Um agricultor duriense e sua filha evitaram, a meio da semana passada, o descarrilamento de um comboio, na Linha do Douro, entre as estações de Vesúvio e Vargelas. Luís Manuel Pereira, residente na Quinta do Cachão do Arnozelo, freguesia de Beira Grande, concelho de Carrazeda de Ansiães, foi o homem que terá salvado a vida a algumas dezenas de pessoas que circulavam na composição que fazia a ligação Pocinho-Régua.
Luís Manuel Pereira, com o seu barco, atravessou o rio, para a outra margem, subiu a pé a escarpa íngreme da linha junto ao Douro e ainda teve forças para se colocar no meio da via-férrea, a acenar e aos gritos, para o comboio parar. Tudo isto aconteceu por volta das 17 horas, quando uns pedregulhos rolaram por uma encosta e caíram junto ao Túnel n.º 3 de Arnozelo (Numão), no concelho de Vila Nova de Foz Côa.
“Ouvimos um grande barulho e reparámos que havia marcas de deslocação de terras, junto ao túnel. Então, suspeitei de que algo tinha caído, fui para o barco, enquanto a minha filha tentava avisar a CP e a Rede Ferroviária Nacional, REFER, de que tinha havido uma derrocada, junto à linha. Só que esteve quase meia-hora à espera de ser atendida. E, no princípio, ainda perguntaram se era mesmo verdade!” – contou Luís Manuel Pereira, de 57 anos.
“Quando cheguei e vi as pedras em cima da linha vi logo que se o comboio não parasse iria parar ao rio!” – observou. “Vesti, então, o colete de segurança do barco, pus-me no meio da via larga e, quando vi que o comboio já estava em marcha lenta, senti o aviso da minha filha. Surtiu efeito, respirei de alívio, mas fiquei no meio da linha, a fazer sinais, para o comboio parar. A máquina parou e, depois, saíram o maquinista e o revisor. Os três conseguimos remover os dois pedregulhos da linha que danificaram algumas travessas, seguindo, depois, o comboio”.
Esta já não foi a primeira vez que Luís Manuel Pereira alertou a CP ou a REFER, para a ocorrência de pedras, na via-férrea.
“A zona é muito acidentada e, se não fizerem uma vistoria, como deve ser, aos taludes e às arribadas do troço entre o Tua e o Pocinho, pode repetir- -se o que agora aconteceu”. Cláudia Vilareal Pereira, filha do agricultor, contribuiu, também, para o evitar de um grave desastre ferroviário. Foi ela quem manteve os contactos telefónicos. Porém, não escondeu, ao Nosso Jornal, alguma mágoa, pela forma como a CP e a REFER lidaram com o assunto.
“É incrível, quando a segurança de pessoas está em causa. Liguei para a CP e disseram-me que não era nada com eles. Mandaram-me comunicar com a REFER. Liguei, então, para esta, várias vezes, mas ninguém me atendeu. Tornei a ligar, para a CP, dizendo que não conseguia comunicar e havia o perigo na linha. Então, como quase por favor, o funcionário aceitou ficar com a indicação do ocorrido. Mas, nas calmas, ainda perguntou se a derrocada era grande ou pequena. Tudo isto com o comboio a aproximar-se!”. Por sua vez, o pai de Cláudia Vilareal deixou um lamento: “Ninguém dos dois organismos teve uma palavra de agradecimento, quando ficou patente que a nossa acção evitou um descarrilamento!”.
Jmcardoso



