Segunda-feira, 25 de Outubro de 2021

“Parque de Ciência e Tecnologia será uma realidade a curto prazo”

Cinco anos depois de ter saído da administração dos serviços de Acção Social da Universidade de Trás-os- -Montes e Alto Douro (UTAD), para assumir a direcção do Centro Distrital de Segurança Social, Rui Santos “regressou a casa”, desta vez para assumir o papel de administrador da academia. Ao micro da Rádio Universidade, o convidado do programa Pontos nos J’s respondeu às questões levantadas por Armando Vieira (PSD) e Rodrigo Sá (PS) sobre o presente e o futuro da universidade. Temáticas antigas como o Parque de Ciência e Tecnologia, o curso de medicina ou o financiamento do Ensino Superior não faltaram durante o debate que culminou com a esperança, deixada por Rui Santos, de que “há-de chegar o dia” em que os vila-realenses sintam a UTAD como “uma parte de si mesmos”, e vice-versa. Leia no Nosso Jornal alguns excertos de mais uma edição do programa que será reemitido, na íntegra, já no próximo domingo, pelas 11h00 Como foi o regresso à UTAD? Que grandes alterações encontrou passados cerca de cinco anos desde a sua saída?

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“Eu não saí da UTAD há cinco anos mas sim há 11. Estive seis anos como administrador dos Serviços de Acção Social, uma estrutura orgânica da universidade mas com autonomia administrativa e financeira. Por isso, não é a mesma coisa que a universidade. Neste regresso à minha casa, ao quadro que eu pertenço (sou funcionário da UTAD), encontrei uma universidade obviamente em mudança, fruto da alteração estatuária e também do Processo de Bolonha. Hoje há um Conselho Geral, há cinco escolas. A UTAD deixou de ser uma estrutura departamental e unitária. Encontrei uma casa em mudança e um grande desafio para ajudar a fazer cumprir o programa do reitor recentemente eleito. Estou cheio de vontade de dar o meu contributo para continuar a afirmar a universidade, quer no panorama nacional quer internacional, como uma unidade de referência em Portugal”.

 

Qual é o ponto de situação do projecto do Parque de Ciência e Tecnologia (PC&T)? A primeira candidatura teve uma avaliação negativa…

“Eu costumo dizer que o meu trabalho vai somar-se ao trabalho de muitas outras pessoas, dos presidentes das Escolas, da equipa da reitoria, dos professores. Atrevo-me a falar do PC&T por conhecimento de causa. Não queria de forma nenhuma que fique a ideia de que a minha chegada tivesse ajudado a resolver esse problema. Não.

Este é um processo longo e começou de forma errada. Quem concebeu o PC&T concebeu-o com base numa estrutura física. Um PC&T tem que ter sobretudo pessoas e projectos em termos de Ciências e Tecnologias. Qualquer espaço físico serve, porque o que interessa é o conhecimento, o saber. A comissão internacional, que avaliou de forma negativa a primeira candidatura, foi justa nessa avaliação e hoje acho que isso é reconhecido por todos que participaram no projecto inicial.

Houve vontade política de que a região tivesse um PC&T e foi aberto um segundo período de candidatura, que permitiu reformular o projecto. Neste momento, estamos no bom caminho. Não quero garantir que seja uma realidade, porque não depende de mim, mas tenho uma esperança muito grande, superior a 70 por cento, de que haverá um PC&T assente na área da vinha e do vinho, realista e com uma incubadora de empresas. Será uma realidade a curto prazo. Com a UTAD terá que ser sempre, se será dento ou fora do campus não é o mais importante. O que importa é que seja de excelência e com capacidade para dar resposta aos anseios dos investigadores, dos alunos e da comunidade em geral”.

 

Mas exactamente o que falhou na primeira candidatura?

“A primeira candidatura focava o sector agro-alimentar, era alargada e não era realista em termos de valores financeiros. Quem a organizou não o fez com cuidado suficiente para que aparecesse um verdadeiro projecto agregador de vontades. Há sempre tempo para corrigir. Neste novo projecto há um enfoque na área da vinha e do vinho e a garantia de que há um forte apoio dos empresários desta área. Hoje, há condições que a anterior candidatura não tinha”.

 

O curso de medicina é uma prioridade? É para avançar? A UTAD está preparada para o receber? Pode ser visto como uma prioridade estratégica para a região?

“Para a região é absolutamente estratégica a criação desse curso, e para a universidade também, aliás, consta nas linhas programáticas pelas quais o actual reitor foi eleito. Obviamente que, para que tal venha a ser uma realidade, é necessário conjugar vontades, encontrar o parceiro certo, porque a universidade não consegue avançar sozinha para este projecto. Tem um parceiro natural, o Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro, que hoje, enquanto Hospital Central, tem, quer em termos de infra-estruturas, quer no seu quadro humano, condições que não tinha há alguns anos atrás. A integração da Escola Superior de Enfermagem também faz com que a universidade tenha hoje melhores condições para se candidatar à leccionação deste mestrado integrado, mas é preciso encontrar um parceiro, pode ser a Universidade do Porto, a Católica ou a Cooperativa de Ensino Superior, Politécnico e Universitário (CESPU), como já o foi… É preciso encontrar um parceiro, que também tenha vontade de que isto venha a acontecer. O reitor está a procurar exactamente os caminhos para poder apresentar uma candidatura forte, e para que este desígnio se torne uma realidade. Em termos de infra-estruturas, a construção do bloco de laboratórios poderá contribuir para que a UTAD tenha melhores condições para se apresentar com um projecto vencedor. Esse é um projecto que tem que ser construído com princípio, meio e fim, com calma e de forma sólida e consistente”.

