IgrejaOs incêndios e alguns desafios aos rurais e aos governantes

Os incêndios e alguns desafios aos rurais e aos governantes

1 – Chegou até à praia da Póvoa de Varzim o cheiro intenso a eucalipto queimado vindo dos incêndios que na última semana de Julho deflagraram pelo norte do país. Num desses dias, a própria cidade acordara envolta numa nuvem escura que se dissiparia durante a manhã. Não era, certamente, o fumo dos montes de […]

1 – Chegou até à praia da Póvoa de Varzim o cheiro intenso a eucalipto queimado vindo dos incêndios que na última semana de Julho deflagraram pelo norte do país. Num desses dias, a própria cidade acordara envolta numa nuvem escura que se dissiparia durante a manhã.

Não era, certamente, o fumo dos montes de Vila Real o que ali chegou, mas as imagens da televisão ajudaram o pensamento a voar para lá e a sentir, à distância, o drama do povo das aldeias do interior do país. Sobre este drama dos incêndios que há anos vem assolando o país ninguém tem soluções prontas e perfeitas, mas todos fazemos perguntas e reflexões gerais que vale a pena partilhar.

2 – Em primeiro lugar, este tipo de comportamento, pelo número de casos, premeditação e persistência, agressão violenta e pânico causados às populações, deve ser classificado de terrorismo. Faz lembrar cenas de guerra. Não é somente o prejuízo; é também o desprezo por velhos e pessoas indefesas, pelos animais e habitações.

Em última análise, é o mundo rural que está em questão.

Com o abandono da agricultura e a saída maciça das populações das aldeias, os montes, e mesmo os terrenos outrora cultivados, ficaram entregues às forças da natureza que anualmente os revestem de alguma vegetação que logo abafa os caminhos pedonais e, secando, se transforma em matéria inflamável. Os poucos e modestos trabalhadores do campo que permanecem nas aldeias, ou que para lá regressam após anos de emigração, não têm capacidade física nem económica para vencerem essa vegetação espontânea que em cada ano surge por toda a parte. Só quem vive na cidade, habituado a ver cultivar os jardins públicos e a mondar os craveiros à janela, é que insiste em impor aos poucos residentes nas aldeias a obrigação da limpeza anual dos montes e caminhos rurais. Nem há pessoal que chegue, nem há tractores que subam a toda a parte, nem há dinheiro capaz de suportar as despesas e pagar o combustível das máquinas e os salários de jornaleiros ou empresas. No norte do país a propriedade rural está muito dividida e, sozinhos, os rurais não são capazes de tais despesas. As lenhas e madeiras hipotéticas e periodicamente cortadas são de valor económico inferior aos salários e aos combustíveis indispensáveis para as tais despesas. Essa limpeza dos montes, caminhos e matas fazia-se antigamente por iniciativa conjunta dos próprios moradores porque eles precisavam do mato para encher as cortes do gado e fazer o estrume daí derivado, das lenhas para o forno do pão, para a cozinha diária e a lareira no Inverno. Actualmente, os poucos terrenos cultivados são adubados com químicos para poderem colher alguma coisa, e em casa cozinha-se com gás. O que era a matéria-prima indispensável para os campos e fonte da economia doméstica não tem hoje utilidade enquanto se não descobrir e organizar outra finalidade.

Com esse abandono da agricultura e a anarquia dos montados vem a sofrer a própria actividade venatória, uma vez que os animais bravios da caça viviam daquilo que podiam ir comendo dos terrenos cultivados, e os incêndios dos montes e campos abandonados acabam por queimar e destruir o habitat natural dos animais que ainda restem.

Os incêndios são, assim, o último sinal de desespero e de alerta pelo abandono da agricultura apressadamente feito há anos.

