Juntar produtos tradicionais em cabazes de “alta qualidade” e vender directamente aos consumidores, de modo a não só escoar as produções mas, também, aproximar a população das explorações agrícolas locais e promover, ainda, por tabela, uma alimentação mais saudável, são algumas das mais-valias do “Prove”, um projecto de sucesso, noutros concelhos do país e que, agora, poderá mobilizar os pequenos produtores vila-realenses.
“Criar novas formas de comercialização, numa relação de proximidade entre consumidores e produtores, fundada em princípios de ética e solidariedade” é um dos objectivos do “Prove”, um projecto que nasceu, em 2004, na zona de Palmela, e cujo sucesso levou ao desejo da sua expansão, a nível nacional, tendo sido apresentado, aos agricultores vila-realenses, ontem, num Fórum da Federação de Associações Agro-Florestais Transmontanas (Fagrorural).
Segundo Cláudia Bandeiras, da Associação para o Desenvolvimento Rural da Península de Setúbal (ADREPES), entidade dinamizadora do “Prove”, o projecto nasceu com o intuito de “resolver problemas de comercialização de pequenos agricultores que se encontravam na eminência de extinção, devido a problemas de escoamento dos produtos, através da organização de uma plataforma de venda directa aos consumidores, ou seja, sem intermediários”.
A estrutura do “Prove” consiste, então, na união de um grupo de pequenos agricultores que, semanalmente, inserem os seus produtos hortofrutícolas em cabazes que, depois, são vendidos, aos consumidores.
“Os locais de venda podem ser espaços de associações, de autarquias ou de cooperativas agrícolas, onde os consumidores vão levantar os seus cabazes”, explicou a responsável pela ADREPE, sublinhando que o sucesso registado em Palmela e Sesimbra, onde estão incluídos, no projecto, oito produtores, é notório, com a comercialização de uma média de 60 a 70 cabazes, por semana, em cada um daqueles Municípios.
“Os cabazes contam sempre com batatas, cebolas e cenouras, legumes e frutas variadas e ervas aromáticas”, explicou Cláudia Bandeira, realçando que as cestas pesam à volta de sete quilos e custam, ao consumidor, nove euros, menos cerca de 1 ou 2 euros que, por exemplo, nos supermercados e grandes superfícies.
Para além de viabilizar a actividade dos pequenos produtores, o “Prove” é ainda responsável pela “sensibilização e mobilização dos consumidores urbanos, para a redescoberta dos territórios rurais, dos seus produtos e tradições”.
“Os consumidores acabam por conhecer melhor os agricultores e, por vezes, até são convidados a levar os filhos a visitar as suas explorações, o que é muito importante, em zonas onde há uma forte pressão urbana”, revelou a coordenadora do projecto.
Cláudia Bandeiras explicou que, para que a “rede” se constitua, em Vila Real, basta que alguma associação, Junta de Freguesia, Cooperativa ou, até, mesmo, um grupo organizado de agricultores adoptem a filosofia de “comercialização de proximidade”, sendo que a ADREPES já teve o “feedback” positivo, por parte de várias autarquias que se mostraram interessados em dinamizar o “Prove”, junto dos seus agricultores.
“É importante que os agricultores deixem de pensar como ilhas e passem a ter uma visão de arquipélago”, retratou Carlos Guerra, Director Regional da Agricultura do Norte, durante o Fórum promovido pela Fagrorural, parceira da ADREPES, sobre o tema da “Agricultura em Territórios Periurbanos”.
Segundo o mesmo responsável, quando os agricultores se organizam, os resultados são projectos com “grande margem de sucesso”.
“Os agricultores têm que deixar de lado esse individualismo suicida”, frisou Carlos Guerra, sublinhando que falta, ainda, aos transmontanos, “a participação cívica”, em associações e cooperativas, cujos corpos sociais são “praticamente, vitalícios”, devido à falta de interesse e de participação dos agricultores.
“Temos produtos de alta qualidade e temos que nos organizar, para uma comercialização mais eficaz”, voltou a frisar Carlos Guerra, referindo que a imagem do produtor a vender as cerejas, à beira da estrada, está ultrapassada e deve dar lugar a projectos de comercialização sustentados que tragam mais-valias aos pequenos produtores.
Como exemplo positivo, o Director falou do sector dos lacticínios que “se, há dez anos, se pensava que não ia longe, depois da organização de produtores e da aposta na transformação dos produtos e na comercialização, hoje tem um valor de produção superior ao do vinho, com cerca de 700 milhões de euros, por ano”.
Apesar de sublinhar alguns pontos negativos do perfil dos agricultores transmontanos, o Director Regional sublinhou que a Região Norte voltou a ser mais dinâmica, no que diz respeito às candidaturas apresentadas nas primeiras fases do PRODER (que incluiu as medidas agro–ambientais, por exemplo).
“Entre 12 mil candidaturas apresentadas, 80 por cento (9.600) são provenientes da Região Norte”, contabilizou Carlos Guerra.
Maria Meireles


