Sim, a dor existe e torna-se angustiante se ignoramos a sua existência porque ela vive sempre no homem em algum momento ou período da sua vida. Negar que a dor dói, magoa, rouba vitalidade, afasta a alegria, diminui o apetite, convida à tristeza, afirmar, enfim, que não há dor é uma falsidade, uma mentira. Paradoxalmente, a dor torna-se menos dura se aceitamos a sua existência e deixamos que siga a sua evolução normal. Tal como os golpes na carne que não devem ser ignorados, mas tratados, para prevenir infecções e proporcionar maior conforto (menos dor) na zona ferida, assim os golpes na alma devem ser levados em conta e tratados convenientemente.
Uma das dores que menos se valoriza é a sofrida pelos pais que perdem um filho, particularmente se não nascido. Para um casal que se ama verdadeiramente, o filho existe desde o primeiro instante em que “o segredo” se pressente. Com que ilusão se fazem as primeiras compras (ou a jovem mãe confecciona o pequeno enxoval), se prepara o berço, o quarto ou espaço para o novo hóspede! De repente, dá-se o aborto, palavra terrível conectada com o acto voluntário de provocar esse mesmo efeito: deixar sem vida um bebé não nascido. Para estes pais, surpreendidos pela dor súbita de um sonho de amor que se perdeu, acumulam-se muitos outros sofrimentos causados pela incompreensão de quem quer consolar sem entender de amor: – “Terão outro filho”, como se um filho pudesse substituir outro! –“Ainda não era gente!”, frase esta, talvez, a mais dura de ouvir: o que é senão gente, pessoa, o fruto do amor? –“Depressa esquecerão” como se uma mãe, um pai, quisessem esquecer o filho como se não o tivessem começado já a amar. E que dizer dos pais, homens, tantas vezes esquecidos da compreensão dos amigos. –“Agora, tens de consolar tua mulher” lhes dizem, como se eles não necessitassem também de consolo e compreensão. Neste ambiente, como conseguir fazer o luto que o coração pede?
Kimberly Hahn conta, no seu livro “El Amor que da Vida – El maravilloso plan de Dios para el matrimonio” (Ediciones Rialp, Madrid), como uma mulher costuma oferecer uma rosa branca aos amigos que perderam um filho fazendo-a acompanhar de um cartão. Passo a traduzir o texto do citado livro na sua tradução castelhana:
“Espero que, partilhando esta rosa e os meus pensamentos entendas com que profundidade partilho também a tua dor. Depois da morte do meu primeiro filho, seu pai presenteou-me com uma simples rosa branca. Cada parte desta rosa tem um significado especial para mim:
-O pé comprido: recorda-me o vínculo de amor, o meu unido ao do Senhor, que faz com que este filho una o céu com a terra
-Os espinhos: sofrimento, cuja dor só o tempo poderá aliviar, mas não fazer esquecer
-O botão que começa a abrir-se: os sonhos que tinha para este filho e que começam a florescer plenamente na eternidade
-O branco: a inocência deste filho diante de Deus
-Uma: a minha solidão que nunca conhecerá o calor do seu corpo em meus braços
-A beleza: a beleza do amor de Deus vista em mim e manifestada por meio de mim no meu filho”.
Sempre que manifestamos, com sinceridade, quanto nos afecta a perda de alguém estamos, de certo modo, a compartilhar (partir com, dividir) o peso do sofrimento.
Sabemos que a perda de um filho pode gerar novas perdas. Alguns casais separam-se depois desta experiência tão dolorosa. Apesar desta realidade, ouso afirmar que a dor tem a virtude de unir os que se querem bem, tornando esse amor mais forte e seguro. Identificar a dor, dar-lhe o seu devido tempo de luto e lugar no coração (objectos para recordar mais tarde) podem ajudar a sarar a ferida da dor. A sua marca permanecerá porque se viveu um facto real, mas os pais continuarão capacitados para amar e, sobretudo, amar-se um ao outro.