3 – Sobre as medidas prescritas nos últimos anos pelos governantes, há decisões que devem ser reexaminadas, por exemplo, aquela que impõe o corte das árvores existentes num perímetro de algumas dezenas de metros em redor das novas construções, julgo que cinquenta metros. Com alguma frequência, essas matas, por vezes muradas, já existiam antes da construção das casas, não sendo suas agressoras, mas, ao contrário, foram agredidas. Por isso, o licenciamento municipal das novas construções devia ser precedido do estudo do ambiente, como, de resto, se faz na construção das barragens e abertura das estradas. Impor, sem mais, aos proprietários das matas ou bouças o corte das árvores das mesmas somente porque se deixou ali construir à toa, é uma ligeireza governativa, nascida talvez de preconceitos ideológicos de quem ainda sente que o «proprietário» é sempre o inimigo. Acresce ainda que essas construções à toa acabam por acarretar enormes despesas municipais, quer para fazer o transporte de energia e da água, quer para abrir caminhos de acesso, quer para o transporte de crianças dessas casas para a escola ou dos doentes para hospitais. A planta de uma casa não pode limitar-se a ser estudada e analisada no gabinete dos serviços municipais, mas é necessário conhecer o terreno envolvente onde ela se vai levantar.

4 – Termino esta minha partilha com o excerto de uma mensagem do Papa João XXIII ao povo do campo, que, ultrapassada num ou outro ponto, é muito actual.

«Em primeiro lugar, deveis reconhecer certas vantagens do vosso trabalho. Viveis no interior do templo majestoso da criação que sem cessar evoca a providência de Deus criador; os valores morais que caracterizam o trabalho rural, tais como a maleabilidade para se adaptar e orientar às coisas, a paciência para esperar, a humildade para aceitar surpresas. Ao lado dessas vantagens, há inconvenientes no trabalho rural: o perigo de se distanciar cada vez mais do ritmo da indústria e dos serviços públicos, com graves desequilíbrios da sociedade».

Para obstar a esse mal e impedir o êxodo da população rural, «é necessário que as populações rurais disponham dos serviços essenciais: estradas, transportes, comunicações, água potável, habitações assistência médica, instrução elementar e formação profissional, culto religioso, distracções e tudo aquilo que a casa rural precisa para se mobilar e modernizar» (Encíclica Mater et Magistra, n.128). Na verdade, os estudos dos filhos das aldeias tornam-se mais dispendiosos e as horas de estudo mais reduzidas, a assistência médica mais difícil e menos acessível, os desejos de melhoria social mais difíceis pelo desequilíbrio dos preços entre os produtos agrícolas e os da indústria, com a agravante de os primeiros estarem dependentes de condições climatéricas.

Por tudo isto, o Papa recomenda aos poderes públicos uma especial atenção ao mundo rural, e acrescenta que «os promotores do desenvolvimento económico, do progresso social, da elevação cultural dos meios rurais devem ser os próprios interessados e os agricultores… Devem ser solidários em dar origem a cooperativas, associações profissionais ou sindicais. Nos nossos dias, diz o Papa, é quase impossível que uma voz isolada se faça ouvir e muito menos atender» (ibid. N.149). Devem aceitar rever a extensão da propriedade, solicitar aos organismos oficiais a indicação das culturas a fazer, unir os seus esforços na política de preços e nunca se ausentar dos centros de decisão, onde outros sectores, sem qualquer sensibilidade específica, se virão a instalar.

 

-PUB-


APOIE O NOSSO TRABALHO.
APOIE O JORNALISMO DE PROXIMIDADE.

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo regional e de proximidade. O acesso à maioria das notícias da VTM (ainda) é livre, mas não é gratuito, o jornalismo custa dinheiro e exige investimento. Esta contribuição é uma forma de apoiar de forma direta A Voz de Trás-os-Montes e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente e de proximidade, mas não só. É continuar a informar apesar de todas as contingências, nunca paramos um único dia.

Contribua com um donativo!

VÍDEO

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Mais lidas

PRÉMIO