Sábado, 25 de Abril de 2026
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Quando a Música corre nas veias…

Tocou em períodos de guerra, em momentos de fome, em cenários em que a música era o que fazia a diferença para garantir uma realidade menos sofrida. Com mais de duzentos anos de história, a Banda Filarmónica de São Mamede de Ribatua formou milhares de jovens, ‘nota a nota’. Soube evoluir, crescer e hoje continua a merecer o carinho e respeito da sua comunidade e do país, fazendo jus ao adágio popular de que naquela aldeia “até as pedras da calçada tocam música”

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Depois de completar o seu 215º aniversário de existência, em 2014, a Banda Filarmónica de São Mamede de Ribatua, considerada a mais antiga do país com atividade ininterrupta, mantém-se firme, apostando não só na qualidade dos seus espetáculos mas também na formação de mais de três dezenas de crianças.

Existem fontes de via oral que indicam que a Banda foi fundada na mesma altura em que a Região Demarcada do Douro foi delimitada, por ordenação do Marquês de Pombal, em 1756, com imigrantes oriundos da Galiza que vinham trabalhar nas terras do Douro. Uma pesquisa documental nos seus arquivos e noutras fontes leva os historiadores só até à segunda metade do século XIX. “Mas, segundo reza a história, a Banda de São Mamede de Ribatua foi fundada em 1799”, explicou João Cruz, atual presidente da direção da coletividade.

“Provavelmente não deve haver nenhuma casa na aldeia que não tivesse músicos ou familiares de músicos”, testemunhou o dirigente associativo sublinhando que ao longo de décadas de atividade muito próxima da comunidade, o mais importante é que as pessoas daquela freguesia do concelho de Alijó “sabem ouvir música”.

Além da comemoração do seu bicentenário e de outros importantes momentos, a história da banda ficou marcada por uma visita especial à aldeia realizada há três anos, altura em que Gabriela Canavilhas, então Ministra da Cultura, se deslocou a São Mamede de Ribatua para entregar a medalha de mérito nacional à coletividade, tendo também anunciado na altura a instituição do Dia Nacional das Bandas Filarmónicas, que passou a ser assinalado a 1 de setembro.

Em 1977, na altura sobre a presidência de Orlando Gaspar, a banda ganhou a sua primeira sede própria, com a construção de um auditório que, “na época já tinha uma grande qualidade em termos e condições acústicas”.

Mais de três décadas depois, foi dado outro salto com a cedência, pela Câmara Municipal de Alijó, da escola primária local, o que permitiu à banda apostar em força na formação.

 

Banda garante escola de música com fundos próprios

 

Atualmente, além da filarmónica, que conta com cerca de 55 elementos, a banda de São Mamede de Ribatua conta ainda com uma escola de música que acolhe mais de 30 crianças, suportando as despesas principalmente com as receitas das atuações em procissões e romarias.

“As crianças pagam dez euros por mês. É um valor simbólico para serem associados da banda”, explicou João Cruz, revelando à VTM que, ao contrário de outras coletividades, a filarmónica não recebe quaisquer apoios municipais desde há três anos, devido a dificuldades económicas da autarquia.

O mesmo responsável explicou que é necessária “muita ginástica” financeira para manter o nível conquistado ao longo dos anos, sobretudo tratando-se de uma banda sediada numa aldeia do interior.

Uma das necessidades mais prementes está na renovação e aquisição de instrumentos, isso porque, como explicou o seu presidente, a banda corre o risco de não poder mais oferecer os instrumentos aos jovens, como tem acontecido até aqui. “Precisamos urgentemente de comprar um instrumental novo. Como temos tantas crianças a aceder à banda, já não temos capacidade para dar resposta, porque são muito caros”, lamentou o mesmo responsável, lembrando que são também muitas as despesas com a manutenção e acessórios.

O desafio para este ano passa por lançar o apelo à Câmara e à Secretária de Estado para que deem algum apoio, estando ainda prevista a possibilidade de elaborar um projeto caso haja alguma janela de financiamento no próximo quadro comunitário de apoio.

 

Contando com um total de 55 músicos, a banda de São Mamede de Ribatua continua a dar música graças à “grande dedicação” dos seus músicos, que, em muitos casos, vivem, estudam e trabalham noutros concelhos, e até distritos, mas deslocam-se religiosamente ao fim de semana à terra natal para as aulas e ensaios.

Hugo Leite é um desses exemplos. “Entrei para a banda em 1991, quando tinha 11 anos, e foi aqui que ganhei o gosto pela música”, recordou o professor que, com a música a correr-lhe nas veias, optou mesmo por prosseguir os estudos e a vida profissional nesta arte.

Professor de saxofone no Curso de Música Silva Monteiro, no Porto, e no Conservatório de Gaia, Hugo Leite não falta às aulas que dá também aos sábados na escola de São Mamede de Ribatua. “Financeiramente não é nada fácil, mas há um gosto e tudo se acaba por superar”, sublinhou.

Valter Palma, maestro da banda, sabe também as exigências e a devoção necessária para viver intensamente a realidade de uma banda filarmónica, uma vez que também ele cresceu no seio de uma.

“Iniciei os meus estudos na banda de Nogueira (Vila Real), fui depois para Conservatório Regional e terminei na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo, no Porto, onde estou atualmente a fazer o mestrado”, recordou o maestro, que aos sete anos começou a ‘tirar’ as primeiras notas do clarinete, na altura ainda demasiado grande para a sua estatura.

Na filarmónica de São Mamede há cinco anos, o professor considera o “trabalho gratificante” porque já tem alunos que começaram com ele e que agora despertam para a possibilidade de uma vida direcionada para a música.

Como explicou, a escola da banda tenta seguir os seus trabalhos de forma o mais semelhante possível ao sistema de uma escola oficial. “Temos uma turma de iniciação musical e uma Orquestra Orrf, onde os miúdos têm o primeiro contacto com a música”, revelou. A educação das crianças passa ainda pela formação musical, por aulas de canto e de instrumento (individuais) e por uma orquestra juvenil.

“Rica” no que diz respeito à variedade dos instrumentos e no talento, o grupo é atualmente “multifacetado”, adaptando-se facilmente o seu repertório aos vários tipos de atuação.

Realizando uma média de 10 a 12 atuações em romarias e procissões por ano, a banda tem a ambição de conseguir fazer mais concertos. “Costuma-se dizer que as bandas são as orquestras do povo. Uma romaria sem uma banda filarmónica não parece uma romaria. Nós temos muito respeito pelas tradições, mas os músicos gostavam de subir mais ao palco”, explicou Valter Palma.

No que diz respeito a projetos futuros, já em fevereiro a banda vai receber um estágio de maestros formados numa escola do Porto, um desafio novo e enriquecedor para os músicos.


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