 

Mas, há anos que ouvimos falar no curso de medicina na UTAD. Quando é que poderemos ter alunos de medicina?

“Já vão muitos anos desde a primeira vez que nos candidatamos a um curso de medicina. Mais de uma década. Nessa altura candidatamo-nos a par de todas as outras universidades. Havia já uma resolução do Senado da Universidade do Minho para a criação de um curso de medicina e houve uma vontade política para que o outro surgisse na Universidade da Beira Interior. Candidatamo-nos como se candidataram praticamente todas as universidades. O processo entretanto mudou, e todos os anos as universidades podem fazer candidaturas aos mais diversos cursos, inclusive ao de Medicina. A partir do momento em que tal se tornou possível, foi criado o CHTMAD, continua a justificar-se a formação de médicos, a universidade ganhou competências na área e agrega hoje a Escola de Enfermagem. Tudo isso fez com que a universidade se quisesse candidatar outra vez.

A UTAD encontrou então um parceiro, a CESPU, e resolveu fazer uma candidatura comum. Havia um interesse mútuo, a UTAD queria o curso e a CESPU queria abrir as portas da medicina aos privados.

Há um ano atrás, a candidatura não foi aprovada, mas ficou logo decidido que a nova equipa reitoral tentaria encontrar um parceiro público para apresentar uma candidatura que pudesse vir a ser apoiada. Estamos a apresentar a candidatura no sentido de que possamos ter essa realidade na UTAD a curto/médio prazo”.

 

Ultimamente os alunos têm assumido um compromisso maior na questão do financiamento. Concorda com essa subida na comparticipação dos estudantes. Deveria haver uma nova reorganização na forma como se pensa o ensino superior? Poderia o Estado proporcionar uma diferenciação entre cursos e por localização da Universidade?

“Temos que ter uma comparticipação dos alunos até ao limite do suportável. Sou do tempo da lei 20/92, que defendia que os alunos pagassem até 25 por cento do curso, o que significaria que, hoje, a nossa propina rondaria os 3.500 euros. Isso colocaria uma parte muito significativa dos alunos fora do sistema… Não defendo isso. Claramente, continuo a defender um Ensino Superior eminentemente Público e com o pagamento até ao limite do suportável por parte das família, e salvaguardando sempre aqueles que não podem pagar com uma Acção Social escolar activa e consistente. Hoje, o valor das cursos, variando de licenciatura para licenciatura, estará sempre acima dos dez mil euros/ano. Hoje, a comparticipação do valor das propinas para o orçamento da UTAD não chega aos oito por cento.

Relativamente ao financiamento do Estado Central para as universidades, este varia em função do número de alunos, mas também em função das áreas científicas. Devíamos ter um valor acrescido pela localização? Eu julgo que há 15, 10 ou até cinco anos atrás a UTAD podia reivindicar isso, hoje, com sinceridade, Bragança ou Beja poderão ter mais motivos para o fazer. Se olharmos para a procura e para o nível de colocação, o número de alunos que vêm do Porto é superior ao que sai daqui para qualquer outra universidade do país. Nós litoralizamos. É um fenómeno curioso: o número de alunos que sai do distrito para outras universidades é praticamente o mesmo que vem de outros distritos para a UTAD. Esgotamos a nossa procura. Dentro de três anos, a UTAD terá, se nada de extraordinário acontecer, 10 mil alunos. O nosso número de alunos tem vindo a crescer pela litoralização e pela procura. Tenho dúvidas que seja sustentável reivindicar mais financiamento por via da localização da UTAD”.

 

O que é que falta para que a UTAD e a cidade de Vila Real casem? Ainda há alguns pontos de separação que já deveriam ser pontes de união…

“Isso é um pouco complicado. Na universidade sou visto por alguns como um político, no concelho sou visto muitas vezes como um universitário. Ainda sinto que existe essa separação. Para mim é importante que os políticos tenham profissão, não dependam só da política. Eu faço política em part-time, gosto daquilo que faço e enquanto tiver gozo continuarei a fazer.

O que falta é que a geração formada na UTAD e a que vive a cidade sejam a mesma. Ainda há uma geração que gere a cidade mas que não viveu a UTAD, não cresceu com a universidade, e vice-versa, ou seja, houve uma geração que chegou de fora, que geriu, esteve e está na universidade mas que nunca viveu muito a cidade. Há-de chegar o momento em que as pessoas sentirão a UTAD como parte delas mesmo e vice-versa. Quando isso acontecer, muito desse afastamento tenderá a terminar”.

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