Mais uma vez, os jovens Armando Vieira (JSD) e Rodrigo Sá (JS) sentaram-se à mesa da Rádio Universidade, no dia 27, para o debate político, desta feita com Paulo Pomar que, no final do mês de Agosto, foi nomeado Director Regional do Norte do Instituto de Desporto de Portugal (IDP). Depois de ter estado à frente da Delegação Distrital do Instituto Português da Juventude (IPJ), Paulo Pomar assume as rédeas do Desporto, deixando, desde já, a garantia de que a Direcção Regional, agora sedeada em Vila Real, não é uma “farsa”. Será, realmente, o centro das políticas desportivas, ao nível do Norte. Apesar de não levantar, totalmente, o véu sobre os projectos e as medidas a tomar ou sobre os fundos ao dispor do IDP Norte, o Director deixou no ar algumas ideias, entre as quais a de que “o Desporto, hoje, não é, somente, a actividade física propriamente dita. Desporto é, também, empreendorismo, turismo, economia”.
Em colaboração com a Rádio Universidade, o Nosso Jornal deixa, aqui, alguns excertos sobre o encontro que será retransmitido, na íntegra, em 104.3 FM, pelas 10.30 horas de Domingo.
O que significa a criação de uma Direcção Regional do Norte do IDP e o facto dela estar sedeada em Vila Real?
“A criação desta Direcção é o resultado do conhecido Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado (PRACE). Há uma alteração, no âmbito do IDP, que fez com que fossem extintas as anteriores Delegações Distritais, para serem criadas as Direcções Regionais, com direito a uma Sub-Direcção Regional, que irão coordenar todas as políticas do Desporto, neste caso em concreto, na Região Norte.
Isto significa não só uma alteração daquilo que nós costumamos designar como o edifício legal do IDP, mas, também, uma alteração na sua componente de localização geográfica e, ainda, provavelmente, a alteração mais importante, na sua própria maneira de estar e de trabalhar. Uma nova forma de estar que tem que significar uma ruptura completa com o que era o IDP, pese embora, e é bom frisar, o esforço, a dedicação e o interesse de todas as pessoas que, na Região Norte, assumiram responsabilidades nos cinco distritos. A verdade é que a presença do IDP fora de Lisboa era muito reduzida, em termos de competências e de capacidade de trabalho, e, na maior parte dos distritos de Portugal, até em termos de recursos humanos, como era o caso de Vila Real, Bragança e Viana do Castelo”.
Com a mudança da Direcção Regional, para Vila Real, prevê-se novas estratégias, para inverter a tendência de litorarização do Desporto?
“A litoralização é uma questão que já é vulgar nas nossas discussões e que, no âmbito do desporto, não vale a pena escamotear. Em Portugal, costumamos utilizar a expressão: sem ovos não se fazem omeletas e também aqui se coloca essa questão… não é mentira que há uma grande diferença do número de praticantes e das próprias condições que os agentes desportivos do litoral possuem, face ao interior, e porque não referirmo-nos, mais especificamente, aos distritos de Vila Real e Bragança… Não é possível fomentar e desenvolver a prática desportiva destes distritos do interior se não o apetrecharmos de condições. A Secretaria de Estado da Juventude e do Desporto, assumida no terreno pelas Direcções Regionais, têm já medidas definidas que têm como objectivo central começar a dar esses ovos.
A título de exemplo, fizemos um levantamento, segundo o qual se conclui que 80 Municípios de Portugal não possuem qualquer tipo de relvado natural ou sintético, para a prática desportiva dos jovens. No entanto, se formos ao litoral, somo capazes de encontrar Municípios até com 12 campos. Uma das medidas que foi assumida, desde logo, foi que nenhum concelho de Portugal terá verbas do Estado, para a criação deste tipo de projectos, enquanto existir um único concelho do país que não tenha essas condições.
Mas nem tudo se resume a isso. Por outro lado, a obrigação da Direcção Regional do Norte será, também, o desenvolvimento de programas e de actividades que estejam, sobretudo, mais direccionadas para aqueles que não realizam uma prática desportiva convencional, não são federados, não fazem parte de um clube, ou seja, assumir responsabilidades na elaboração de projectos e programas que visem a melhoria e que estimulem a prática física de jovens e menos jovens”.
Não corremos o risco de ter apenas um Director, em Vila Real, e que a Direcção tenha as suas decisões noutros centros?
“Isso seria uma farsa. Não podemos falar de uma Direcção Regional com um Director e um funcionário. A Direcção Regional tem que ser um serviço que dê respostas a quem a ele se dirige. Neste momento, não é fácil, porque o quadro mental das pessoas está muito direccionado ao que era a Delegação, antes. Esqueçam! É preciso tornar isso claro, porque não estamos a falar de cosméticas”.
