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Rosa Branca

Passada a euforia das festas de Natal e Ano Novo, voltamos à realidade da vida com dor. Sim, a dor é uma realidade, embora a palavra esteja a ser pronunciada e escrita cada vez mais raramente, quase com pudor. Porém, ela está sempre aí, ao virar de cada esquina, no segredo de cada lar, na solidão de cada cemitério, na pobreza de cada desemprego, no desgosto de cada abandono...

Sim, a dor existe e torna-se angustiante se ignoramos a sua existência porque ela vive sempre no homem em algum momento ou período da sua vida. Negar que a dor dói, magoa, rouba vitalidade, afasta a alegria, diminui o apetite, convida à tristeza, afirmar, enfim, que não há dor é uma falsidade, uma mentira. Paradoxalmente, a dor torna-se menos dura se aceitamos a sua existência e deixamos que siga a sua evolução normal. Tal como os golpes na carne que não devem ser ignorados, mas tratados, para prevenir infecções e proporcionar maior conforto (menos dor) na zona ferida, assim os golpes na alma devem ser levados em conta e tratados convenientemente.

Uma das dores que menos se valoriza é a sofrida pelos pais que perdem um filho, particularmente se não nascido. Para um casal que se ama verdadeiramente, o filho existe desde o primeiro instante em que “o segredo” se pressente. Com que ilusão se fazem as primeiras compras (ou a jovem mãe confecciona o pequeno enxoval), se prepara o berço, o quarto ou espaço para o novo hóspede! De repente, dá-se o aborto, palavra terrível conectada com o acto voluntário de provocar esse mesmo efeito: deixar sem vida um bebé não nascido. Para estes pais, surpreendidos pela dor súbita de um sonho de amor que se perdeu, acumulam-se muitos outros sofrimentos causados pela incompreensão de quem quer consolar sem entender de amor: – “Terão outro filho”, como se um filho pudesse substituir outro! –“Ainda não era gente!”, frase esta, talvez, a mais dura de ouvir: o que é senão gente, pessoa, o fruto do amor? –“Depressa esquecerão” como se uma mãe, um pai, quisessem esquecer o filho como se não o tivessem começado já a amar. E que dizer dos pais, homens, tantas vezes esquecidos da compreensão dos amigos. –“Agora, tens de consolar tua mulher” lhes dizem, como se eles não necessitassem também de consolo e compreensão. Neste ambiente, como conseguir fazer o luto que o coração pede?

Kimberly Hahn conta, no seu livro “El Amor que da Vida – El maravilloso plan de Dios para el matrimonio” (Ediciones Rialp, Madrid), como uma mulher costuma oferecer uma rosa branca aos amigos que perderam um filho fazendo-a acompanhar de um cartão. Passo a traduzir o texto do citado livro na sua tradução castelhana:

“Espero que, partilhando esta rosa e os meus pensamentos entendas com que profundidade partilho também a tua dor. Depois da morte do meu primeiro filho, seu pai presenteou-me com uma simples rosa branca. Cada parte desta rosa tem um significado especial para mim:

-O pé comprido: recorda-me o vínculo de amor, o meu unido ao do Senhor, que faz com que este filho una o céu com a terra

-Os espinhos: sofrimento, cuja dor só o tempo poderá aliviar, mas não fazer esquecer

-O botão que começa a abrir-se: os sonhos que tinha para este filho e que começam a florescer plenamente na eternidade

-O branco: a inocência deste filho diante de Deus

-Uma: a minha solidão que nunca conhecerá o calor do seu corpo em meus braços

-A beleza: a beleza do amor de Deus vista em mim e manifestada por meio de mim no meu filho”.

Sempre que manifestamos, com sinceridade, quanto nos afecta a perda de alguém estamos, de certo modo, a compartilhar (partir com, dividir) o peso do sofrimento.

Sabemos que a perda de um filho pode gerar novas perdas. Alguns casais separam-se depois desta experiência tão dolorosa. Apesar desta realidade, ouso afirmar que a dor tem a virtude de unir os que se querem bem, tornando esse amor mais forte e seguro. Identificar a dor, dar-lhe o seu devido tempo de luto e lugar no coração (objectos para recordar mais tarde) podem ajudar a sarar a ferida da dor. A sua marca permanecerá porque se viveu um facto real, mas os pais continuarão capacitados para amar e, sobretudo, amar-se um ao outro.

-PUB-


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