu estilo musical?

É um pouco de tudo. Eu oiço muita música, por isso é um pouco difícil definir. Mas de certeza que tem pop, música celta à mistura, um pouco de eletrónica, folk, talvez singer-songwriters. É difícil definir um estilo, mas talvez diria dream pop.

Desde de 2010, altura em que foste classificada como uma das promessas da música portuguesa, já passaste por vários grandes palcos. Essa experiência com o público, as atuações ao vivo, moldaram a tua música? Agora pensas de forma diferente quando compões?

Claro. Eu gostava de voltar atrás, ao início. Voltar à altura em que nunca quis agradar ninguém. Não tinha expectativas nenhumas. Fazia música para mim. Talvez tenha sido nessa altura que fiz as minhas melhores músicas. Não criava para agradar alguém, não via a música como algo que tinha que produzir para passar na rádio, vender, tocar e assim ganhar a vida. Hoje esse é um medo que eu tenho. As vezes olho para uma música minha e penso que não está “pop” o suficiente, que não vai passar na rádio. De qualquer forma, não passa na mesma, ou passa pouco, porque a minha música não é assim tão comercial. Temos que fazer música porque gostamos. O trabalho vem por acréscimo. Mas é muito complicado conciliar as duas coisas. Acho que todos os músicos têm esse problema, todos os compositores. De certeza.

O que as pessoas podem esperar do “Navia”?

É uma viagem, por isso a capa é uma imagem minha a agarrar um barco. É uma abordagem ao meu trabalho desde o início. Quis que as pessoas ouvissem toda a minha aprendizagem, todo o processo de criação. O CD passa por várias fases, começa com um hino ao Navia, com “Dreams Made This Boat”, depois tem uma marcha para a paz e segue mais na onda de “Cherry Luna” e “Origens”. O fim é mais acústico, mas calmo. O CD é uma viagem, uma onda.

 

E é um trabalho 100 por cento Emmy?

Escrevi as letras, a música, fiz a mistura, editei as fotos. A mistura foi a parte mais complicada. Já tinha misturado as minhas músicas, mas nunca tinha assumido um álbum inteiro. Sabia que muita gente ia ouvir, por isso senti muita responsabilidade. No início, quando fazia as minhas misturas, não sabia se alguém ia ouvir, fazia-o para mim. Foi grande a responsabilidade de ter as faixas todas nas minhas mãos.

Numa entrevista assumiste que muita da tua inspiração vem da natureza. O Douro e Trás-os-Montes estão presentes no seu trabalho?

Sim. O sítio em que nascemos tem muita influência na nossa vida. Eu nasci cá, gosto muito das montanhas, do clima. O sítio onde nascemos viaja connosco a vida inteira, as paisagens e tudo o que nos rodeia faz parte das nossas lembranças de infância. Os nossos gostos vêm muito das primeiras experiências que nos fizeram felizes. Eu vejo o mundo um pouco cego em relação à natureza. Agora está a acordar porque os jovens começam a estar mais sensíveis, também porque estão a ser mais educados para isso. Mas sinto falta disso na arte. Oiço muita música e vejo muitos vídeo clipes e é raro os artistas usarem a natureza como forma de inspiração. Dá-se muita atenção ao amor e as relações. A natureza é um tema que requer importância, porque estamos numa fase muito crítica do planeta.

 

Ainda és bastante jovem, mas já tens alguns anos de carreira. Já consegues definir alguns pontos altos na tua carreira?

Seria um pouco pretensioso da minha parte definir pontos altos da minha carreira… Tenho boas memórias, de momentos extraordinários, mas nunca tive a sensação “uau sou a maior”, até porque nunca me senti grande, de maneira alguma. E é bom continuar assim, porque quando começamos a pensar que somos os maiores, a pressão de ter que fazer música que agrade a todos ainda é maior. Não quero sentir essa pressão. Quero estar um bocadinho às escuras daquilo que as pessoas possam estar a pensar de mim. Mas, talvez venha agora o ponto alto da minha carreira. Estou sempre a procura de mais. O artista nunca está satisfeito e é isso que nos faz continuar.

 

Agora que “Navia” já é uma realidade, já tens na cabeça novos sons para um novo trabalho?

Eu tenho um problema, é que não consigo parar de fazer as coisas. Passo muito tempo sozinha, porque não trabalho numa empresa, o meu trabalho part time é também meu (tenho uma loja on line de roupa vintagem e hand made). Sou eu que faço a gestão da loja e faço-o em casa. E como passo muito tempo sozinha, tenho muito tempo para compor e fazer o que eu quiser. Devia ser segredo, mas posso dizer que daqui há algum tempo vai sair um álbum dedicado a Chiara Bautista, uma ilustradora que é uma grande inspiração para mim. Já fiz algumas músicas e estou a acabar um mini EP dedicado a essa artista.

 

Trabalhas também na moda, mas o objetivo é um dia viver única e exclusivamente da música? Ou pretendes viver dessas várias paixões?

Não faço ideia. Já fiz essa pergunta a mim mesma milhares de vezes. Eu farto-me das coisas muito rápido. Eu crio uma peça, ou uma música, e depois, passado algumas horas já estou a trabalhar em fotografia. Passado um bocadinho já estou a trabalhar na música. Não consigo parar muito na mesma arte, preciso de distribuir a minha atenção. Pode ser um defeito, ou uma virtude… mas viver só da música seria bom, porque também traria a possibilidade de me dedicar à vontade, nos meus tempos livres, a outras áreas. Portanto sim, é um bom objetivo.

 

E chegar a um nível internacional?

Isso era… não sei. Seria muito bom, mas seria um outro cenário. Eu viajo muito com a maré, não penso muito no futuro. Sou muito positiva, tenho boas expectativas. Sei que quero viver bem, quero ser feliz, pelo menos, que é uma coisa que toda a gente quer. Agora, se é lá fora, a nível internacional, ou em Portugal, a cantar em português, não sei.

Este novo álbum traz duas músicas em português. É importante manter as raízes?

Se ficar cá tenho que cantar em português. Se quiser cantar em inglês tenho que ir para fora do país. Ficar cá e cantar em inglês não funciona muito bem.

Porquê não faço mais músicas em português? Porque eu queria encontrar um estilo de som que tivesse a ver o nosso país. Eu não queria cantar em português com uma instrumentação inspirada em músicos estrangeiros. Essas duas músicas são mais inspiradas nos sons tradicionais, a “Eurídice” tem o som de uma bilha, e “Volto na Primavera” parece uma daquelas músicas mais antigas. Quis buscar a raiz da música portuguesa quando as compus.

 

Uma mensagem aos jovens músicos, aos jovens artistas da região que procuram levar a sua arte mais longe…

Não pensem no talento como uma cama onde se deitam. Pensem-no como uma ferramenta e trabalhem-no. Trabalho e talento. As duas coisas juntas dão sonhos infinitos. Fico furiosa quando vejo gente com talento que não sabe usá-lo. É preciso não ter preguiça, seguir o sonho com garra, utilizando as ferramentas que temos, que são muitas. Mas há cada vez mais pessoas a conseguirem o que querem, há cada vez mais artistas e mais músicos. Creio que no futuro a música vai ser uma mera profissão banal. Acho que vai ser quase como ser um sapateiro. Ganhar a vida a fazer música, vai ser como ganhar o dia nas obras. Com a tecnologia que temos tudo se torna mais fácil.


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