Proeminências abdominais

No tempo em que os animais falavam, uma barriga acentuada era sinal de prosperidade. Não fosse mal de fígado, por visitas amiúde à adega, a “pança” era uma certidão de abundância. Desde o lavrador, plantado na sua varanda, polegares metidos nos bolsilhos do colete, cigarro de mortalha a crepitar no canto dos lábios, e o olhar no horizonte medindo a grandeza da propriedade, até aos salões da burguesia, onde os capitalistas, de charuto a empestar, gravata de seda com pérola, fraque a apertar banhas, discutiam as subidas e descidas das acções, que as barrigas ostentavam a auréola da riqueza.

Mas os tempos mudaram, e as então proeminências abdominais transformaram-se em sinal de desleixo, de pouco cuidado, retrato dos que pensam mais no deleite de um bom cozido regado com um “reserva”, do que no trabalho, dos que passam a maior parte do dia com os pés debaixo da mesa.

O homem de hoje quer-se elegante, musculado, quer seja trolha quer seja banqueiro. Barrigas a pingarem fora das calças, com uma camada untuosa a dobrar o cinto forçando a camisa a sair da clausura da cinta, já não se usa.

Dizem os médicos que o abdómen saliente dá pouca saúde, pois é padrinho do colesterol, amigo dos cancros ventrais, compadre da diabetes, afilhado do ácido

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