Se o Desporto ficou a ganhar, a juventude poderá ter ficado a perder? Chegou-se a falar da morte do IPJ, em Vila Real…
“Bem, aqui vou ter que tirar um pouco a capa de Director Regional de Desporto, para falar com a responsabilidade de quem assumiu funções no IPJ, funções que realizei com imenso prazer. O IPJ, apesar de ser uma estrutura que faz parte da mesma Secretaria de Estado, é uma realidade muito diferente do IDP, embora também tenha sido alvo de uma reestruturação que levou à criação de Direcções e Sub-Direcções Regionais. Eu, que, na altura, acompanhei e acompanho, com todo o gosto, este processo, relativamente ao IPJ, fiquei um pouco incomodado com a noção que passou, relativamente à Delegação de Vila Real. Passaram três ou quatro meses desde que eu deixei de exercer funções na Delegação Distrital e posso garantir, com toda a certeza, que não há um jovem ou uma associação juvenil ou um utente qualquer, do distrito, que possa dizer que tenha tido um tratamento diferente, relativamente a quatro meses atrás.
Obviamente que há diferenças, mas, naquilo que são os serviços para a Juventude, no distrito, não houve perda.
Sobre os funcionários, como aconteceu no IDP, também está a ser feito um levantamento, a nível nacional. A minha convicção é que não teremos uma estrutura tão elevada, em termos de números de pessoas, mas daí até falarmos em colocar pessoas no desemprego vai uma grande diferença.
Quero deixar claro que, ao contrário do que chegou a ser dito, nunca sequer foi pensado, pelo Governo, eliminar, linearmente, o IPJ. Aliás, o Governo tem planeado o alargamento dos serviços do IPJ, num modelo diferente, a cada concelho”.
A anterior responsável do IDP de Vila Real sentia-se “de mãos atadas”, por falta de meios financeiros… E, como já referiu, sem ovos não se pode, de facto, fazer omeletas. Concretamente, que meios financeiros vai ter a Direcção Regional Norte?
“Estamos a falar de uma Direcção Regional, não estamos a falar de uma estrutura que vai dando um apoiozinho, aqui e ali, para os troféus, com todo o valor e mérito que isso tem… É sabido que estamos perante o Quadro de Referência Estratégia Nacional que tem definidos dois eixos, onde o Desporto vai ter acção. Quando ouvimos falar em dinheiros da Europa, não falamos em brindes, pensamos em milhões. A realidade é que, muito em breve, teremos que servir de elo de ligação entre os Municípios, a Presidência do IDP e a Secretaria de Estado.
Por outro lado, em breve, cada Director Regional vai apresentar um plano de acção, para cada região. O que será expectável é que as Direcções tenham fundos próprios, para a execução dos seus objectivos. Não falo hoje em números, mas lembro que estamos a falar de uma das regiões mais fortes do país, também no âmbito desportivo.
Temos, também, uma nova filosofia: o importante não é apenas executar, temos que ser pró-activos, temos que ser nós a mexer-nos e a promover”.
Partindo do pressuposto de que o dinheiro é limitado e que deverão ser tomadas opções, tem alguma sensibilidade, em especial, para o concelho de Vila Real?
“É preciso que fique claro que o Director não chega e distribui os fundos de qualquer maneira. Todas as candidaturas ao QREN têm uma análise muito pura, do ponto de vista técnico do diagnóstico e da potenciação do próprio investimento. Não vou ser eu que vou decidir a questão, sozinho. Temos responsabilidades em cinco distritos, em mais de 80 concelhos, é claro que este é um processo que tem que ser mais do que transparente. Tenho 40 anos de Vila Real e tenho, pela minha cidade, um gosto enorme, como é natural, mas é necessário ter alguma frieza, nesta análise”.
Quando se fala em Desporto, a cabeça de muitas pessoas está formatada para o Futebol, mas existem várias modalidades desportivas que precisam e merecem apoio…
“É bom que fique claro que não sou nenhum especialista em Desporto, mas a noção que tenho, no que diz respeito ao nosso papel, em termos de Direcção Regional, vai, exactamente, nesse sentido. Toda a gente gosta de futebol, mas, agora, acho que devemos potenciar aquilo que pode ser desportivamente atractivo, na nossa própria região.
O desporto, hoje, não é só a prática desportiva propriamente dita, o Desporto, hoje, é empreendorismo, é turismo, é economia. Eu julgo que, na nossa região, devemos incentivar práticas desportivas que brotem, naturalmente. Um exemplo concreto: os distritos de Vila Real e Bragança poderão ser potenciados em modalidades como, por exemplo, a Orientação que tem tido um forte desenvolvimento e um trabalho muito bom. Os Desportos de Montanha, o BTT, tantas outras. Ou seja, o objectivo é não limitar a nossa acção aos desportos de grandes massas.
Mas, até em relação ao futebol, há uma nova filosofia. Eu não tenho problema nenhum em dizer que, na minha modesta interpretação do fenómeno desportivo, é um erro patrocinar qualquer investimento em relvados ou em campos sintéticos em Municípios onde essa infra-estrutura ficará longe das escolas, longe das populações. Aquela ideia de que um campo de futebol é usado por 22 pessoas que treinam, periodicamente, tem que acabar, porque esses espaços têm que ser potenciados, para muitas mais pessoas. E prova disso é, exactamente, o projecto de criação de 100 campos polivalentes, em todo o país, um projecto que também vai trazer, para Vila Real, um nova infra-estrutura, um campo que será construído na zona do Bairro Torreslar e que poderá ser utilizado por toda a população. É um espaço verdadeiramente público, não há nenhum clube a gerir, é para qualquer um de nós”.
Maria Meireles






